Opinião

A arte fútil de ser famoso

Não muito longe dos dias de hoje, em Portugal, revistas como a Lux e a Maria começaram a ganhar presença na sociedade e no quotidiano dos interessados na privacidade alheia. Se um dia acordasse com vontade de saber como teria corrido o encontro amoroso da Alexandra Lencastre ou que vestimenta a Lili Caneças teria optado por usar no seu passeio matinal, bastava deslocar-me ao quiosque mais próximo. As lantejoulas radiantes caídas pelo torso das famosas ofuscariam parcialmente qualquer conflito ou crise económica que pudesse afetar o país. E qualquer pessoa poderia ser alvo dessa cegueira.

Creio que Woody Allen não conhece uma única socialite portuguesa. No entanto, arrisco-me a dizer que há uma ténue probabilidade que comprova o contrário. Leopoldo Pisanello é a prova disso: a personagem italiana poderia representar a Lili Caneças portuguesa. No cenário de quatro histórias, Rome With Love escolhe destacar a vida desprezível do funcionário de escritório. De forma inesperada, Leopoldo Pisanello revela-se a recente estrela da televisão. O que come ao pequeno-almoço ou o tipo de boxers que utiliza são agora o maior interesse dos espetadores. Quando Leopoldo tenta perceber o porquê de isso se suceder, o motorista encarregado da limousine esclarece-lhe que o secretário apenas é famoso pelo simples facto de ser famoso. 

A história engelhada de Woody Allen não está longe de alguns rostos famosos do país vizinho de Espanha. Poucos devem ser os portugueses que têm conhecimento dos eventos antecedentes que tenham proporcionado os holofotes a incidir em casos semelhantes aos de Lili Caneças. Foi-nos imposta a ideia de que idolatrar e acompanhar a vida de quem não conhecemos e cujo mérito desconhecemos é algo de natureza básica. E, mais ainda, este mistério não incomoda a maioria ao ponto de ser esclarecido. Talvez por sabermos que o que vamos descobrir vem comprovar as nossas suspeitas. A arte de ser famoso está a ser apoderada por famosos que não artistas. E, como qualquer arte, esta tem vindo a abrir espaço para tendências tanto virtuosas, como também fedorentas.

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Fonte da imagem: Adorama

Um dos fatores a diferenciar as gerações prematuras das anteriores celebridades é a classe social. Mesmo que o caso de Lili Caneças não tenha sido influenciado pela sua posse financeira a certo ponto, a sociedade vê-o, mesmo assim, como um dos maiores fatores para a socialite se ter tornado relevante nos media. A nova geração de famosos desta linhagem não tem a sua classe como salto para a sua exposição. No caso dos youtubers, não nos ocorre que o motivo da sua celebridade se dê devido ao dinheiro que consigo possuem. Isto não acontece, pois têm como meio uma plataforma que serve como desculpa e desfoque do móbil financeiro que atua de forma indireta. Dificilmente uma pessoa de classe inferior a um youtuber conseguirá alcançar, inicialmente, um sucesso equivalente, pois não terá possibilidades de comprar o material necessário para fazer um vídeo sequer. A classe social como fator de fama começa a ser camuflada.

A arte de ser famoso está a supurar. No entanto, ainda existe crença de que dê espaço a melhorias. É difícil acreditar quando fechamos os olhos à futilidade da presença de alguns indivíduos e que ao levantarmos questões somos tentados a uma ilusão laboral. Atividades como podcasts, diretos na twitch ou parcerias publicitárias são cada vez mais usadas pelas novas celebridades, de forma a enriquecer o seu carácter leviano. O universo que se cria em redor da nova geração de socialites, incluindo youtubers e influencers, serve como utensílio impulsionador para a cegueira sofrida por aqueles sujeitos à sua exposição.

A quantidade de trabalho descrito na lista das celebridades chega a iludir mais do que a ausência de propósitos da geração de Lili Caneças. Isto talvez aconteça devido a um cansaço social agendado pelas celebridades. A única ideia de melhoria a extrair daqui é a possível proatividade das novas celebridades, mesmo que pequenas. Isto é: as novas atividades, de cariz dócil e que podem ser o hobby de qualquer pessoa, são abordadas pelos influencers como sendo o seu novo espaço laboral. A prática, para além de levar a um maior número de seguidores do seu “trabalho”, também demonstra, numa perspetiva mais positiva, uma força de vontade do nicho em fingir um motivo de fama – o que para esses indivíduos deve ser visto como um grande passo na espécie. Aparentemente, são precisas identidades que iludem e que entretêm o global e, para isso, é preciso acrescentar credibilidade, mesmo que esta seja falsa. E nesse campo parece haver um sucesso pessoal das celebridades maior do que anteriormente. O lado negativo são as consequências das suas ações crescentes.

O indivíduo que se intitula de relevante na sociedade e que se faz passar por tal não deve ser encarado unicamente pela sua ausência de aspirações. Dentro do grupo de “criadores de conteúdo”, é provável que um número não se contente apenas em fazer vídeos a comer ou a mostrar a sua rotina desimportante. Talvez seja ambicioso pensar isto, mas é inconcebível acreditar que este tipo de famosos tenham decidido um dia que o seu expoente máximo de concretização pessoal se baseie em fazer uploads no YouTube ou parcerias no Instagram. Tiffany Ferguson, youtuber e igualmente imersa em conteúdos como vlogs e podcasts, explica a tendência que tem ocorrido entre os criadores e as suas plataformas. Apesar de se encontrar dentro do universo propício à futilidade da notoriedade, Tiffany usa a sua influência para expôr algumas análises digitais. No seu vídeo “Why Do Popular YouTubers Stop Uploading? | Internet Analysis”, a jovem esclarece o porquê de alguns dos mais famosos criadores de conteúdo pararem de produzir com tanta regularidade ou totalmente. Para além das complicações na concretização das ideias, Tiffany indica algo que não nos é novo. Há uma tendência para que o crescimento de um youtuber resulte na sua projeção para outros meios. Esta passagem pode ser uma realização de um sonho ou uma mera sorte sujeita a um maior rendimento.

Fonte: YouTube

 O vídeo da youtuber confirma o argumento anteriormente expresso: a geração recente de famosos nem sempre tem como auge pessoal a sua plataforma inicial, mas usá-la como meio para alcançar novos terrenos sem, na maior parte dos casos, possuir qualquer especialização. Por muito banal que esta tendência pareça ser, o aparecimento destes indivíduos em meios como a televisão ou a rádio provocam uma maior abertura para não só conteúdo de menor qualificação, como também um incentivo ao abandono superior e respetivas especializações. É um cenário que não tem um culpado específico.

Como em qualquer arte, haverá artistas reconhecidos e merecedores e outros apenas reconhecidos. A arte de ser famoso é capaz de ser oportuna apenas ao último caso. Os mecenas – produtoras, televisão e respetivos media – optam cada vez mais pelo reconhecimento dos intervenientes a favor de uma maior visibilidade e de mais audiências. É raro encontrarmos um influencer a apresentar um programa ou a lançar música por mérito próprio ou esforço. Isto não é um ataque à nova geração de celebridades, mas uma declaração tão simples quanto: não se pode esperar conteúdo formidável se os intervenientes não são especializados ou não estão aptos para o realizar. Se se quer dar total relevância à cara, não se pode esperar a outra face intelectual com a mesma dimensão. As “caras bonitas” fazem, também, conteúdo não superficial, se trabalharem e praticarem para tal. As aparência e notoriedade, em vez de serem um extra, passam a ser o centro dos recursos humanos nestes casos.

O erro está em achar que falar para uma câmara no nosso quarto ou para eventos publicitários é igualitário a anunciar em horário nobre na rádio ou na televisão. A arte de ser famoso tem como cliente final o empobrecimento imediato da cultura de massas. Este artifício tem um lado positivo: é posta em prática a retirada de famosos credíveis que não querem expôr a vida privada ou participar em conteúdos com que não se identificam. No seu lugar, socialites e influencers ocupam o trabalho pobre de diariamente projetar conteúdo para as massas consumirem, sem qualquer receio de haver um abuso por entre os intervenientes da relação estabelecida; porque, de facto, estes indivíduos escolheram e têm o prazer de se expor à sociedade, contrariamente à maioria dos artistas que observa a sua exposição pessoal como uma consequência negativa da sua notoriedade. Além disso, as gerações de produtores de conteúdo ocupam lugar nos serviços de menor qualidade. Este pormenor poderia fazer-nos acreditar que colocaria cada indivíduo profissional e menos profissional no seu respetivo pedestal. Isto é: os profissionais relevantes que fossem especializados na área e bem-sucedidos permaneceriam na concretização de produtos de melhor qualidade que coincidissem com o seu mérito e esforço e os youtubers e respetivas réplicas apoderar-se-iam dos conteúdos de menor esforço e de menor cariz intelectual ou artístico.

No entanto, a precariedade e o crescente abandono da cultura e de produtos de autor põem em causa esta utopia. O conteúdo que corresponde à qualidade menor dos youtubers é, na verdade, o que dá mais rendimento, precisamente por ser o que tem mais adesão do público. E um pormenor que muitos parecem esquecer é o de que os artistas não vivem do ar que todos respiramos. Se o foco for a televisão ou o cinema, veremos que as duas áreas se fundem em prol da sobrevivência do artista. Já nos é habitual ver um ator tanto representar como protagonista num filme de autor, como também fazer de vilão numa mera novela com mais de cem episódios. As novelas não têm mais adesão por terem mais de uma centena de capítulos, mas o oposto – como há tanta audiência, o conteúdo é estendido e espremido de forma a conquistar o maior alcance possível. Todos ganham nesse cenário: as produtoras, as distribuidoras, a equipa envolvida; menos o espetador, que, infelizmente, se sujeita a absorver repetidamente conteúdo que foi meramente pensado para obter audiências.

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Fonte da imagem: KLGadgetGuy

Não é totalmente aceitável que youtubers e novas celebridades se estendam por outras plataformas credíveis que não o YouTube, pois estaremos mais propensos a ver profissionais que frequentaram o conservatório e que despenderam tempo para alcançarem o seu patamar a, mesmo assim, terem de se sujeitar a fazer conteúdo sustentável; a ver a sua área de incidência ser invadida. Não me admiro que Lili Caneças já tenha participado em alguma novela ou em qualquer outro programa de horário nobre. O facto de as revistas terem perdido projeção em prol de reality shows e de redes sociais levaria a que a socialite tivesse ainda mais sucesso, caso a sua aparição se desse nos dias de hoje.

A exposição, ao ser mais fácil, levará a que também o sucesso seja imediato e a que haja maior número de caras a serem reconhecidas. Não acredito que seja de interesse geral especular ou dar relevância em demasia a conteúdos que espelham algo tão comum como é existir. No entanto, talvez seja de interesse acusar elementos reais semelhantes a Pisanello de serem elevados a uma exposição não meritória. Numa utopia, o destaque poderia ser utilizado de forma repensada em que cada profissional não só poderia pôr em prática os seus anos de conhecimento, como também enriquecer a grelha cultural da sociedade. No entanto, receio que ainda muitos de nós não estejamos prontos a abandonar os pseudo artistas da fama, infelizmente. E, como tal, é preciso continuar a abordar o assunto da forma mais adequada e menos pessimista de momento: ridicularizando-a.

Fonte da imagem de destaque: guidatv.sky.it

Artigo revisto por Andreia Custódio

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Estuda audiovisuais, no entanto sempre teve necessidade de se comunicar através da escrita. Foi no secundário que começou por incentivo dos professores a desenvolver críticas e a escrever poesia. Agora, tem como principal interesse o Cinema, onde tenciona dedicar-se, futuramente. Outro fator importante para si é também a análise e crítica de assuntos sociais que lhe parecem exigir maior atenção.

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