Moda e Lifestyle

Cortar o cabelo foi uma das melhores coisas que me aconteceu

Ao sair do barbershop, o meu couro cabeludo, mais exposto do que nunca, foi beijado pelos ares de Bordéus – é a mesma sensação de quando mastigo, nos primeiros segundos, uma pastilha Trident fresh spearmintla fraîcheur.

No dia 16 de dezembro de 2016 cortei o cabelo pela primeira vez. Se me perguntassem há uns anos porque é que eu decidi fazer isso, eu diria que foi pela liberdade. Também, mas, na verdade, em 4 anos há muito que se lhe diga, começando pela minha mãe.

Fonte: Cedida por Paula Suaila

Desde pequena que vejo a minha mãe a cortar o cabelo – muitas vezes por questões de reparo capilar ou de praticidade. Portanto, desde muito cedo, já reconhecia a beleza ali. O primeiro grande motivo para esta decisão drástica de cortar o cabelo foi pela praticidade, pela liberdade que ganharia de um reset espiritual após uma longa e exaustiva relação com o meu cabelo natural.

O cabelo da mulher africana é conhecido pela sua versatilidade. Para vocês terem noção, o meu cabelo natural é o tipo 4c (ver foto abaixo). Foram 17 anos a fazer penteados super criativos com missangas, tranças com extensões ou postiço de todas as cores, texturas e tamanhos diferentes. Horas, horas e horas a trançar e a desentrançar, a esmagar o coxis e a desfalecer de dores. Sim, até aos 17 anos, caía-me sempre alguma lágrima. Sem contar com a ansiedade que sentia ao pensar que só faltava uma trança por fazer, quando, na verdade, ainda faltavam 13. Ou as duas primeiras noites mal dormidas após um penteado novo – noites em que só desejava que a minha almofada fosse uma nuvem.  No entanto, se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo. Uma testa a brilhar, uns olhos vermelhos e inchados, mas um sorriso sempre refletiam no espelho quando tinha um penteado novo acabadinho de fazer. Portanto, sempre valia a pena o sofrimento.

Fonte: beauty empire

Cortar o cabelo não foi uma decisão tomada da noite para o dia. Passei por um processo mental de uns 2 meses em que observava, vezes sem conta, o formato da cabeça dos meus pais (imaginem se tivesse um caco com o formato de um cubo ou de um camião? Deus me free!). Punha-me em frente ao espelho, amarrava o cabelo, segurava no meu mini-pompom esponjado – como se de uma manete de caixa de velocidades se tratasse – direcionava a minha cabeça para tudo o que era lado e imaginava como o cabelo rapado me ficaria.

Não vou mentir. No trajeto para o barbershop, arrependi-me antecipadamente umas mil vezes de tão ansiosa que estava. Mas no momento em que senti o tremor da máquina na minha cabeça fiquei submergida pelo alívio. Ainda com metade da cabeça rapada e a outra cabeluda, já sabia que tinha tomado uma das melhores decisões da minha vida. Ao sair do barbershop, o meu couro cabeludo, mais exposto do que nunca, foi beijado pelos ares de Bordéus – é a mesma sensação de quando mastigo, nos primeiros segundos, uma pastilha Trident fresh spearmintla fraîcheur. Fui acolhida com elogios pela minha família, amigos e até estranhos, vejam lá. Quem não gosta de elogios, não é? Saboreei a resposta do olhar externo ao quebrar as correntes que associam a feminilidade ao cabelo. Mas o mais importante e gratificante é sentir o meu próprio sabor. Sinto-me mais bonita e melhor do que nunca, com ou sem elogios.

Arco do Triunfo, Paris
Fonte: Cedida por Paula Suaila

Em retrospetiva destes últimos quatros anos, ter o cabelo rapado tem sido uma experiência muito positiva, mais la vie n’est pas en rose! Uma semana após o big chop (nome que se dá ao corte drástico de cabelo) fui visitar Paris pela primeira vez e posso dizer garantidamente que foi o pior evento do ano de 2016. Apanhei o maior frio da minha vida, maioritariamente na cabeça. O meu corpo quase que era aspirado pela ventania que se fazia sentir na saída da estação de metro Trocadéro. A minha alma quase que me saia pelo couro cabeludo. Não consegui contemplar as míticas ruas parisienses, muito menos a Dama de Ferro, porque só queria voltar para casa e tomar um banho com água a escaldar. Depois dessa, raramente me verão, nos dias mais frios, sem gorro.

Estão a ver aquelas coisas que fazíamos antigamente e que agora, ao olharmos para trás, dizemos “mas como é que eu fiz isso?”. Pois bem, no histórico da minha careca também já dei um fashion faux-pas: limpar e delinear as bordas. Esqueçam! Se eu tinha dois dedos de testa, passei a ter três. O corte nunca ficava igual ao de há 2 meses atrás. Agora é só passar a máquina e pronto, porque less is more.

No barbershop
Fonte: Cedida por Paula Suaila

De dois em dois meses, corro sempre o risco de passar pela máquina zero, porque me falha sempre a memória do tamanho do pente, mas tudo está nas mãos do meu barber nepalês. Com o confinamento, estou a considerar comprar uma máquina de corte de cabelo só para mim.

Passei a valorizar o uso de brincos e argolas. Para além do facto de darem algum relevo e cor, também são prestáveis, uma vez que, sem cabelo, preciso de brincos para substituírem aquele reflexo de mexer no cabelo quando o crush está na mira.

Fonte: Cedida por Paula Suaila

Tenho dias bons, mas também tenho dias em que a minha auto-estima passa pelo efeito “sanfona”. No entanto, sinto-me mais confiante do que nunca, pois estou dentro do meu elemento. Se me vejo a voltar para os fios longos? “Never say never!”, mas como isto é em inglês, em português direi “nunca”.

Artigo revisto por Ana Sofia Cunha

Fonte da foto de capa: Cedida por Paula Suaila

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Paula Suaila é uma estudante de jornalismo e redatora da secção Moda e Lifestyle. É semi-careca, é também a irmã perdida da Kelly Malcolm do Jurassic Park e tem quase a certeza de que, há duas vidas passadas, viveu na Dinastia Joseon. Quando não está a maratonar (#bingewatching) um drama coreano está a ler ou a ver algo relacionado com moda.

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