Opinião

A chegada dos talibãs e o desaparecimento das mulheres

Vinte anos depois, as mulheres afegãs voltam a perder a sua autonomia e são novamente confrontadas com um regime que as reprime e impede de serem mais do que aquilo que a lei islâmica permite.

Os talibãs conquistaram Cabul, capital do Afeganistão, após a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO. As forças internacionais estavam no país desde 2001, devido à ofensiva liderada pelos Estados Unidos da América contra o regime extremista, que acolhia no seu território Osama Bin Laden, líder da Al-Qaida e principal responsável pelos atentados terroristas ocorridos no dia 11 de setembro de 2001.

A tomada da capital pelos talibãs pôs fim a uma presença militar estrangeira de 20 anos no Afeganistão. Esta mudança trouxe o medo do regresso a um regime fortemente repressivo e violento, onde as mulheres não têm lugar. As mulheres afegãs mostraram-se imediatamente preocupadas com a perda dos direitos que conseguiram conquistar nestes últimos 20 anos, entre eles o direito à educação, ao trabalho e à circulação.

No dia 3 de setembro de 2021, um grupo de mulheres afegãs manifestou-se em Cabul com o intuito de lutar pela igualdade de direitos, bem como pela plena participação na vida política do país. O protesto foi realizado em frente ao Ministério das Finanças e foi organizado pela Rede de Participação Política das Mulheres.

O grupo de mulheres afegãs, que procurou fazer-se ouvir, representou um desafio para os talibãs, uma vez que, a partir do momento em que estes assumiram o poder, os direitos das mulheres foram novamente postos em causa. Entre discussões internas, os talibãs já declararam que o papel das mulheres deve ser limitado ao espaço doméstico e muitas delas receberam ordens para abandonarem os seus trabalhos.

três mulheres afegãs cobertas por burqas
Fonte: REUTERS

Com o regresso do regime talibã, algumas mulheres decidiram recolher-se nas suas casas e a venda de burqas disparou. No entanto, outros esforços foram feitos para combater o regresso a um passado de descriminação e abusos.

No dia 8 de setembro de 2021, dezenas de afegãs protestaram contra a ausência de mulheres no governo do Afeganistão. De acordo com a BBC, algumas mulheres foram agredidas antes dos protestos serem interrompidos à força. Também o órgão de comunicação social local Etila Atroz denunciou que alguns dos jornalistas que estavam a cobrir a manifestação foram detidos e agredidos.

Os talibãs apontaram estes protestos como sendo ilegais, pois estes alegam que as mulheres precisam de pedir permissão para marchar nas ruas e referiram que não é permitida a utilização de linguagem ofensiva.

Apesar dos esforços realizados pelas mulheres afegãs para encontrar um lugar no espaço público, a existência de casamentos infantis, violações e violência física e verbal nunca deixou de ser uma realidade. Mesmo antes da chegada dos talibãs, a rotina destas mulheres já podia ser designada como infernal. Os progressos realizados foram muito importantes, mas é impossível ignorar que estas mulheres estão condenadas a sofrer se nada for feito para impedir que os seus direitos sejam negados.

O regime fortemente restritivo que voltou ao Afeganistão procurou passar uma imagem de mudança, mas segundo a Human Rights Watch (HRW) e o Instituto de Direitos Humanos da SJSU vários direitos têm sido negados às mulheres. A proibição da liberdade de movimentos fora de suas casas, a imposição de códigos de vestuário obrigatórios, a restrição severa do acesso ao emprego e à educação e a restrição do direito à reunião pacífica, marcaram a destruição da luta destas mulheres por uma vida digna.

Trabalhavam fora de casa, estudavam ou desempenhavam funções ativas e de liderança nas suas comunidades. Agora enfrentam problemas económicos, pois perderam o rendimento e estão incapacitadas de trabalhar.

Quatro dias após a tomada de Cabul pelos talibãs, os cartazes e fotografias de mulheres que ocupavam as vitrines da capital afegã foram apagados e vandalizados. Durante a permanência dos EUA no Afeganistão, os salões de beleza, que eram antes proibidos, proliferaram. Os serviços de manicure e de maquilhagem passaram a existir num lugar onde as mulheres eram obrigadas a cobrir o corpo inteiro.

Todas estas exigências têm afastado as mulheres da vida pública, da educação, do emprego e da vida social. Estão assim dependentes dos membros da família de sexo masculino e por isso não têm qualquer tipo de proteção contra abusos.

Estas mulheres temem pela sua segurança e pela eliminação dos seus direitos face ao regresso de um regime conservador e dominado por homens, que limita as mulheres à procriação e às tarefas domésticas.

Em pleno século XXI assistimos a uma realidade assustadora e que não podemos interpretar como sendo distante da nossa própria realidade. O nosso dever é manter  a preocupação com a situação destas mulheres mesmo se deixar de ser notícia de destaque nos jornais e televisões. Trata-se de uma crise humanitária e não podemos permanecer em silêncio.

Fonte da capa: Anadolu Agency

Artigo revisto por Ana Janeiro

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