7ª Arte

Breakfast at Tiffany’s : Holly Golightly e o seu legado

São 6 da manhã, a porta de um táxi abre… Dele sai uma mulher num elegante vestido preto e com o cabelo arranjado, de forma a exibir um pescoço abraçado por um colar de pérolas. Ela avança para a montra da loja da Tiffany’s. A rua está deserta e ela, acompanhada apenas pela ideia de uma vida de luxo e de beleza, abre o saco que trouxe e toma o pequeno-almoço.

É assim que começa o agora clássico filme de 1961, Breakfast at Tiffany’s ou «Boneca de Luxo», em português. Um filme que até hoje tem um lugar tão especial na cultura popular que é difícil separá-lo da sua iconografia e estilo. Porém, se o despirmos do seu pequeno vestido preto da Givenchy, somos surpreendidos com uma rica comédia romântica que analisa uma nova sociedade de consumo e uma nova ideia de feminilidade.

Holly Golightly (Audrey Hepburn) toma o pequeno-almoço, em «Boneca de Luxo». Fonte: Trailer

Das páginas para o ecrã

Se nunca viste nada deste filme sem ser os seus pósteres icónicos, é importante sublinhar algo: este filme não é inocente como estás à espera. Sim, as partes mais gráficas ou sugestivas são postas num território de (óbvio) subentendimento, mas não te deixes ser enganado. A sua história segue um autor(/gigolô), Paul Varjak, novo em Nova Iorque, e o seu fascínio por uma mulher do seu prédio chamada Holly Golightly, uma jovem imprevisível e espontânea que vive num apartamento partilhado apenas com o seu gato sem nome. Ao longo da trama e de todas as suas revelações, Holly, que no início parece apenas uma personagem carismática, mas pouco temperada, é nos revelada como uma das mais marcantes anti-heroínas da história do cinema. O que torna Holly Golightly tão especial e memorável?

Quem lê o romance de Truman Capote percebe melhor a importância do contexto na história, principalmente porque se difere tanto do filme. O livro foca-se na análise de um novo mundo de ostentação, festas e ilusões, pós-Segunda Guerra Mundial. Holly Golightly serve não só como o proxy deste mundo, mas também como o seu representante. O que aparentemente parece ser uma mulher glamorosa e livre é, na verdade, uma menina presa aos demónios de um passado que tenta desesperadamente esconder atrás das suas jóias e vestidos luxuosos, sustentando-se com os seus serviços de acompanhante de luxo e com um emprego que aceita inocentemente que consiste em visitar e informar um membro da máfia. Com este livro, Capote comenta como muitos se esconderam atrás desta ilusão de luxo e de diversão como uma maneira de escapar à dura realidade que foi a guerra, enquanto expõe todas as mudanças de mentalidade que esta transição trouxe.

Truman Capote. Fonte: Britannica

O filme acaba por ir numa direção diferente… Por muito interessante que o livro seja, a ausência de um enredo dinâmico e o facto de o seu conteúdo ser demasiado explícito para os anos 60 dificultaram não só a sua adaptação, mas também o seu casting. Quem ia escrever o filme? E ainda mais importante: quem ia ser a estrela disposta a fazer um papel tão controverso? Após diversas tentativas falhadas, a obra cai nas mãos de George Axelrod, que a transforma na comédia romântica que conhecemos hoje. Por muito que respeite a visão de Capote, a decisão de não só dar à história um final feliz, mas também a de alterar, de certa maneira, a sua mensagem e tom foi bem-vinda e o seu argumento acabou por ser nomeado para um Óscar. Quanto à sua estrela, Capote queria a Marilyn Monroe, e Axelrod, já tendo trabalhado num filme com esta, adapta o guião. Marilyn mostra interesse, porém, após ser aconselhada pela sua treinadora de atuação a não representar uma prostituta, acaba por se afastar do projeto. É aqui que entra Audrey Hepburn.

Hepburn já tinha sido abordada para o projeto, porém, tanto ela como o seu marido conservador, Mel Ferrer, tinham alguns problemas com a representação de uma senhora da noite. Contudo, depois deste novo argumento e de algumas cedências ao marido da atriz, finalmente trancaram Audrey como a estrela do filme. Posta nas mãos erradas, Holly Golightly poderia não ser a personagem icónica que nós conhecemos hoje, mas Audrey simplesmente encarna a personagem, transmitindo uma energia moderna e uma sensualidade que nunca tinha sido vista nela, especialmente dois anos depois de representar uma freira tão perfeitamente que fora nomeada para os Óscares. Não é surpreendente ver Hepburn a arrasar os momentos juvenis e inocentes de Golightly, mas ver como vive (e veste!) o cisne negro da personagem. É sexy sem ser vulgar, engraçada sem ser obnóxia, é simplesmente uma representação deliciosamente equilibrada e a minha escolha pessoal num catálogo tão icónico como o de Audrey. Não surpreendentemente, a Academia concordou, e foi recompensada com mais uma nomeação, perdendo em favor de Sophia Loren.

 Dissecando Holly

Quando conhecemos Holly pela primeira vez, somos apresentados às duas forças conflituosas na sua vida – a vida de luxo que (acha) que quer e os homens que usa para a obter. Uma ideia confirmada ao longo do filme, com o foco na procura de um marido pela mesma. Nós podemos facilmente interpretar isto como uma típica história de uma mulher interesseira cujo único interesse na vida é ter dinheiro e um marido que o arranje. Porém, quando nos é revelado o seu passado, nós conseguimos perceber mais facilmente de onde vêm estes desejos e aquilo que realmente representam.

Mais ou menos a meio da trama, somos introduzidos a um homem misterioso que se introduz como Doc Golightly, revelado mais tarde como ex-marido de Holly cujo nome verdadeiro é Lula Mae. É com ele que aprendemos o passado desta personagem – após se casar aos 14 anos com Doc, dono de uma quinta, Holly acaba por fugir de casa e muda-se para Nova Iorque, deixando para trás o seu marido e o seu irmão. Isto é um ponto essencial da história, pois é aqui que nós deixamos de ver Holly como uma fonte confiável da sua própria história e começamos a reunir as peças que nos foram dadas. Este casamento provavelmente fez com que Holly se sentisse encurralada, levando a que fugisse à procura de uma vida melhor. Porém, a culpa consequente do abandono do seu irmão e a confusão que deve ter sentido por deixar uma vida para trás causam uma perda de identidade e problemas em estabelecer relações. Faz sentido que ela venda o seu corpo, pois a sua ausência de autoconhecimento e, consequentemente, amor próprio fazem com que ela não se veja para além da sua beleza. A sua afeição com o estilo vida luxuoso e a loja da Tiffany’s representa a necessidade de estabilidade que ela inconscientemente quer e procura em bens materiais, ilustrando a sua visão superficial da vida. O problema? Ela acha que só poderá obter esta vida através do seu potencial físico, daí procurar possíveis maridos que lho possam oferecer.

(Da esquerda para a direita) George Peppard, Audrey Hepburn e Patricia Neal em «Boneca de Luxo» (1961), realizado por Blake Edwards. Fonte: IMDb

Esta ilusão que tem sobre uma vida de luxo é rapidamente desmistificada com a personagem de Patricia Neal, que é creditada como 2E Failenson, uma mulher de meia-idade que procura os serviços oferecidos por Paul. Apesar de nos serem dadas muitas informações sobre a sua vida, nós sabemos o essencial – tem muito dinheiro, visto pela sua roupa e pela mobília que esta oferece para a casa do Paul, e que está num casamento infeliz. Esta personagem prova que a vida que Holly acha que quer não lhe vai trazer a satisfação que procura, pois é através das relações que estabelecemos com as pessoas que encontramos a felicidade, não através de bens materiais. É, por isso, interessante ver como as vidas destas personagens contrastam ao longo do filme. Enquanto Holly rejeita Paul em prol da procura de uma vida de ostentação, a personagem de Neil procura Paul em prol de viver a sua vida, mesmo com todas as riquezas a que tem acesso.

É com a chegada de Doc, e posterior anunciação da chegada de Fred, irmão de Holly, da tropa, que ela volta a ser confrontada com a sua vida passada e deixa de ser capaz de viver a farsa que é a sua vida atual – o que será evidente pelo ataque que tem quando chega a casa com o seu novo noivo, José, um brasileiro riquíssimo. José acaba por deixá-la após ser descoberto que, nas visitas que fazia à prisão, Holly estava a servir como mula de informação. Esta revelação e posterior apreensão da mesma iniciam o ato final da história e a mudança mais drástica entre o livro e o filme.

Audrey Hepburn e Jose Luis De Vilallonga em «Boneca de Luxo» (1961), realizado por Blake Edwards. Fonte: Classiq

Enquanto no livro Holly foge, ilustrando que o estilo de vida que ela representava não era sustentável e que, numa visão mais cínica, as pessoas não podem ser mudadas assim tão facilmente, o filme opta por um final mais cliché, mas adequado. Holly pensa em fugir, finalmente confessando que não sabe quem é e que nunca iria conseguir entregar-se a alguém, pois sente que ninguém é de ninguém. Num momento de raiva a caminho do aeroporto, Holly volta a tentar repetir o que fez aos 14 anos – dissertar as coisas que fazem dela quem ela é, numa maneira de se despir da sua identidade, e, de certa forma, reiniciar a sua vida – e abandona o seu gato.
Paul, após assistir a isto, acaba por sair do táxi onde tudo isto está a acontecer. Contudo, Holly arrepende-se e começa a procurar o seu gato. O filme termina com ela a encontrar Paul, o seu gato e, mais importante, ela própria, seguido de um beijo romântico com o primeiro. A rua já não está tão deserta… O facto de Holly escolher ficar com Paul e com o seu gato mostra como ela está a escolher agarrar-se à vida que tem, e que, ao amar, e mais importante, ao deixar-se ser amada, já consegue ver o seu valor para além do seu exterior. É através do amor que deu e recebeu que Holly finalmente se encontra e essa é, na minha opinião, a verdadeira história de amor deste filme.

George Peppard e Audrey Hepburn em «Boneca de Luxo» (1961), realizado por Blake Edwards. Fonte: Pinterest

O Legado de Holly Golightly

Tal como eu disse no início deste artigo, é difícil separar este filme do seu estilo e iconografia – que merecem a sua própria análise. Porém, ignorar a influência das suas personagens, especialmente Holly, no mundo do cinema e na consciência das pessoas é algo injusto.

Para entender o quão poderosa esta personagem foi para esta altura, temos de entender o contexto dos anos 60. Mulheres sexuais e liberadas são vistas aos olhos do público e das instituições de censura como moralmente corruptas – o que levava a que, segundo uma cláusula do Hays Code, um conjunto de diretrizes que deveriam ser aplicadas nos filmes de Hollywood tivesse de ser castigado. Como tal, não é incomum ver mulheres com narrativas moralmente ambíguas a morrerem ou num estado mental degradado. Basta olhar para a vencedora do Óscar de 61, Elizabeth Taylor, que em Butterfield 8 representa uma ‘‘party girl’’ (interpretemos como prostituta), que se encontra no meio de dois triângulos amorosos e que no fim morre num acidente de carro.

Holly não é apresentada como uma mulher corrompida ou merecedora de castigo, mas como uma ilustração das dificuldades que muitas mulheres daquela altura sentiam – encontrar valor e identidade para além do físico e da pressão à submissão aos homens nas suas vidas. Exemplificou como muitas mulheres contemporâneas se sentiam sufocadas em casamentos que lhes eram impostos como o caminho comum para a felicidade. Mas, mais importante que isso, Holly representa que mulheres como ela – sexuais, complexas e moralmente ambíguas – merecem e conseguem encontrar felicidade no final das suas histórias É difícil saber que personagens icónicas do grande ecrã foram influenciadas ou aproveitaram a porta aberta por Holly no ano de 61. Uma personagem que em outros filmes da mesma altura seria castigada pelas suas más ações e atitude sexual positiva, mas que neste foi vista e tratada como uma mulher culpada, mas vítima das suas circunstâncias, e que não é menos merecedora do final feliz que outros anti-heróis do sexo oposto receberam.

«Boneca de Luxo» não é de todo um filme perfeito. Paul não é uma personagem muito interessante e a escolha de contratar o ator branco Mickey Rooney para representar o vizinho asiático de Holly, Mr. Yunioshi, não foi uma escolha que envelhecesse bem. Contudo, se pusermos de parte estes erros, somos deixados com uma das melhores comédias românticas da história do cinema, com o seu foco numa personagem revolucionária que merece mais crédito do que apenas ser vista como a rapariga bonita a comer um folhado à frente da Tiffany’s.

Artigo redigido por Bernardo Campos

Artigo revisto por Lurdes Pereira

Fonte da imagem de destaque: CineAddiction

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *