Opinião

A violência atrás de um ecrã

Para agredir uma pessoa basta desumanizá-la. A Internet veio facilitar a humilhação e a violência de diversas formas. O mais assustador é que isso pode ter efeitos para a vida toda, porque o que é publicado na Internet fica lá para sempre.

A violência no digital tem assumido uma presença cada vez mais forte e tornou-se mais apetecível para o agressor, talvez devido ao facto de este estar protegido por um ecrã e de não ter de ser confrontado pela vítima e pela sua reação. Este cenário oferece ao agressor uma sensação de invencibilidade e é como se houvesse uma queda de barreiras para os limites da violência. Chantagem, violência verbal, exposição não consentida, vingança e humilhação integra aquilo a que as vítimas estão sujeitas neste tipo de crime. Qualquer um pode ser uma vítima, mas, geralmente, o sexismo, o preconceito (de classe ou de orientação sexual) e o racismo são motivações comuns na seleção das vítimas. Alguns estudos demonstraram ainda que as mulheres e as crianças são as maiores vítimas deste tipo de violência. 

O sexting – o envio de conteúdos sexuais provocatórios a partir do telemóvel ou da Internet – tem sido usado contra mulheres que enviam fotografias/vídeos/mensagens íntimos a outras pessoas que acabam depois por partilhá-los, sem consentimento, na Internet. A maior gravidade disto é que muitas vezes é uma agressão que se prolonga no tempo, pois a vítima vive em constante ansiedade e tensão por estar sempre a ser chantageada e ameaçada. Um erro, uma vulnerabilidade ou um ato de insegurança pode destruir a vida de uma pessoa para sempre. A juntar-se a isto surge a pornografia de vingança – partilha de vídeos e imagens em que uma pessoa está nua, a masturbar-se ou a praticar atos sexuais –, muito usada por ex-namorados descontentes e movidos por atos de vingança. Não existe qualquer relutância de agressores do sexo masculino em publicar este tipo de conteúdo, seja nas redes sociais, seja entre amigos, graças ao sexismo e pelo facto de este ato enaltecer a sua masculinidade. Apesar do facto de as mulheres também poderem ser agressoras. 

O cenário mais extremo é quando esta humilhação “vende” ou dá visibilidade. A procura de likes, o desejo por atenção e a ideia de superioridade leva as pessoas a partilhar momentos de vulnerabilidade de outras pessoas, tornando-os virais. Um exemplo disso é o caso da Jéssica Athayde, que num desfile na ModaLisboa recebeu duras críticas sobre o seu corpo por parte de outras mulheres.

Nem todas as vítimas têm força para superar julgamentos e humilhações. Quem somos nós para julgar quem quer que seja?! Quando julgamos estamos simplesmente a tentar enaltecer-nos, inferiorizando alguém. O problema não é a Internet, são as pessoas. A Internet é um espaço de críticas e humilhação, porque nós fazemos com que assim seja. 

Fonte: Visão

Um caso recente que comprova que as mulheres e crianças são frequentemente vítimas deste tipo de violência é o escândalo da Pornhub. O jornal New York Times publicou uma investigação sobre a empresa, denunciando casos de exploração e tentativas de suicídio de jovens, ainda menores, que viram os seus vídeos publicados no Pornhub.

 O Pornhub é uma das plataformas da Internet que se apresenta como vendedora de vídeos consentidos, o que é totalmente uma farsa. O site está totalmente inundado de vídeos de violações, onde os menores não são exceção. Além disso, há vídeos de pornografia de vingança, conteúdos racistas e “vídeos de mulheres a serem asfixiadas com sacos de plástico”. Após esta denúncia, o Pornhub optou por eliminar 75% dos seus vídeos e proibiu o seu download.

Os relatos do artigo do jornal New York Times são chocantes. Apesar do facto de terem manifestado mudanças na plataforma, nunca conseguirão apagar aquilo que as vítimas sofreram ou continuarão a sofrer. 

Infelizmente, esta questão de partilha de vídeos não consentidos, sexting, chantagens, pornografia de vingança não é somente exposta no Pornhub. As redes sociais são outro dos espaços eleitos por parte dos agressores que não têm a mínima noção das consequências desta exposição. A vítima sente-se totalmente humilhada, desenvolve inseguranças e problemas de confiança. Os traumas levam-na muitas vezes a perder o rumo, a envolver-se nas drogas, a desenvolver complexos e inseguranças, a mutilar-se e, em casos extremos, até a tentar o suicídio.

Fonte: Kidshelpline.au.com

 Para os jovens é ainda mais difícil ultrapassar este tipo de situações, porque são mais frágeis e imaturos. Só não vê a seriedade e gravidade do cyberbullying quem não quer. Este tema devia, no mínimo, ser revisto no Parlamento, para se estabelecer medidas mais eficazes que evitem ou controlem estes casos, assim como foi sugerido por Cristina Ferreira aquando a publicação do seu livro “Pra cima de puta” e Raquel António com base na sua investigação sobre se durante a quarentena houve aumento dos casos de cyberbullying (Fonte: https://sicnoticias.pt/pais/2020-09-16-Maioria-dos-estudantes-foi-vitima-de-ciberbullying-durante-a-pandemia-1).  E confirmou-se: muitos jovens sofreram de cyberbullying durante a quarentena, por isso, é urgente que as escolas falem mais sobre isto e que sejam criados veículos de redução de mensagens e conteúdo violento, como a investigadora Raquel António volta a sugerir. As famílias devem ter um papel mais acentuado na transmissão de informação sobre os perigos da Internet

Contrariar isto é responsabilidade de cada um de nós, pois nada nos garante que nós, ou alguém próximo, não sejamos também uma vítima. Temos de reconhecer que o espaço digital não está desligado do mundo real. Os likes que tanto desejam terão o mesmo valor se forem conseguidos por denegrir alguém? Pensem sobre isso e metam-se no lugar de quem está do outro lado do ecrã. O mundo não está só nesse ecrã pequenino que têm nas mãos.

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais 

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