Música

Vilar de Mouros: Liberdade 71

O ano de 2014 foi marcado pelas celebrações dos quarenta anos do 25 de Abril. Este ano temos outro “quarentão”: o primeiro festival de música em Portugal, o Festival de Vilar de Mouros, assinala o seu quadragésimo quarto aniversário.

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Foi em pleno Estado Novo que nasceu o Festival de Vilar de Mouros, esse mito dos festivais portugueses. Filho do desejo de liberdade e de revolução, ficou conhecido como o “Woodstock português”. Em 1971, foi local de encontro para os jovens que se puderam reunir livremente, ainda que bem comportados e observados pela PIDE. No cartaz estavam presentes artistas portugueses e internacionais, entre eles o Quarteto 1111 (para os mais esquecidos, um dos projetos musicais de José Cid em conjunto com Tozé Brito e outros artistas) e Elton John, cabeça de cartaz desse ano.

Um sucesso nacional, o Festival voltou a realizar-se em 1982 e em 1996, antes de se tornar anual no ano de 1999. Mantendo-se fiel a si próprio, reuniu ao longo dos anos músicos de vários géneros. U2, Jáfumega, The Stone Roses, GNR e Carlos Paredes foram alguns dos nomes que por lá passaram. O fenómeno “música + natureza” continuava a crescer e com ele o número de festivais de música em Portugal.

Já em regime anual, celebrou em 2006 o seu 35.º aniversário. O evento parecia prosperar até ter sido posto um fim ao ambiente “paz e amor” de Vilar de Mouros, em 2007, devido a um desentendimento entre as partes envolvidas na sua organização: a Junta de Freguesia e a empresa PortoEventos. Na origem deste conflito estaria um “incumprimento contratual” e várias dívidas, sintomas que resultaram numa morte precoce para Vilar de Mouros.

Foi apenas em 2014 que o Festival renasceu, voltando às mentes portuguesas e a Caminha. A organização passou a ser da responsabilidade da Fundação AMA Autismo e das autarquias locais. Vilar de Mouros ganhou uma nova vida e com ela um novo propósito: as receitas reverteram totalmente para a construção de um edificío de apoio a pessoas com autismo. Coincidência ou não, nesse mesmo ano a série da RTP “Filhos do Rock” fez menção a Vilar de Mouros em alguns dos seus episódios.

Ainda que a adesão não tenha correspondido às expectativas da organização, o Festival deverá regressar em 2015. Esperemos que com um cartaz que faça justiça aos anteriores.

11001021_946212278723240_621366661_o Enquanto escrevia, perguntei-me várias vezes se Vilar de Mouros sobreviverá num país abundante em festivais de Verão. Espero que sim. Afinal, um fóssil é sempre muito menos interessante do que um dinossauro a vivo e a cores. Especialmente quando esse dinossauro é um ícone da música e da liberdade de expressão em Portugal.

 


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Mariana Monteiro não faz telenovelas, mas escreve de vez em quando. Gosta de música, como todos os comuns mortais, e canta sempre que pode. Nos tempos livres, gosta de comer chocolate.

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