Um dia, numa faculdade de belas-letras fora do espaço e do tempo, apareceu, em plena manhã, um homem louco, doente, a correr pelos jardins da dita, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro a especialização! Procuro a especialização!”. E, como lá se encontravam muitos que não criam na especialização, o homem despertou uma grande gargalhada geral. Estaria ele perdido? Como e porque tinha ido ali parar?”, especulavam os estudantes entre si, rindo. “De onde vens?”, perguntaram ao homem. “Venho da faculdade de economia. Estou aqui para um workshop de public speaking.” E, apressado e visivelmente alterado, o homem louco lançou-se para o meio deles e trespassou-os com o seu olhar. “Para onde foi a especialização?”, gritou ele. E um estudante, visivelmente o mais capaz na liderança de entre os presentes, encarou-o com a coragem dos sensíveis, e disse-lhe: “Desde o início do ensino secundário que a palavra ‘faculdade’ começou a ecoar nas nossas cabeças. Independentemente do curso, científico, social, humanístico ou artístico, toda a envolvência escolar, de professores a pais, nos induz a memorizar matérias ou a exercitar cânones rígidos de composição artística. Porque aqueles que mandam traçam um destino para cada um de nós, com base na média final do curso. Isso mesmo, há um número que define a nossa inteligência, o nosso conhecimento, o nosso sentido crítico. No momento em que escolhemos, com 14 ou 15 anos, a área de estudos do ensino secundário, estamos condenados a trabalhar sobre esses assuntos até ao fim dos nossos dias. Há um percurso esperado, em que vamos delimitando cada vez mais os ditos assuntos, de maneira a que nos tornemos, no final dos nossos estudos universitários, especialistas numa pequeníssima e limitada área do saber humano. Porque ainda é do cânone das teorias sociais que o progresso da técnica e do conhecimento se faz através da focalização nas especialidades. Mas, meu velho, não tem de ser assim. Não tens de ir a esse workshop que vende a pressa que trazes nas pernas e no teu relógio. A especialização morreu! A especialização continua morta! E fomos nós, os humanistas, que a matamos! Como podemos nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo económico até então possuíra, refiro-me à divisão internacional do trabalho de que a era da especialização é consequência natural, sangrou por inteiro sob os nossos punhais. Quem nos limpará esse sangue? Como lidar com a culpa e a responsabilidade de liderar uma revolução empresarial, em que já não importa ser especialista, mas ser versátil e criativo? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós dormirmos em paz? Sim, a grandeza do saber total, do cruzamento livre das artes e das ciências exatas e inexatas numa mesma alma! Sim, a grandeza da revolução, do regresso sebástico do humanismo como solução para o dilema do mundo! Sei, ainda assim, que o humanismo volta diferente. Já não volta com a recreação, o prazer de saber por saber, o ócio de outrora. Volta orientado para a produtividade. Mas ao menos volta! Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento, o homem louco, que surpreendentemente se demorou numa conversa sobre mundividências sempre subjetivas, ouvindo com a atenção que a estranheza confere, olhou para o seu smartwatch. “Como te chamas, moço?”, perguntou. “Leonardo di ser Piero da Vinci”. E, apontando para o anfiteatro românico da sua faculdade, Leonardo acrescentou: “O que são estas escolas se não os mausoléus e os túmulos da especialização?” Consta que o homem louco chegou atrasado ao workshop.

Artigo revisto por Rita Asseiceiro

Foto de capa – Autor: geralt / 20659 imagens. Licença: CC0

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