Música

“A Viagem vai a Meio” – o segundo disco dos SAL

Quatro anos depois da sua estreia em disco com Passo Forte (2021), os SAL lançaram A Viagem vai a Meio, a 21 de novembro de 2025. 

A banda, formada em 2020, composta por João Pinheiro (bateria), Sérgio Pires (voz e braguesa), João Gil (baixo), Daniel Mestre (guitarra) e Vicente Santos (teclados) aposta num registo que mistura rock, folk e música tradicional portuguesa, mantendo a coerência sonora que já tinham presente no álbum anterior e na passagem pelo Festival da Canção, em 2023.

Estes definem-se por valorizar e recuperar o essencial da música: a partilha genuína entre os músicos e o público, sem artifícios nem moldes “pré-fabricados”.  

Faixa a Faixa

São 13 as faixas que compõem o segundo longa-duração da banda. De canções de amor à urgência de aproveitar a vida, e passando por várias críticas e sátiras sociais, os SAL mostram-nos a sua essência de sempre. 

Viver, tema de abertura do disco, aponta o olhar para a frente sem esquecer o que ficou para trás: entre a homenagem a quem continua a inspirar, celebrando a imortalidade e o ajuste de contas com o passado, a canção acredita num amanhã melhor (de preferência, a dançar).

Regra dos dois simples é uma canção alegre que nos faz acreditar que o amor pode ser uma equação simples.

Fonte: Apple Music

“Se existem fórmulas matemáticas para quase tudo, inteligência artificial, treinadores certificados no YouTube, pensadores que dedicam uma vida inteira ao estudo de números e equações, porque não pode o amor ser simples? Matemática e punk rock numa canção simples, ou não…” 

– partilha a banda em comunicado de imprensa.

A terceira faixa, A Meta, é o ponto mais alto do disco. Já a quarta faixa, em contraste, é uma balada – Para Sempre é uma bonita canção de amor, escrita por Sérgio Pires para a sua amada Joana.

Lei do compasso é uma sátira inteligente e bem-humorada às fórmulas pré-fabricadas da música pop, onde grande parte dos êxitos que ocupam os tops resultam de equipas de produção extensas, reuniões e briefings estratégicos. Nesta canção, os SAL questionam ainda se a inteligência artificial copia a criatividade humana ou se ocorre o contrário. Com ironia, a canção funciona como um manifesto pela liberdade artística, ressaltando que, na banda, as músicas surgem de forma espontânea, sem fórmulas nem barreiras.

Em Uns dias, a voz é, em grande parte da música, assumida por João Gil (também conhecido pelo seu projeto a solo: Vitorino Voador). Nesta canção, a banda explora o cansaço que nasce do confronto contínuo com a intolerância, a falta de escuta e o egocentrismo. 

Fonte: Altamont

Na sétima faixa, a repetição insistente da pergunta “De onde vem?” transforma-se numa forma de confronto com a origem do ódio, da exclusão e da violência legitimada por discursos populistas. A banda expõe a forma como a memória é manipulada, os símbolos são sacralizados e a dor é normalizada em nome de causas vazias. É um retrato inquieto de um mundo que continua a “apartar o que não se aparta”, o que não pode (ou não quer) compreender.

Na faixa que dá nome ao disco, A Viagem vai a Meio, abordam a urgência de não “caminharmos” sozinhos. Já a nona faixa, Transbordo, é um instrumental.

Um milhão é só um milhão alerta para os perigos e enganos das narrativas populistas, recordando que são sempre mais aqueles que resistem a cair nestas armadilhas do que aqueles que realmente caem. 

“É sempre mais fácil semear o caos e vasculhar nos destroços do que construir pontes e unir. Alguns dizem a bater no peito que são muitos, nós dizemos que ainda são poucos, muito poucos, aliás, quantos são?”

– partilha a banda em comunicado de imprensa.

Na mesma temática, segue-se Mentira Viral, que reflete sobre a forma como a mentira, hoje banalizada e amplificada pelos algoritmos, se espalha pelo mundo físico e digital, contaminando emoções e instalando a dúvida.

Pedaço de Sal é a única canção do disco com um convidado: Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa e Cara de Espelho) é o artista convidado na voz, sanfona e percussão. A canção faz várias referências a locais e paisagens do nosso país, povos dos quais descendemos, sotaques, e a instrumentos musicais usados na tradição portuguesa, reafirmando as raízes da banda no rock com influências da música popular portuguesa.

O álbum termina com Homem Lírio, que, ao recorrer à percussão tradicional e a aproximações ao cante alentejano, oferece um desfecho algo contemplativo.


A Viagem vai a Meio, assim como o restante trabalho dos SAL, pode ser ouvido em todas as plataformas digitais.

Fonte da Capa: Agenda Cultural de Lisboa

Artigo revisto por Carolina Ferreira

AUTORIA

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A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e, após um ano como redatora de Música, aceitou o desafio de ser editora no mesmo ramo, mas não se ficou por aí! No futuro, espera vir a unir o gosto pela escrita e pela música à Publicidade e ao Marketing, mas, por enquanto, é Vice-Diretora da melhor revista de Benfica, a ESCS Magazine.