Música

Carolina Deslandes: “Entre marido e mulher não se mete a colher. Eu meto.”

A ESCS Magazine esteve presente no Capitólio para a apresentação da curta-metragem MULHER, de Carolina Deslandes, com direito a um showcase com as músicas do EP com o mesmo nome, no dia 25 de novembro de 2020, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Carolina subiu ao palco para dar início ao visionamento da curta, discursando, nervosa, agradecendo à equipa de Audiovisual que esteve por detrás de tudo e passando, de seguida, a contar o que a levou a criar este projeto.

Confessou que foi aos 12 anos que a avó lhe falou sobre as chapadas que dava aos homens quando estes lhe tocavam no corpo e que lhe disse para ela não deixar que lhe tocassem também. Mais tarde, a avó mandou parar um táxi ao ver que uma mulher estava a ser agredida pelo marido, tendo o apoio dos restantes carros à sua volta, apesar de não ter conseguido travar o homem, devido à sua força. “Cada vez que não agimos por medo, eles ganham” – foi a frase que a avó de Carolina lhe disse ao chegar a casa depois desta situação e que foi o mote para a criação de MULHER.

Aos 29 anos, Carolina afirma que é urgente mudar o mundo e que não era tarde nem cedo para criar este projeto, já que toda a gente que a rodeia lhe diz que está quase a chegar aos 30, número este que a tem marcado bastante ultimamente – 30 mulheres foram assassinadas em Portugal e 16 delas no contexto de intimidade. “É um problema que existe, podemos não viver na primeira pessoa, mas é da nossa responsabilidade ajudar e agir.”, confessa, emocionada, e acrescenta ainda que é urgente haver uma reconstituição da sociedade.

Entre marido e mulher não se mete a colher. Eu meto.” – esta foi uma das mensagens que Carolina Deslandes apelou a todos para cumprir, tal como ela o faz diariamente, para combater a violência doméstica. 

Agradeceu à MEO por ter acreditado no projeto e agradeceu ao público por estar presente, expressando que é seguro vir a salas de espetáculo e que a cultura é necessária, passando, assim, à visualização da curta-metragem.

Curta-metragem “MULHER”
Fonte: Carolina Deslandes via Youtube

I/VI – Tempestade

Ouve-se o início duma missa, com imagens duma igreja, passando para voz-off com uma mensagem da cantora onde a frase “Tu és o pilar da tua vida” é realçada, iniciando, de seguida, a primeira música, Tempestade. Entende-se que estamos perante o casamento de duas personagens – um homem e uma mulher, protagonizada por Carolina Deslandes. No decorrer da música, são-nos mostrados os maus-tratos de que a mulher é vítima em casa e as discussões entre o casal, em que o marido a sufoca. Enquanto isto acontece, vão aparecendo planos da filha a chorar no quarto.

Vemos a mulher a pedir boleia, intercalando com planos do casamento, e a música termina. A voz-off volta, onde as frases “Será que ainda sou eu que moro neste corpo?” e “Será que te amo tanto quanto te temo?” são realçadas. Entendemos que a mulher quer fugir, mas tem medo, pois está presa ao marido e não tem coragem para o fazer, mesmo sabendo que é livre. 

É feito um cruzamento de histórias, e vemos uma rapariga, protagonizada também por Carolina Deslandes, a sair dum carro que lhe deu boleia até à Ribeira das Naus, em Lisboa. 

II/VI – Sinais de Fumo 

Novamente, a voz-off é utilizada e a frase “Não me roubaste os sonhos.” fica na memória. A música inicia e continuamos a ter o cruzamento das duas histórias – temos a mulher a despir-se lentamente em frente a uma fogueira, vestida de branco, e a rapariga a passear pela Ribeira das Naus e a cantar a letra da canção Sinais de Fumo, acompanhada por um rapaz que encontrou a tocar guitarra, acabando por ir passear pelas ruas de Lisboa com ele.

III/VI – Apetece

Não sabia que estava tão atrasada para ser feliz.” é a frase mais marcante da voz-off que determina a passagem duma música para outra, passando para a canção Apetece, onde a história se centra na rapariga e no rapaz. Estes saem à noite, trocam uns sorrisos e vivências num bar, para se conhecerem melhor, e acabam por se envolver, dormindo juntos. A fotografia destas cenas é fantástica e é de realçar as cores e os planos utilizados que fazem com que o espetador fique colado ao ecrã.

A história da mulher volta e ouve-se outra parte da missa, onde o padre refere que nem todos os que suplicam ao Senhor vão para o céu.

IV/VI- Faz Morada em Mim

A rapariga e o rapaz acordam felizes e a música Faz Morada em Mim começa a ser cantada pela personagem representada por Carolina, enquanto o outro toca guitarra.

Depois, vemos a mulher, de novo em frente da fogueira, já despida e agarrada à roupa, queimando-a de seguida.

Voltamos para o primeiro plano desta cena e, de seguida, o tema que começa a ser abordado é a comunicação social, criticada por Carolina Deslandes na música Vergonha na Cara, por mostrar e publicar o pior das mulheres, expressando “As coisas acontecem sempre aos outros, mas os outros dos outros somos nós.”.

V/VI Vergonha na Cara 

Carolina Deslandes veste o papel de si mesma para esta música, onde está num cenário duma sessão fotográfica vestida com roupa asiática e com o seu Globo de Ouro na mão. Olha-se ao espelho, vários membros da equipa tentam chegar perto dela, mas esta despreza-os, enquanto canta os versos.

O plano muda para um rooftop, de noite, onde Carolina está com outra roupa e, com o decorrer da canção, começa a levitar e cai suavemente numa cama, adormecendo. Entendemos que está presa no seu sonho ao soar, em voz-off, a voz de alguém a chamar pelo seu nome e a dizer-lhe para acordar. Com isto, vemos que quem acorda é a mulher, agora idosa, na cama com o marido, e vemos que está com um ar sufocado e agoniado.

Depois de o marido se levantar, entendemos que ela está arrependida de estar com ele há tantos anos e decide sair de casa para desanuviar. Depois do plano da mulher, voltamos à fogueira, onde vemos o marido a queimar um livro, não dando a entender o que é, nem o porquê.

VI/VI – Não Me Importo

A canção começa: o homem entra em casa e começa a agredir física e verbalmente a esposa. Os planos da fogueira, da discussão e da igreja são cruzados até ao final da canção. Durante a agressão física, ouvem-se os suplícios da mulher para que o marido vá embora e, quando ele volta a sair de casa, esta começa a arrumar as suas coisas e foge, indo para a igreja. O homem volta para casa, prepara-se para agredir novamente a mulher e procura-a por todas as divisões, até que entende que ela fugiu, por isso, começa a cair na realidade e entra em pânico. De seguida, pega em todos os livros religiosos, sai de casa e queima-os na fogueira, fazendo referência ao plano que já nos tinha sido apresentado anteriormente. A curta-metragem termina, então, com a mulher de joelhos na igreja a olhar para o padre e para uma freira.

SHOWCASE

Ao terminar a curta-metragem, dá-se início ao showcase do EP Mulher com a música Tempestade. Fazem-se ouvir gongos durante o levantar das cortinas, para representar trovões, e vê-se apenas a silhueta de Carolina através do fumo do palco e de luzes brancas intercaladas para representar relâmpagos. Começamos a ver alguns elementos da banda, começando pela violoncelista, do lado direito, passando para o baixista, do lado esquerdo, e terminando com os restantes e com a Carolina, jogando sempre com um jogo de luzes fantástico de branco e azul.

Passamos para a segunda música da setlistApetece – em que as cores utilizadas em palco são magenta, vermelho e branco. Finalmente, conseguimos ver a figura de Carolina num todo e, no decorrer da música, as cores vão-se alterando para branco e azul, mas mantendo sempre as três primeiras cores iniciais durante o refrão. O som da bateria fica mais forte, passando para a bridge, onde Carolina se liberta e começa a dançar, interagindo com o público. Chegamos finalmente ao outro da canção, onde a cantora mostra a sua habilidade vocal e termina interagindo com a banda.

Duas cadeiras são colocadas em palco, dando a entender que o momento acústico e mais íntimo do concerto está a chegar. Carolina e o guitarrista sentam-se nas cadeiras e a cantora faz um discurso em que agradece ao público e confessa que está com uma faringite: “Até enfiei um cotonete a pensar que era Covid, mas deu negativo” – conta, enquanto se ri, adicionando ainda que só no dia anterior ao showcase é que conseguiu cantar minimamente bem.

Revela que as duas músicas que vai cantar em acústico não estão disponíveis nas plataformas digitais, pelo que as pessoas precisam de ver a curta para as ouvirem – são estas Sinais de Fumo e Faz Morada em Mim.

Conta que a mensagem da primeira música é clara – “Se for necessário, faço sinais de fumo para tu entenderes” – e que a segunda foi a primeira canção sua que escreveu depois de estar grávida do seu filho Santiago. Conta que foi à casa de banho às 6 da manhã, antes da cesariana, e escreveu sobre o facto de ele ter feito morada nela durante 9 meses. Começa a cantar e as luzes centram-se nos dois, sendo esta a parte mais emotiva e calma do concerto.

Para continuar o show, discursa, de novo, mas desta vez sobre a sua aversão ao que escrevem sobre ela e sobre todas as mulheres na comunicação social. Afirma que dá um murro na mesa quando vê as notícias que saem com o nome dela e relembra que aquela pessoa sobre a qual escrevem é amiga, filha e irmã de alguém que pode não ter um jornal na mão, mas tem um microfone e não tem Vergonha na Cara.

Esta foi sem dúvida a canção que gerou mais adesão por parte do público, principalmente pelas palavras que Carolina disse antes de começar, mas também por fazer soar versos como “Ela ‘tá mais gorda, Ela ‘tá mais magra, Ela ‘tá mais calma, ela ‘tá mais amada” e “Sou cara de pau, não faças cara de mau, Que eu não tenho vergonha na cara”. Apelou ainda ao público para cantar com ela, dividindo os versos do refrão pelo lado direito e esquerdo da plateia.

Termina a canção dizendo que é o tipo de música perfeito para se ouvir depois dum banho, enquanto escovamos o cabelo e fazemos “cara de mauzões” em frente do espelho, mas, na verdade, não fazemos mal a ninguém. Depois fez uma ponte para apresentar os membros da banda e disse para termos em atenção a violoncelista na música seguinte.

Anuncia, então, que a música seguinte é a última da setlist e voltamos a ver apenas a silhueta de Carolina e o seu cabelo cor-de-rosa sobressai, devido à luz branca que incide sobre ela. Ouve-se um ritmo parecido com flamenco, parecido até com o estilo de Rosalía, e Carolina começa a cantar os versos de Não Me Importo. Ao chegar à bridge da música, o holofote foca-se na violoncelista e esta entrega um solo belíssimo que deixa o público boquiaberto, aplaudindo logo de seguida. Carolina continua a canção, fazendo uma mashup com a Ready or Not, de Fugees, com direito a ovação de pé.

O público levanta-se e começa a ir embora, até que os músicos voltam e a Carolina brinca com a situação, pois os artistas fazem sempre isso para o público puxar por eles e cantarem mais uma música. Segue-se, então, o encore e, continuando no tom de brincadeira, a cantora diz que vai cantar uma música que todos conhecem para terminar em grande e que não é A Vida Toda.

Adeus Amor Adeus é a música escolhida para encerrar o espetáculo e o público acompanha os versos da canção com palmas e cantando. A banda e Carolina agradecem e procedem-se os discursos finais de agradecimento.

Foi um espetáculo inesquecível, a mensagem de que os maus-tratos não são um problema erradicado e de que a sociedade precisa de abrir os olhos para aquilo que passa por nós e não vemos foi elevada a um nível que não deixou ninguém indiferente. É necessário lutar por aquilo que é nosso – a liberdade de viver e de sermos nós mesmos, sem estarmos presos a ninguém. 

Lutar não é só hoje, nem foi só no passado: é todos os dias e sempre será.

Artigo por: João Falamino
Cobertura fotográfica por: Matilde Santos

Revisto por: Ana Roquete