Opinião

Dragões e religião

Que fique já claro para o leitor: não sou uma pessoa religiosa. Sou um homem de ciência e não um homem de fé. Há qualquer coisa nas declarações e nos dogmas da igreja que me causa uma relativa comichão – a ausência da capacidade de testar certas crenças em condições controladas, por exemplo, não é apelativa para uma pessoa dedicada ao método científico. A grande fatia das afirmações religiosas acaba então por cair naquilo que em filosofia dá pelo nome de uma “hipótese infalsificável”. A melhor demonstração desta “falácia” foi feita pelo grande mentor do racionalismo, o falecido Carl Sagan. Parafraseando:

Um grande amigo meu diz que tem um dragão cuspidor de fogo na garagem dele. Obviamente, fico extremamente curioso, mas cético, já que as microscópicas marcas da existência de dragões apenas aparecem no antigo folclore asiático. Peço ao meu amigo para me mostrar a garagem dele. Ele abre a porta de entrada do pequeno armazém anexo à sua casa. Eu espreito lá para dentro e não vejo qualquer dragão: apenas um escadote, uns baldes de tinta e um triciclo. Pergunto-lhe onde está o dragão. Ele diz-me que a criatura está mesmo aqui, mas pede desculpa, pois esqueceu-se de me dizer que se trata de um dragão invisível. Proponho então que espalhemos farinha pelo chão para capturarmos as pegadas do réptil. Ele responde dizendo que é uma boa ideia, mas que não pode resultar já que o dragão flutua perpetuamente. Começo a ficar frustrado e digo-lhe para usarmos um sensor de infravermelhos para detetarmos o fogo invisível que o dragão cospe. O meu amigo responde que, infelizmente, o fogo do réptil alado não emite calor. Digo-lhe para enchermos o dragão de spray colorido para assim quebrarmos a sua invisibilidade, mas ele lamenta o facto de o dragão ser incorpóreo, dizendo que a tinta não vai colar nas suas escamas. Furioso, eu continuo a metralhar testes físicos e o meu amigo rebate todos eles.

Agora voltando ao mundo não hipotético onde o leitor existe. Pergunto-vos, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante e que cospe fogo que não irradia calor, e um dragão que não existe? Se não há teste possível que refute a hipótese da existência de tal dragão, o que é quer dizer quando eu digo que o dragão existe? Voltámos ao princípio do texto e à definição de uma hipótese infalsificável: a incapacidade de a minha hipótese ser invalidada por outros está muito longe de ajudar provar a sua veracidade. A ausência de prova contra não é a presença de prova a favor.

Bertrand Russel, filósofo britânico do início do século XX, propõe uma hipótese extremamente semelhante: a do bule de chá. Este afirma que um teapot orbita algures entre a Terra e Marte, mas nenhum telescópio terrestre, por mais poderoso que seja, o consegue ver.

Ambas as declarações são factualmente inúteis: ninguém consegue demonstrar um negativo em filosofia; ninguém consegue refutar a minha tese de que o Universo foi criado por golfinhos, nem a minha declaração de que as árvores gritam quando ninguém as está a ouvir. Estas são hipóteses infalsificáveis, e o que se pede que o recetor faça quando as ouve é acreditar naquilo que é dito na ausência de toda e qualquer prova: matemática, científica, filosófica, dedutiva etc… É fé destilada.

A cada passo, a cada prova, a cada tentativa de rebate, o dragão vai-se escondendo mais e mais; a baliza vai-se afastando cada vez mais do campo de futebol, chegando a um ponto em que some: há medida que o conhecimento científico avança, a religião mirra.

Foi sempre esta a principal razão pela qual me considero, como diz o Ricardo Araújo Pereira, um “amputado espiritual”. É com alguma pena que o meu hemisfério esquerdo não me permite acreditar. Talvez se um dia encontrarmos algo no fundo de um microscópio…

CRÓNICA - Dragões e religião - João Carrilho (Corpo do Artigo)

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