7ª Arte

A complexidade da vingança feminina em filme

Com o filme Uma miúda com Potencial a dominar os Globos de Ouro, muitos têm previsto que esta gema de Emerald Fennel poderá ganhar muitas das categorias para que está nomeado. Enquanto alguém que viu e gostou, não consegui deixar de pensar em todos os filmes que abriram as portas para o seu sucesso e permitiram o aperfeiçoamento da fórmula do que é, na sua base, um conto de vingança feminina, um género que tem fama de ser complicado.

Carey Mulligan como Cassie, a protagonista de Uma Miúda com Potencial. Fonte: Variety

A responsabilidade subentendida do género

Quando pesquisei filmes de vingança feminina, encontrei algumas gemas, mas poucos mainstream que pudessem ser comparados ao objeto de análise. Porém, houve um que reparei que estava a ser bastante mencionado e que é um bom elemento de comparação para entender a complexidade de criar este tipo de histórias – Kill Bill.

Quando Kill Bill foi inicialmente lançado, foi elogiado por conseguir construir uma história feminista, com a personagem icónica da Noiva, representada por Uma Thurman, a ser louvada pela sua força e capacidade de se defender face à tentativa de tirar a sua vida e simbolicamente os direitos, após um homem, Bill, não conseguir tê-la como sua. Ao longo dos tempos, porém, têm sido levantadas questões face à natureza feminista do filme.

Uma Thurman em Kill Bill. Fonte: Digital Spy

As alegações feitas por Thurman contra Tarantino obrigaram muitos a reconsiderarem até que ponto podemos pôr a glória feminista num homem que quase matou a sua estrela principal – Tarantino cuspiu-lhe nas cenas em que tal acontece, estrangulou-a com uma corrente e ainda causou um acidente de carro numa das cenas que deixou Thurman com ferimentos permanentes.

E até a história tem sido criticada pelos seus aspetos problemáticos – o facto de se focar num homem e de ele ser o ponto central numa história em que a personagem principal feminina nem nome tem até ao segundo filme é a crítica mais comum. Para além disso, no final, após finalmente matar Bill, Beatrix (nome verdadeiro) não só simpatiza com o mesmo, como também percebe que para se vingar teve de matar o pai da sua filha, ou seja, acabou por fazer com que o seu final fosse marcado pelo sentimento de culpa e não o de ‘girl power’ que lhe é associado, isto é , Beatrix quase que é castigada por conseguir a vingança que até aí era apresentada como merecida.

Uma Thurman como Beatrix em Kill Bill Vol.II. Fonte: Youtube

Este é o problema com o filme de vingança em geral: para ter justiça, o protagonista acaba por ter de se corromper e fazer coisas tão más como aquelas que lhes foram feitas, mesmo que aos olhos do público sejam vistas como aceitáveis por serem justas. No caso de o filme ter uma protagonista feminista, torna-se ainda mais complicado, porque é de esperar que essa assuma a responsabilidade de manter uma postura moral mais objetiva, pois servirá de símbolo para um movimento, mesmo que seja válido defender que é injusto exigir mais de filmes só porque têm uma mulher no seu leme. Mesmo assim, os filmes que fogem à regra moral costumam ir para o território de exploitation cinema (cinema mais violento e perturbante, normalmente menos populares e com custos baixos).

Exploração ou celebração?

Dentro das inspirações de Tarantino para Kill Bill, para além da mais óbvia, o filme coreano Lady Vegeance, temos diversas referências a clássicos de cinema grindhouse (derivado de um cinema que só exibia filmes de ação ou de terror de baixo custo, o termo associadorefere-se a filmes exploradores violentos e gráficos), entre eles e relevante a este tópico, temos o I spit on your grave, que saiu em 1978.

Uma das coisas mais interessantes que encontrei na minha investigação deste filme foi o género atribuído, rape-revenge (violação-vingança traduzido à letra), que, como veremos mais tarde, será relevante para a conversa. O filme segue Jennifer Hills, que, após ser violada e tomada como morta por um grupo de homens, planeia a sua vingança sangrenta. A conversa que rodeia o filme até hoje é mista.

Camille Keaton como Jennifer Hills em I Spit On Your Grave (1978). Fonte: Then and Now Movie Locations

O filme tem um lugar confortável no topo do catálogo do seu género, mas com uma pontuação de menos de 20/100 no Metacritic, e claro que é a ideia e não a execução que vive na mente daqueles que até hoje o discutem. É também um ótimo exemplo para analisar o bom, o mau e o confuso quando uma temática está tão agarrada a uma responsabilidade moral e social. Por um lado, temos o próprio género que, na maior parte dos filmes femininos de vingança, aborda violações ou abusos sexuais. Isto faz sentido e a principal razão por que muitos deles são celebrados até hoje está relacionada com o facto de que estes são vistos como mensagens de revolução e de tomada de poder – um grito feminista.

 Contudo, a sexualização acaba por surgir como uma consequência deste género. Sim, a ideia de o corpo feminino ser sempre sexualizado depende sempre da maneira como é feito e dos olhos de quem a vê, porém, filmes como I spit in your grave, cujo título em português é ‘Mulher Violada’(!), usam a sexualidade feminina como um meio de Marketing, com a capa icónica do filme a retratar uma mulher de costas com maior parte do rabo exposto e com cenas gráficas e longas que retratam o abuso sexual da personagem principal.

Camille Keaton em I Spit On Your Grave. Fonte: The London Economic

Para além disso, a violência é também usada como ponto de atração. Não admira que seja até hoje criticado pela sua glorificação de violência e exploração de sexualidade sádica, recorrendo a fatores de choque para atrair audiências (mesmo que estes géneros ajudassem as mesmas a ser introduzidas a este tipo de mensagens). Não ajudando o seu caso, o facto de ter surgido um remake e 3 sequelas, onde são criadas situações gráficas em que mulheres são abusadas e torturadas só para justificar a sua vingança, não ajuda a contra-argumentar os que muitos consideram pura exploração.

Contudo, existe um argumento forte que se pode defender: muitos destes filmes utilizam a sexualidade feminina como um meio de fortalecimento em que se toma controlo do mesmo e há uma recusa a ser utilizado apenas para satisfazer o olhar masculino. Duvido, porém, de que a maior parte das pessoas na audiência tenha retido essa ideia. Para além disto, muitos destes filmes não estão a tentar ser os porta-vozes do movimento feminista, apenas tentando (e sucedendo) na criação de filmes divertidos, intensos e repletos de iconografia que, sem ser posta sobre uma lente analítica, acaba por ser inofensiva.

Sarah Butlet como Jennifer Hills no remake de 2010 de I Spit On Your Grave. Fonte: Bloody Disgusting

Um género limitado

As ideias anteriores a uma ideia maior – as limitações das mulheres nas suas histórias. O facto de as mulheres tomarem o papel principal nas suas próprias cenas de vingança, ao contrário dos seus pais, visto em filmes como The Virgin Spring (1960), é visto como uma vitória em si. Mesmo assim, a ideia de que a única maneira de uma mulher querer vingança é por ter sido abusada contrasta com as histórias em que os homens estão no centro, onde a vingança vai de encontro aos valores tradicionais e puros, como a família, o amor ou a inocência (ou até o cão). Estes não deixam de ser criticados, porém, não lhes é entregue mais responsabilidade moral ou não são tão criticados pelo uso de violência ou pela moralidade ambígua dos seus protagonistas.

Aisling Franciosi em The Nightingale (2018). Fonte: Dave’s Film Blog

Com filmes mais recentes como o excelente The Nightingale, temos um exemplo de como se consegue equilibrar as mensagens femininas sem sentir que se explora a sua sexualidade e mostra que a vingança feminina não tem só de ser sobre abuso sexual e que há espaço para outras histórias. No filme, Clare persegue e procura matar o seu violador e assassino da sua família, terminando por escolher não o matar. E, claro, Uma miúda com potencial aperfeiçoou a fórmula do género rape-revenge, ao analisar as diversas temáticas sexuais sem a exploração excessiva da sexualidade feminina e ao entregar um final imprevisível que muitos não vão gostar por estarem treinados às expetativas que criamos dos outros que antecederam.

Encontrar o equilíbrio

Ambos estes filmes tocam em pontos importantes, usando os típicos clichês saudáveis do género, mas também entendem a responsabilidade extra que têm, visível com a valorização da catarse mental acima da violência no primeiro, e as implicações da vingança e violência naqueles que a praticam.

Carey Mulligan em Uma Miúda com Potencial (2020) Fonte: Discussing Film

Especialmente no último, o entendimento do mundo criado por Fennel e a viagem da sua protagonista levam a que o seu final seja satisfatório, não porque dá a audiência o sentimento de justiça sádica como no I spit in your grave ou porque dá uma reviravolta sentimental e trágica como em Kill Bill, mas porque encontra um equilíbrio perfeito entre os dois, aprofundando de uma maneira intemporal a sua tese, e no processo, criando um clássico no género da vingança em geral.

Artigo redigido por Bernardo Campos

Artigo revisto por Ana Janeiro

Fonte da imagem de destaque: ABC

Bernardo Campos

Natural de Mafra, este estudante de jornalismo ainda não sabe o que quer ou vai fazer mas pode garantir que vai procurar respostas nas artes visuais. Amante de cinema, gostaria de um dia trabalhar em algo relacionado com a área, mas tal como foi dito anteriormente, ainda é uma incógnita… Talvez descubra no próximo filme! Gosta do escapismo e identificação que a arte nos traz, e acredita na importância de contar histórias sobre pessoas, quer seja numa série ou numa reportagem.

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