7ª Arte

Três filmes onde a política foi protagonista

*Artigo redigido no âmbito da edição especial de Janeiro “Sufrágio Contemporâneo”

2021 começou com acontecimentos importantes, tanto na política nacional como internacional. Se a 20 de janeiro Joe Biden tomou posse como 47º Presidente dos Estados Unidos, por cá também já ficámos a saber quem será o nosso Presidente da República nos próximos cinco anos (sem surpresas, diga-se). Em qualquer um dos casos, a cobertura da corrida a cargos presidenciais é feita como se de um filme se tratasse – ultimamente, têm-se assemelhando a uma comédia satírica.

As complicações da vida política há muito que são motivo de interesse para Sétima Arte, tem dedicado muitas das suas obras a momentos-chave que marcaram o panorama político ao longo dos anos. Os filmes abaixo são apenas alguns exemplos dos mais marcantes contributos do cinema na celebração da política.

O Candidato (1972), realizado por Michael Ritchie

Fonte: The Black List Blog

Bill McKay, um jovem advogado atraente, charmoso e com importantes ligações políticas, concorre ao senado nas eleições americanas sem qualquer tipo de experiência. Ao longo do percurso vai ganhando um protagonismo invejado e conquistando a atenção do público através do seu carisma. Inevitavelmente, e como consequência dos efeitos da máquina de propaganda à sua volta McKay – interpretado pelo lendário Robert Redford – perde a sua essência genuína e transforma-se num homem sem escrúpulos, consumido pela ideia de poder.

O papel principal afirmou Redford como um nome forte do cinema, naquela que é considerada uma das suas melhores prestações. E o reconhecimento é merecido: Redford não traz apenas o carisma e charme inegáveis para o ecrã, mas é ele o responsável pela complexidade da personagem e pela dimensão profunda que lhe acrescenta quando acompanhamos o caminho de McKay até ao vazio de princípios que a sua figura se torna.

Mas falar de O Candidato, ou The Candidate no título original, obriga a falar de Jeremy Larner, que escreveu o guião. Larner venceu o Óscar da Academia para Melhor Guião Original em 1973 e não é difícil perceber o porquê: é que antes de ter escrito o roteiro de um filme sobre um candidato nas eleições americanas, foi ele o responsável por escrever todos os discursos de Eugene J. McCarthy, um político democrata, durante a corrida deste para o senado em 1968. Portanto, Jeremy Larner estava mais do que familiarizado com a máquina que faz funcionar uma campanha política e colocou a realidade que tinha experienciado em papel.

O Candidato é considerado um drama satírico, mas com o panorama político atual é inevitável questionarmo-nos se a sátira não foi já substituída por uma perversa e bizarra realidade.

Os Homens do Presidente (1976), realizado por Alan J. Pakula

Fonte: Plano Crítico

Foi um dos escândalos do século XX e, possivelmente, o momento mais marcante da política norte-americana. Em 1972, a sede do partido democrata americano, no edifício Watergate, foi invadida com o objetivo de fotografar documentos confidenciais e instalar escutas. Dois jornalistas do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, começam a investigar o caso e descobrem que por trás do plano de invasão estava Richard Nixon, o presidente republicano dos Estados Unidos. As consequências da investigação levaram à demissão de Nixon e o caso tornou-se o mais mediático de corrupção no governo americano.

Mas esta tanto é a história real como o enredo do Os Homens do Presidente, que conta ao detalhe todo o processo de investigação jornalística dos dois repórteres do The Washington Post. O filme tornou-se um marco icónico do cinema e é quase um manual “How to…” para todos os jornalistas. E essa talvez seja a sua maior qualidade e o seu maior defeito, simultaneamente.

A qualidade da obra é inegável – e os quatro Óscares que venceu são um fortíssimo argumento a favor – mas o facto de se tratar de um retrato tão fiel de uma investigação jornalística pode torná-la demasiado complexa. É fácil perdermo-nos no meio de tantas informações: são nomes, contactos, moradas e ligações infindáveis que temos de conseguir acompanhar. Para além disto, criar empatia com as personagens não é fácil neste filme. O foco é a história e as etapas de investigação e, por isso, a vida das personagens principais – os jornalistas interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford – não interessa aqui, e torna difícil sentirmos uma ligação genuína com eles.

Não obstante, Os Homens do Presidente é um daqueles filmes obrigatórios de se ver e um retrato fiel do poder do jornalismo na política.

Milk (2008), realizado por Gus Van Sant

Fonte: Folha de São Paulo

Ter o Sean Penn como protagonista de um filme é a garantia de que o ator vai desaparecer completamente e que vamos ver única e exclusivamente uma personagem e vivê-la com a mesma intensidade com que sentiríamos a história de alguém real. Penn transforma-se nas personagens que interpreta e é uma pena que nos últimos anos o seu nome esteja mais associado à “El Chapo Situation” do que ao seu brilhante trabalho enquanto ator.

Em Milk, o ator dá vida a Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a ocupar um cargo político nos Estados Unidos, em 1977. O filme conta a história dos últimos oito anos de vida do ativista e do seu percurso enquanto voz ativa pela igualdade e direitos até ao seu assassinato em 1978, no ano seguinte à sua nomeação para um cargo público na Califórnia. A história é verídica e Sean Penn é o grande responsável pelo sucesso do filme, com a sua interpretação crua e carismática do genuíno Harvey, o que lhe valeu o Óscar de Melhor Ator.

Gus Van Sant, o realizador, foi também brilhante na forma como passou para o ecrã a cena da morte do protagonista. Se o filme tem um tom, no geral, otimista indo ao encontro da própria essência de Harvey Milk, o momento do assassinato é brutalmente violento e difícil de ver. Mas é assim que faz sentido. Ver a morte cruel recriada no filme relembra-nos de que aquele momento aconteceu mesmo e que a brutalidade do fim de Harvey foi bem real.

Milk não só é um filme extraordinariamente bom como é também extraordinariamente relevante nos dias de hoje. Mesmo que já estejamos em 2021.

Artigo redigido por Madalena Guinote

Fonte da imagem de destaque: The New Yorker

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