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A resposta está no nome

Eu sei, está tudo farto de ouvir falar no novo acordo. É a língua a evoluir, não há nada a fazer, e por aí fora. Mas aqui fica um grito aos céus de quem ainda estremece quando lê “ação”.

Os motivos do acordo – os oficiais, pelo menos – são uma coisa que me magoa. Cada país tem direito à sua identidade e a língua é uma das suas marcas mais importantes, mesmo se for comum a vários países: porque é diferente, no ritmo, em vocabulário, em subtilezas da grafia; em pormenores, no fundo, mas pormenores que a tornam especial, única, nossa. É por isso que, apesar de sabermos que no Brasil se fala português, dizemos “isto está em brasileiro”. Isso não tem nada de mal: é simplesmente o BI de cada país. E duas pessoas não podem partilhar o BI.

Esses pormenores são a razão de eu me ter apaixonado pela Língua Portuguesa, e são o que a torna tão rica. Já repararam na beleza do C e do P? São letras com a magia de abrir outras letras, sem as tornar tónicas. Estas consoantes são como cartões magnéticos: aproximamo-las das vogais e elas abrem. Vocês, não sei, mas quando eu me esqueço do cartão do ginásio a cancela não abre. E é assim que em vez de “adopção” temos “adução”.

A língua é assassinada diariamente com coisas como “Hades ver isto” e “Ele interviu na conversa”. Mas é muito triste quando o pontapé se torna legal, ou melhor, obrigatório. Lembro-me de que era dos erros mais comuns na primária, escrever “correção”. Agora premiamos o erro. É mesmo esse o caminho? Baixar a fasquia? Adoptar o mais simples, mesmo que esteja errado, para as crianças aprenderem com mais facilidade? E se querem mesmo facilitar-lhes a aprendizagem, façam-no como deve ser; quero ver como é que lhes explicam que cor-de-laranja não tem hífenes (cor de laranja) mas cor-de-rosa já tem. Os supostos especialistas que desenharam o Novo Acordo não podem perceber o português; não o estimam. Isto é claro para quem o conhece realmente.

O engraçado é que, mesmo assim, as pessoas continuam a escrever com erros, muito porque o Acordo foi mal explicado. Oiço pessoas que mesmo estando a favor do Acordo reclamam com “facto”, porque não faz sentido perder o C quando ele se lê. Para onde é que vai, inventa-se? E nas expectativas? O C não vai a lado nenhum. “Facto” ainda é “facto” e “expectativas” ainda é “expectativas”. Mas as pessoas escrevem “fato” e “expetativas” – o que me faz lembrar algo referente ao espeto; a qualidade de espeto ou algo parecido. Por exemplo, carne de vaca expetativa poderia ser a carne de vaca própria para espetadas. É só uma ideia, se fizerem questão de usar a palavra.

Se puxarem por mim, escrevo um livro sobre tudo o que há de errado com o Novo Acordo Ortográfico, mas vou-me ficar por aqui. Queria só chamar a vossa atenção para uma coisa. Já repararam que o Acordo é sempre abreviado apenas para AO, apesar de este não ser o primeiro? É porque se abreviássemos Novo Acordo Ortográfico tínhamos NAO. A resposta está no nome.

A Inês Rebelo escreve, obviamente, ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.

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