Opinião

O estigma da perfeição já chegou à tua vulva?

Nascer mulher teve, desde sempre, fardos associados: estar privada do prazer sexual, ser vista como meramente um ser reprodutor, não ter independência, não ter voz, entre outros. A mulher sentiu-se desde sempre acorrentada e presa numa torre.

Aquilo de que nós não nos lembramos é que a emancipação feminina despertou o gosto pelo luxo, pela vaidade, pela sexualização da mulher, pelos estereótipos do corpo feminino perfeito. Despertou tudo isto, porque enquanto mulheres queríamos afirmarmo-nos, assim como queríamos ter voz, mostrar ao mundo e, sobretudo, a nós mesmas que não precisávamos dos homens. Éramos tão reprimidas e sentíamo-nos tão inferiorizadas que vimos isto como uma oportunidade para nos desprendermos do antigo papel atribuído à mulher. No entanto, não nos apercebemos de que nos tornámos num alvo e num meio apetecível para a publicidade. 

A publicidade pegou no desespero e na ânsia pela liberdade feminina para lucrar com isso. Imensos anúncios sobre jóias, lingerie, perfumes, roupa e malas luxuosas tiveram um enorme sucesso junto do público feminino. Efetivamente, todas as mulheres começaram a associar que o ato de ter, por exemplo, uma lingerie ou uma mala da Chanel era sinónimo de independência. Porém, sem terem consciência disso, foi aqui que começou mais uma luta para a mulher.

Grande parte da exposição e visibilidade que as mulheres conquistaram foi através dos meios publicitários, acabando, sem querer, por criar pressão e estereótipos sobre elas mesmas. Neste contexto de libertação, a pornografia começou também a ganhar mais visibilidade, perpetuando-se até hoje. O desconhecimento da realidade e da normalidade criou mais um estereótipo à volta da mulher. A sensação de insuficiência entre as mulheres relativamente ao seu corpo e à sua imagem começou, assim, a crescer significativamente.

As mulheres começaram a inspirar-se nas versões que tiveram visibilidade através da publicidade e da pornografia. Serem elas mesmas já não chegava. Todo o corpo tem defeitos, imperfeições – no fundo, é insuficiente. Se não for igual àquele que é considerado perfeito, surgem pensamentos, como “não sou suficiente”, “ninguém me vai querer”, “sou horrível e ela é tão linda”, “porque é que a minha vagina é tão grande e tem tantos pelos e manchas?”. E foi assim que as operações cirúrgicas estéticas rebentaram e se tornaram tão apelativas para o público feminino. 

Atenção, eu não condeno nenhuma operação deste género, até porque eu mesma sou suspeita, uma vez que já realizei uma rinoplastia. Estas operações devem, no entanto, ser ponderadas e informadas. Feitas para nós, não para os outros, e realizadas de forma a atingirmos o bem-estar psicológico. Acredito genuinamente que devemos fazer aquilo que nos deixa em paz com nós mesmas, dado que vamos viver no nosso corpo até ao resto dos nossos dias. Porém, as mudanças devem ser feitas somente para nos amarmos mais e não para corresponder a um padrão de beleza instituído.

Confesso que aquilo que me tem chocado em relação à busca pela perfeição feminina são as intervenções cirúrgicas estéticas aos lábios inferiores. Com isto não me refiro a reconstruções vaginais causadas por partos complicados, ou após a menopausa, ou se for para a mulher sentir menos desconforto físico por outro motivo qualquer, ou para sentir mais prazer. Refiro-me àquelas mulheres que desejam ter lábios pequenos sem assimetrias, porque viram na pornografia e acharam que os seus eram totalmente anormais. E, neste sentido, expuseram-se a uma cirurgia sem saber a dor, o desconforto e sem ter qualquer noção da normalidade da sua vagina.

 Esta ignorância sobre o normal é assustadora. Alguns médicos são os primeiros a dizer: “isto está feinho”, “não custa nada a operação e fica muito melhor”. Criam complexos nas próprias pacientes, enquanto deviam estar ali para cuidar da saúde delas. 

Uma profissional que a meu ver está a desempenhar um papel incrível na desconstrução dos tabus femininos, seja do prazer ou deste tipo de cenários estéticos, é a Tânia Graça, uma sexóloga portuguesa. A sua atuação é visível nas redes sociais e é incrível o envolvimento de várias mulheres que partilham as suas histórias. Conhecendo mais realidades, vai-se, aos poucos, normalizando os traços femininos. Cada uma de nós é única, especial e bela e isso devia ser motivo de orgulho e não de insuficiência.

O tabu do prazer é também algo que deve ser rapidamente desconstruído. O prazer feminino só começou a ser estudado há 22 anos, o que não é nada. Nesse mesmo ano, a comunidade científica inventou o viagra. As mulheres ainda nem sabiam nada em relação ao prazer e ao mesmo tempo já estava a ser tratada a disfunção erétil. Isto mostra como o prazer das mulheres foi desvalorizado e como fomos sempre vistas como objeto sexual do homem e como um ser reprodutor. Não admira que ainda perdure a vergonha de sentir prazer, seja com um parceiro sexual ou sozinha através da masturbação. 

Ah! E já repararam que nem sequer existe uma expressão para a masturbação feminina como existe para a masculina, como “bater uma punheta”? Esta lacuna chamou a atenção da página de InstagramO meu útero”, onde, por sugestão de várias mulheres para a criação de uma expressão de masturbação feminina, em parceria com 69 artistas, Catarina Maia criou o Ilustrário do amor próprio. Este ilustrário veio finalmente criar expressões para a masturbação das mulheres, como “riscar o vinil”, “polir a pérola”, “dedilhar”, “dois dedos de conversa”. Somos pudicas em relação ao facto de explorar os nossos pontos de prazer.

O autoconhecimento é imprescindível para uma sexualidade completa – não o podemos deixar somente nas mãos de terceiros. Temos tanta vergonha de desejar sentir prazer, mas possuímos um órgão que tem exatamente essa função – a nossa pérola. Irónico, não acham? 

Fonte: Medium

Além desta condenação da sociedade ao prazer feminino, continua-nos também a ser imposta a maternidade e o pior é que transmitem uma ideia romantizada desta. Apesar de a mulher ter ganho o direito a estudar, a ter carreira profissional, sucesso pessoal, independência e a viajar, continua sem se poder livrar dos olhares e das perguntas e afirmações constantes: “Tens a certeza de que não queres ter filhos?”; “Olha que já não vais para nova”; “Já está na altura de ser mãe”; “Depois do curso vem um bebé?”.

Ainda há pouco tempo, segundo a MAGG, o Hospital da Luz teve uma saída muito infeliz, em que enviou mensagens às suas pacientes, afirmando que estava na hora de serem mães. Muitas dessas pacientes podem ter problemas como endometriose, entre outras doenças que impossibilitam a gravidez. Pode também haver mulheres que simplesmente não querem ter filhos. As pessoas têm de perceber que a maternidade é uma escolha e que ser mulher não significa que o seu propósito de vida seja ser mãe. 

As mulheres nunca podem ser livres nas suas escolhas sem serem julgadas. Toda a gente se acha no direito de decidir por nós e de nos atribuir papéis. Parece que o facto de sermos somente nós e de termos os nossos desejos e ambições não é suficiente. 

O facto de sermos livres enquanto mulheres não passa por sermos as mais bonitas, andarmos sempre arranjadas, não termos pelos, sermos as mais magras ou termos uma vagina simétrica, principalmente se tudo isto for para agradar aos outros e corresponder a padrões impostos pela sociedade. O facto de sermos livres passa pela nossa libertação pessoal. No momento em que aceitarmos as nossas imperfeições e as acharmos normais atingiremos a plenitude. 

O segredo é tirarmos a pressão sobre nós e sermos exatamente aquilo que queremos ser, sem constrangimentos. É reconhecer aquilo que é normal e não ambicionar o perfeito. Somos uma força da natureza e devemos amar-nos antes de desejarmos que qualquer outra pessoa o faça.

Fonte: Cláudia.abril.com.br

Artigo por Maria Carolina

Artigo revisto por Ana Sofia Cunha

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