Música

Ornatos Violeta: Canção Sem Fim

Tal como muita gente da minha geração, só descobri os Ornatos Violeta a meio da minha adolescência – um clichê que se acentua pelo facto de a primeira música deles que ouvi ter sido “Ouvi Dizer”. Mas, se os descobri de forma mainstream, compensei mais tarde ao ouvir os seus dois mais famosos discos, “Cão!” (1997) e “O Monstro Precisa de Amigos” (1999), vezes sem conta. A verdade é que, hoje em dia, raramente oiço a tão conhecida “Ouvi Dizer” ou mesmo a “Chaga”. Tudo isto são pormenores da minha vivência “ornatiana” que para vocês pouco interessam e, afinal, já toda a gente sabe que os Ornatos Violeta são uma das maiores bandas de renome no rock português (pelo menos, nos últimos anos).

A sua jornada musical foi curta, mas potente. Os seus dois discos, lançados com um pequeno intervalo de dois anos, bastaram para mostrar o potencial desta banda. Rock decorado com influências funk/ska, presentes no baixo de Nuno Prata, e punk, nas letras provocantes e frontais de Manel Cruz, vocalista camaleónico, foi o que se fez ouvir no final da década de 90. Mas não só com dois membros se fez este rock irreverente. Eles, ao todo, eram cinco: Elísio Donas (nas teclas), Kinorm (baterista) e Peixe (guitarrista), juntam-se aos outros dois membros já referidos, completando assim o desenho da banda, formada em 1991, que viria a chamar-se Ornatos Violeta.

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Arderam depressa. Um ano depois do lançamento do seu segundo álbum, mais contido e melancólico, decidiram separar-se. A sua música permaneceu, no entanto, viva na mente e nos ouvidos de quem os conheceu ainda nos finais da década de noventa e de quem, como eu, os foi descobrindo com o passar do tempo. Incrível como apenas dois álbuns conseguem deixar um distinto legado: hoje em dia, os Ornatos Violeta são uma banda mítica.

Mas o desmantelar de uma banda não significa o fim dos membros que a compuseram. Se os Ornatos se desfizeram, deles nasceram outros projectos, fruto do fim da sua canção. Todos eles continuam inseridos no panorama musical, cada um a seu modo. Elísio Donas, teclista, colaborou e colabora frequentemente com vários artistas, entre eles Sérgio Godinho, Blind Zero e Per7ume, todos conhecidos pelo público português. Kinorm, responsável pelos ritmos marcados da bateria, faz hoje parte da banda de rock Plus Ultra, um trio energético que já conta com temas como “Scream#337” e “Blood In Veins” onde se ouve com clareza o som poderoso da sua bateria.

O baixista, Nuno Prata, virou cantautor e lançou o seu primeiro álbum a solo em 2006, intitulado “Todos os Dias Fossem Estes/Outros”. A este, juntaram-se outros dois álbuns, sendo que o último, de 2015, é homónimo. Para além deste seu trabalho a solo, Nuno Prata colaborou também com artistas como Manuela de Azevedo, que também colaborou com os Ornatos Violeta no seu álbum “Cão!”, e B Fachada. Pedro Cardoso, mais conhecido por Peixe, integrou os Pluto (com Manel Cruz) e os Zelig antes de se lançar a solo num projecto protagonizado pelo som limpo da guitarra acústica.

Manel Cruz, o vocalista da banda, integra os Pluto e os SuperNada, ambas bandas rock. Tal como Peixe e Nuno Prata, também se lançou a solo com o projecto Foge Foge Bandido. Lançou, depois de Ornatos Violeta, três álbuns, um em cada projecto, nos quais manteve tudo o que era mais característico na sua voz e nas suas letras: a flexibilidade, a espontaneidade, a sinceridade e a irreverência quase insolente. Se os Ornatos vingaram na música portuguesa, em parte foi devido ao carisma da voz de Manel Cruz, o que, aliás, acontece com quase todas as bandas de renome.

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Mas se a música dos Ornatos sobreviveu com o passar dos anos, foi graças ao seu trabalho colectivo. São, definitivamente, as partes de cada um que contribuíram para um todo marcante e importante para os músicos que vieram depois deles. Emblemáticos, diria que são uma peça essencial no puzzle que são a música e cultura potuguesas, porque, sem eles, seríamos certamente um país mais pobre e simplista, a nível musical. Porque, acima de tudo, “menos é mais” não se aplica à música portuguesa. Se os Ornatos Violeta inspiraram muitos artistas e ouvintes portugueses, espero apenas que isso continue, por muito mais do que duas décadas.

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