Música,  Secções

Mira, Un Lobo!: avista-se algo novo na música portuguesa

Em Março de 2004, os MAU davam início ao seu percurso na música, traçando um caminho guiado por uma sonoridade electro-pop contagiante. Dez anos depois, editavam o seu último álbum, Safari Entrepeneur, e lançavam-se à estrada para a sua última série de concertos, encerrada em Setembro de 2015. Hoje, ergue-se um novo projeto pela mão (ou deverei dizer voz?) do seu vocalista e compositor. Luís Sousa renasce no seio de um despedimento como Mira, Un Lobo!, num projeto magnetizante e introspetivo.

Dias antes de o seu álbum de estreia, Heart Beats Slow, ser editado pela Tapete Records, a ESCS MAGAZINE foi desvendar o que se encontrava para lá deste projeto e esteve à conversa com o Luís.

Como foi passar de um projeto com 5 membros para um projeto a solo?
Foi normal. Apesar de os MAU serem uma banda de cinco elementos, o processo de composição acabou por ser o mesmo que é agora em Mira, Un Lobo!. Era eu a compor, a fazer os temas em casa e depois trabalhava-se a parte só de arranjos nos ensaios… porque eu nunca fui só o vocalista. Sempre fui também o compositor, tocava também sintetizadores e criava toda a parte eletrónica. Portanto, o processo não foi muito diferente. Havia certas composições, quando estava a fazer o último disco dos MAU, que não se enquadravam com as coisas que nós estávamos a fazer nesse projeto e que eu fui arrumando na gaveta. De repente, achei que o que tinha ali tinha valor e que valia a pena ser mostrado. Daí ter criado o disco de Mira, Un Lobo!.

Já enquanto Mira, Un Lobo!, assinaste com a alemã Tapete Records. Como é que te sentiste?
Obviamente que é ótimo sentires que há reconhecimento lá de fora. Nós já tínhamos tido essa perceção com MAU, mais com a parte da blogosfera internacional que tinha ligado bastante ao nosso último disco e a algumas remisturas que nós fizemos para uns artistas mais conhecidos. Fui contactado não só pela Tapete, mas também por uma editora dinamarquesa e uma editora belga. E terem interesse em assinar contigo, quando cá em Portugal é tão complicado teres um contrato discográfico, é espetacular. É uma sensação óptima.

Disseste-me que o teu processo de composição continua bastante semelhante. Fizeste alguma coisa de diferente para este teu novo trabalho?
Eu acho que o estado de espírito era diferente. Mira, Un Lobo! coincidiu com uma parte complicada da minha vida, em que tive de estar em casa porque fui despedido, na altura. Na sequência desse despedimento, tentei abrir uma produtora pequenina (eu trabalho em televisão), mas é muito difícil vingar num mundo de tubarões, de grandes produtoras… Então, tinhamos muito pouco trabalho e isso, de certa forma, obrigou-me a estar em casa e deu-me uma hipótese de me dedicar à música, ainda que de forma forçada. Pude dedicar-me a full time à música e, nesse sentido, o meu estado de espírito era completamente diferente e acho que isso se reflete na música. São temas um bocadinho mais negros, mais escuros, mas que ao mesmo tempo, como em qualquer estado de depressão em que tens picos de excitação, uma música pode estar em baixo, mas de repente explode para algo positivo.

O que é que te inspira mais para criar, então? Momentos bons ou momentos maus?
Gostava que fossem os bons, mas confesso que são mais os momentos maus. A música para mim é sempre uma espécie de suporte, de muleta emocional. É o que me proporciona algum equilíbrio, é disso que eu preciso. Por isso, sempre que eu me sinto mais em baixo, normalmente é à música que eu recorro. É uma espécie de diário onde tu vais despejar todas as coisas que te correm menos bem na vida.

Dizes que este projeto te permite distanciares-te; viajares estando acordado, enquanto encaras adversidades sem pensar nas consequências. É para este universo que queres levar os ouvintes?
Sim. Eu gosto de pensar que as músicas de Mira, Un Lobo! são uma espécie de fuga, que não te deixa eternamente dormente. É uma fuga só para recuperares energia, para depois voltares à tua vida real e teres força para seguir em frente. É isso que eu quero passar com as músicas de Mira, Un Lobo!. É um escape que promete consequência, que não fica adormecido no infinito.

Podes ver o novo vídeo, para o tema “Tramadol”, aqui:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *