Opinião

Urbi et obras: Ponto Final

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Não há nada mais antipatriótico do que escrever ou falar mal a língua nativa. No caso da língua portuguesa, para mim, é ainda mais grave. A nossa língua é, muito provavelmente, a maior marca cultural que espalhámos pelo mundo, tendo em conta o número de falantes. Por outro lado, é das poucas coisas que ainda mantemos (embora com alterações) dos tempos mais gloriosos da pátria.

Qualquer pessoa pode dar um erro. É, também, perfeitamente normal que pessoas sem formação dêem alguns erros. Estranho é ver pessoas dar erros e ficarem ofendidas quando são corrigidas. Normalmente, dizem coisas como “Percebeste, não percebeste? Então, pronto”. Não é uma questão de se perceber ou não. Claro que a língua serve em primeiro lugar para que nos entendamos, mas também é através dela que fazemos juízos de valor. O cuidado (ou falta dele) com que as pessoas utilizam o idioma revela-nos muito sobre elas. Por exemplo, uma pessoa que erra e responde com indiferença ou indignação em relação à correcção (como no exemplo umas linhas acima) indica-nos que estamos perante uma pessoa que não admite os seus erros. Mais grave ainda, pode indicar-nos que estamos perante uma pessoa pouco inteligente. A diferença entre um teimoso e um energúmeno está no facto de o teimoso teimar e o energúmeno ter orgulho em teimar. A teimosia é um defeito e só é verdadeira quando não é consciente. Quando alguém diz algo como “Sou teimoso. Quando me dizem para fazer uma coisa, é pior. Faço o contrário”, tem cuidado. Estás muito provavelmente perante alguém que tem consciência de que está teimar e, portanto, a agravar o defeito. Agravar conscientemente defeitos é um sintoma de falta de inteligência, certo?

É verdade que a língua portuguesa é uma língua difícil, mas é essa a beleza de falar português. Fomos capazes de inventar uma língua complexa como poucas. Depende de nós mostrar que, se a conseguimos inventar desta forma, também a conseguimos manter desta forma. Pessoalmente, não baixo os braços com tanta facilidade. Ninguém dá erros a comunicar por sinais de fumo, mas, entre comunicar por sinais de fumo ou fazê-lo através de uma língua complexa que me permite formular um incontável número de raciocínios e, portanto, ser mais livre, sei qual é a minha opção.

Percebo que muitos de vós, matriculados da ESCS que não querem saber da língua portuguesa, fiquem cansados de ver uns quantos colegas andarem pelo Facebook a corrigir os vossos erros. De facto, às vezes pode ser cansativo e desviar a atenção da publicação em causa, mas lembrem-se de que foi o vosso erro que desviou a atenção. Afinal de contas, não interessa só o que dizemos, mas também o modo como o fazemos.

É por tudo isto que eu gostava de ver a língua portuguesa mais afagada por aqueles que andam na ESCS. Já bem basta o Camões não ter um olho. Não vale a pena deixar-lhe as canelas cheias de hematomas. A ESCS é uma escola de comunicação. Não há desculpas para tratar mal o nosso idioma. Pelo contrário, devem ter orgulho em tratá-lo com mimo, pois é o vosso instrumento de trabalho. Uma pessoa da área da comunicação falar mal português é como um cozinheiro cozinhar com os utensílios sujos. É nestes pormenores que está a diferença entre ser matriculado na ESCS ou ser verdadeiramente um aluno da ESCS. Ser contra o Acordo Ortográfico não basta. Ponto final.

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