Opinião

As notícias sobre a morte da crítica são manifestamente apropriadas

Em novembro do ano passado, Jaime Lourenço, doutorado em Ciências da Comunicação no ISCTE com uma obra publicada sobre jornalismo cultural, ex-aluno da ESCS, foi o convidado para uma sessão no âmbito de uma cadeira que frequentava. Com foco particular no cinema, a palestra acabou por se encaminhar no sentido de um debate sobre a indústria cultural na sua relação com a imprensa.

Uma vez que me encontrava perante um estudioso e especialista no assunto, questionei o orador acerca do estado da crítica de cinema na imprensa portuguesa. Fui mais longe. Como consumidor de crítica de arte nas plataformas ao dispor dos fãs, questionei se a superficialidade e parca qualidade da crítica, asserção possivelmente impressionista, se devia à falta de qualidade dos próprios críticos – ao que o convidado respondeu, parafraseando, que não. Há bons críticos, mas não há público para ler esse tipo de críticas.

Segundo aquilo que entendi, há então um clima de censura editorial que impede os críticos de explicarem todo o seu conhecimento académico e experimental sobre, neste caso, o cinema. Se me parece plausível que um não-especialista seja recomendado a não se aventurar no exercício do juízo crítico sem as devidas qualificações, por outro lado, já me parece mais estranho pedir aos redatores destas peças para deliberadamente não exporem o seu máximo potencial.

Partindo desta premissa, pareceu-me interessante fazer um raio-X à secção de crítica cinematográfica no âmbito do jornalismo cultural na contemporaneidade, de modo a perceber se o problema está nos críticos ou nos leitores e, no seguimento disso, avaliar, especular e problematizar que consequências advieram e podem vir a advir.

Para começar, é necessário recorrer a argumentos de autoridade que ajudem a radiografar o estado da crítica. No sentido em que a sessão se focou no universo do cinema, por ser a área de trabalho preferencial do palestrante, a breve divagação que se segue incidirá no corpo crítico incidente nessa expressão artística.

Ainda a Internet chegava à casa dos portugueses através de ligação ADSL, já o crítico português João Lopes, em entrevista, lamentava o modo como a Internet acelerou a massificação da crítica de cinema, resultando, como sempre sucede, numa redução da qualidade global dos trabalhos:

A generalização de formas como o vídeo e o DVD provocou uma certa banalização. Na minha geração, a relação com o cinema fazia-se, sobretudo, através da sala — uma experiência única, que seria importante não perder em termos culturais. A evolução que se verificou foi paralela a uma involução na crítica. Desde logo, devido à diminuição do espaço que lhe é dedicado. Na presente conjuntura, acabou por aparecer um tipo de texto que, na melhor das hipóteses, é uma informação. Ocorreu uma desvalorização do trabalho crítico. Um segundo aspecto tem a ver com a internet: um caldeirão onde cabe tudo, com predominância dos discursos impressionistas, sem memória histórica.” (João Lopes, 2008)

O crítico natural de Caldas da Rainha, sem sequer as mencionar diretamente, analisa de que modo devem ser olhadas as chamadas reviews. Lopes não parece excluir a importância da sua existência num espaço, por definição, democrático como a Internet. No entanto, alerta: esse conteúdo é informativo, mas não mais do que isso. Ele não substitui a crítica especializada.

Esta prática, se já era comum em 2008, principalmente via blogues, mais se tornou ainda com o passar do tempo. Sites como Rotten Tomatoes, AdoroCinema ou Comunidade Cultura e Arte, entre outros, conquistaram um espaço digital no âmbito das reviews de filmes sem necessitarem, em momento algum, de contar nas suas fileiras com críticos de cinema academicamente qualificados para o efeito.

Os redatores destas críticas são, na melhor das hipóteses, fãs de cinema. Certamente terão uma grande experiência de visualização. Certamente saberão um pouco mais do que o cidadão comum sobre o assunto. Mas apenas um pouco mais. Estão, aliás, em termos de conhecimento, bastante mais perto do público do que do crítico. Será, então, um problema de qualidade? Não necessariamente. O problema está mais nos editores destes e de outros sites que aceitam a publicação destes discursos. Neste caso, a vitória da mediocridade dá-se quando passa por especializada e o público não se apercebe disso, lendo-a como um conteúdo educativo e relevante, quando, na verdade, é dispensável e ruidoso.

Como é evidente, a crítica não fica reduzida a isso, mesmo no espaço online. Em Portugal existe o exemplo do site À Pala de Walsh, que conta com crítica especializada de cinema, recurso a críticos academizados, bibliografia temática e um discurso mais marcadamente ensaístico. Contudo, as discrepâncias de visibilidade são flagrantes. Enquanto a página de Comunidade Cultura e Arte conta com 239 mil seguidores na rede social Facebook, a página de À Pala de Walsh conta com 12 mil.

Devido ao que João Lopes denomina por ‘valores tabloides’ do jornalismo português, entre outros fatores, como a irrelevância editorial crónica dada ao jornalismo cultural (que resulta num espaço diminuto em papel para este tipo de empreitadas) ou a parca profissionalização do setor, a crítica de arte especializada é constantemente remetida para os mercados de nicho, quer na imprensa tradicional, quer no online. Este tipo de crítica realmente didática e mediadora existe. Ela está apenas escondida na cortina de fumo das reviews que dificultam que se veja para lá desse horizonte de perspetiva:

A grande questão está em que, se não entendemos o futebol ou a informática, isso não agride o nosso narcisismo, mas, se não entendemos um suplemento de cultura, isso põe em causa aquilo que somos: e, não suportando que tal aconteça, em vez de procurarmos estar à altura do que existe, pretendemos que o que existe se reduza àquilo que neste momento somos. (…) Admitimos perfeitamente que, se temos deficiências na nossa formação profissional, devemos esforçar-nos por melhorá-la, mas continuamos a supor que, em relação à nossa formação cultural, ela nos deve chegar sem esforço da nossa parte. (…) Nesta medida, a retórica antielitista é a perigosíssima máscara da mediocridade.” (Eduardo Prado Coelho, 2001)

Complementando a ideia de Eduardo Prado Coelho, pode-se dizer que essa máscara funciona, simultaneamente, como um mecanismo preguiçoso e como uma venda nos olhos do público, no sentido em que não só a mediocridade é uma profecia que se auto-realiza e se auto-alimenta, como também a própria mediocridade acaba por embaciar a oferta de crítica, uma vez que ela possui um potencial de disseminação incomparavelmente superior.

Contudo, a atitude a ter perante esta oferta que se multiplica na Internet e nas redes sociais não deverá seguramente passar por uma contra-vaga proibicionista ou condenatória. É necessário reconhecer que a crítica não especializada pode ter um papel não apenas informativo, mas também municiador. Isto é, ser uma abertura de portas que sirva de orientação para quem se quiser aventurar pelos juízos mais qualificados, dado que também não é desejável que estes se mantenham restritos à própria circulação de intelectuais que os produz. Pelo contrário, é na complementaridade e no investimento formativo que estas realidades podem coexistir, servindo propósitos diferentes para o mesmo leitor:

Um dos responsáveis pela Televisão da Galiza, José Durán, sublinhou que o tratamento jornalístico da cultura deve ser encarado, em simultâneo, como forma diferenciada e autónoma, com programas específicos, mas também com participações avulsas e fragmentárias integradas no todo informativo. A coexistência das duas dimensões – permito-me acrescentar – é essencial, a fim de garantir, simultaneamente, o tratamento aprofundado das temáticas culturais mas também que estas não fiquem confinadas a um gueto.” (Mário Mesquita, 2001)

Com o consolidar da cultura de massas digitalizada em Portugal, existe hoje algum consenso entre os críticos de que uma abordagem a priori preconceituosa e discriminatória da qualidade de um certo filme é um exercício que confere vários riscos. Por outras palavras, é possível um filme comercial merecer uma apreciação positiva, assim como o segmento independente e de autor não está evidentemente livre de más obras. Ainda assim, há advertências a ser lidas:

“A crítica já foi muito mais importante do que é hoje”, alerta Luís Miguel Oliveira. Ela era o “único mediador entre os filmes e os seus espectadores”, mas hoje em dia os espectadores são mais permeáveis a outros tipos de informação, nomeadamente a informação publicitária.» (Luís Miguel Oliveira, 2017)

Fonte: beira.pt

Existe um problema do foro jornalístico com este tipo de críticas não qualificadas. A abordagem jornalística visa a mediação. Neste caso, entre o público e a cinefilia académica. Se deixamos esse discurso predominantemente nas mãos de pessoas sem arcaboiço teórico e terminológico, o jornalismo torna-se num pé de microfone, enclausurado por uma análise emocional, intuitiva e, normalmente, laudatória. No fundo, estamos a falar mais de um press release do que propriamente de uma crítica independente. O que é, de resto, contraditório, dado que “o trabalho na essência não muda, mas as ferramentas ao dispor mudaram e são muito mais ricas. As condições para um bom trabalho são maiores hoje do que eram há vinte anos.” (Luís Miguel Oliveira, 2017)

Perante a evidência de que a indústria da cultura e a cultura de massas fizeram mais uma vítima, neste caso a crítica, mais do que os lamentos que deixo ao encargo das elites intelectuais, há a salientar um acontecimento importante e, simultaneamente, peculiar. Voltando a Eduardo Prado Coelho. O ensaísta lisbonense fala-nos daquilo que é o atentado ao narcisismo individual, a falta de cultura. Falta de cultura essa que, no seu entender, é mitigada não por um investimento de aproximação ao conhecimento especializado, mas por uma amputação e degeneração do mesmo. A aproximação dá-se na mesma, mas pela via narcísica e não pela via da curiosidade. 

Em 1917, Sigmund Freud anunciava as três feridas narcísicas que apunhalaram o peito da Humanidade ao longo da História: o heliocentrismo de Copérnico (quando a Humanidade descobriu que não era o centro do universo), a teoria da origem das espécies de Darwin (quando a Humanidade descobriu que não era o superior ao reino animal, mas parte dele) e a psicanálise do próprio Freud (quando a Humanidade descobriu que não detinha sequer o total controlo do seu ‘eu’, refém das pulsões inconscientes).

Com a democratização da cultura e consequente democratização do mau gosto e assassínio da crítica, a grande massa humana deixou de ter um sistema que incentivasse a aquisição de conhecimento a respeito dos produtos culturais. Assim, impõe-se a questão: como é possível gostar de algo que não conhecemos? Especificando: como podem as massas dizer que gostam de cultura e de obras de arte se insistem em boicotar os protocolos de mediação? As massas gostam, realmente, de consumir cultura? Ou apenas acham que sim ou talvez fingem que sim? Estaremos perante um golpe ao narcisismo, auto-imposto que as massas se recusam a reconhecer? Contrariamente à informática e ao futebol, continua a ser socialmente reconhecido como vergonhoso o desconhecimento sobre cultura. E, tal como se sucedeu com as três feridas narcísicas propostas por Freud, também esta ferida narcísica levará séculos até ser digerida.

O gosto pela criação cultural, por todos reconhecida como a ação que confere Humanidade aos humanos e os distingue do restante reino animal, encontra-se cada vez mais restrito a uma minoria. A Humanidade ainda não foi capaz de reconhecer que, na sua maioria, não gosta, na verdade, de cultura e essa é a sua quarta ferida narcísica, porque sem cultura o que resta é a animalidade e a robotização.

Artigo revisto por Inês Pinto

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Um indivíduo que o relembra, leitor, de que os livros e as opiniões são como o bolo-rei: têm a relevância que se lhe quiser dar. O seu maior talento é insistir em fazer coisas que não servem para nada: desde uma licenciatura em literatura luso-alemã, passando por poemas de qualidade mediana, rabiscos de táticas de futebol (um bizarro guilty pleasure) ou ensaios filosofico-autobiográficos, sem que tenha ainda percebido porque e para que o faz. Até porque já ninguém sabe o que é um ensaio.

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