De azul se pinta a maior linha do Metro Lisboeta

São 17 as estações que dão cor à linha Azul. A gaivota que lhe dá cara diz-nos qual será o nosso destino final. Azul lembra também o mar, que está presente na nossa última paragem. Nesta viagem, vamos visitar museus, dizer olá aos poetas e mergulhar pelo frio que traz o mar até nós.

Começamos então a nossa viagem na carruagem vazia que está parada na estação da Amadora Este. É a primeira de 17 estações. Uma estação que “mete medo” por não se ver muita gente, para além de alguns passageiros, como diz uma senhora que todos os dias começa aqui a sua viagem para ir trabalhar. Hoje, acompanhamos a viagem de Maria, que utiliza o metro todos os dias para o trabalho, e hoje ela mostra-nos como faz esta viagem, deixando na mala o livro que costuma ler nas suas viagens.

Para Maria, esta estação, que é grande, ganha vida nas horas de ponta, visto que tem terminais de autocarros à boca do metro. A luz não falta para fazer companhia fora das horas de ponta e as flores, que estão nos azulejos das paredes que decoram a gare, ajudam a embelezar o dia que agora começa.

O apito é dado e as portas são fechadas. Vamos começar a viagem com duas ou três pessoas na carruagem. A próxima paragem já se vê ao longe. Chegamos a Alfornelos e rapidamente damos um pezinho à Pontinha. A partir daqui já não estamos no concelho da Amadora e pisamos o subsolo lisboeta, com a estação de Carnide. Chegamos a uma das estações mais movimentadas da linha azul. O Colégio Militar tem os terminais dos autocarros e da carris. A isto junta-se o facto de dar acesso ao centro comercial Colombo e ter uma grande área de habitação à volta. Para além disto, tem o estádio do Benfica como paisagem de fundo. Em dias de “jogo grande” não há carruagens suficientes para tantas pessoas. “Somos sardinhas enlatadas em dias de jogos”, conta Maria.

A ideia de construir o metropolitano remonta à 2ª Guerra Mundial, quando começou a haver uma retoma da economia e, no seguimento das políticas de eletrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge essa decisão de construir um metropolitano em Lisboa. A sociedade, para tal acontecer, é constituída a 26 de janeiro de 1948 e tinha como objetivo o estudo técnico e económico de um sistema de transportes coletivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respetivo Serviço Público veio a ser aprovada a 1 de julho de 1949.

Apesar disto, só em 1955, seis anos depois de a concessão ser aprovada, é que os trabalhos de construção começaram. Quatro anos depois, a 29 de dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado.

A rede aberta ao público consistia numa linha em Y constituída por dois troços distintos: Sete Rios (atualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (atualmente, Marquês de Pombal) e Entre Campos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Hoje nada é assim e parece que falamos de outro metropolitano, mas a verdade é que é o mesmo, só que com muitas alterações, também propícias da evolução da sociedade. Atualmente, o metro é composto por 4 linhas – azul, amarela, vermelha e verde -, sendo que a maior, com 17 estações, é a linha azul, que percorre o caminho da Amadora Este até Santa Apolónia.

Também a estação seguinte, Alto dos Moinhos, sofre em dias de jogo, dado que também dá acesso ao estádio, mas sem comparação com o movimento que tem a estação do colégio militar. Mas esta estação é mais do que jogos de futebol. Os poetas são a cara desta paragem. Um em especial: Fernando Pessoa faz companhia àqueles que todos os dias passam por esta estação, em desenhos num contorno azul suave. O azul do mar que nos transmite tranquilidade alia-se à serenidade da poesia e aos turbilhões do quotidiano para, juntos, fazerem a paisagem desta estação.

Já cheira a fruta e esta dá-nos vitamina C. As laranjas nas paredes denunciam esta estação. Estamos nas Laranjeiras, que deve o seu nome às quintas que existiam à volta, que produziam muitas laranjeiras. Agora tudo desapareceu para dar lugar a blocos de prédios, mas ficou o nome para recordar o que um dia foi o Bairro das Laranjeiras.

Até aqui falamos das estações modernas, que resultaram do último acréscimo do metropolitano de Lisboa, que transformou a linha azul na maior linha do metro e expandiu o metro a mais locais fora da área de Lisboa.

Entramos na parte antiga do metro e já vemos os animais pintados nas paredes de azulejos e isso quer dizer que chegámos ao Jardim Zoológico. Não ao Jardim em si, mas à estação, que era a antiga estação de Sete Rios, dado que fica nessa localidade. Aqui temos o acesso aos autocarros e ao emblemático Jardim Zoológico, que tanto faz brilhar o olhar dos mais pequenos.

A viagem continua mas paramos na Praça de Espanha, a antiga estação de Palha Vã, que dá acesso ao Instituto Português de Oncologia, tendo também o terminal de autocarros para a Margem Sul. Mas não é para aí que queremos ir e seguimos viagem, porque ainda nos faltam algumas estações até ao destino final. Segue-se a primeira estação que liga a outra linha: a linha vermelha. São Sebastião sofreu profundas alterações arquitetónicas para conseguir ligar a linha azul à linha vermelha. Esta é das linhas que mais sofre nas horas de ponta.

Mas não mudamos de linha, hoje. O Parque Eduardo VII é a nossa próxima paragem. É das estações antigas mais profundas e dá acesso ao Pavilhão Carlos Lopes, que em tempos foi conhecido por Pavilhão dos Desportos.

Chegamos a outra estação que vai ligar a outra linha. Estamos no Marquês de Pombal e daqui podemos seguir na linha amarela rumo ao Rato ou a Odivelas. Mas o nosso destino hoje leva-nos sempre em frente e é assim que chegamos à Avenida, que tem no seu redor grandes teatros como o Parque Mayer, o Cinema Monumental e o Tivoli. Características fortes também são o lema da próxima estação: os Restauradores, com a imponente Estátua da Liberdade, mesmo no centro da praça. Esta estação faz ligação, tanto interna como externamente, à estação do Rossio. Nesta estação temos vista para o Teatro Politeama, muito conhecido pelas peças de Filipe La Feria, pelo antigo teatro Éden, que hoje é um hotel, e pelo Hard Rock Café.

Restaurado também foi o metro, como é reconhecido atualmente. Ainda assim, nos últimos anos, o Metropolitano tem-se debatido com problemas ao nível das greves e paralisações, que resultaram num crescente descontentamento dos utilizadores. Maria acusa o Metro de não pensar nas pessoas quando faz “tantas greves num só mês”, como aconteceu ao longo deste ano, um dos anos mais críticos para o Metro. “Compramos o passe para ir trabalhar e depois chegamos aqui e não temos metro porque há greve ou então estamos horas à espera porque estão em paralisação”, diz, revoltada. Apesar disso, Maria também reconhece que nestes últimos meses a situação melhorou e “o metro voltou a ser o que era”.

Falta fazer a ligação a uma outra linha e é aqui que a nossa próxima paragem entra. A Baixa-Chiado dá-nos acesso à linha verde, que faz Telheiras–Cais do Sodré. Saindo da estação podemos ver o Chiado de um lado e Camões, no alto da sua estátua, do outro. Os Armazéns do Chiado são uma marca nesta paisagem tão caraterística de Lisboa.

Faltam duas paragens para o nosso destino final e o Terreiro do Paço é a penúltima. Estamos debaixo de água e por isso a arquitetura desta estação foi feita segundo a necessidade que exigia a profundidade desta estação. Aqui, podemos apanhar o barco para o outro lado da ponte ou ficar apenas sentados à beira rio a contemplar a paisagem que nos dá da Margem Sul, com a Ponte 25 de Abril como o monumento arquitetónico de fundo ou então parar para ver qual é a pata direita do cavalo de D. José.

Chegamos ao nosso destino: Santa Apolónia. Somos encadeados com a forte luz que caracteriza esta estação e subimos as escadas que nos vão levar à rua. O mar de um lado, a estação de comboios do outro. Estamos no meio dos sonhos: daqueles que atracam aqui de passagem e daqueles que param aqui para viver. Muitos são os jovens que vêm para Lisboa e param em Santa Apolónia para começar uma nova etapa das suas vidas. E muitos são os barcos de cruzeiro que mancham a paisagem do mar com aqueles que param de passagem para conhecer Lisboa, na subida que dá para Alfama.

Autor
Bárbara Mota

Sempre a reclamar, lá vai escrevendo umas coisas. Acha que tem tempo para fazer mil coisas e dormir deixou de fazer parte do seu dia-a-dia. Jornalismo é a sua paixão e escrever é o seu modo de ser.

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