Opinião

Debater sobre a democracia? Preferimos debater em anarquia

*Artigo redigido para a Edição Especial de janeiro– “Sufrágio Contemporâneo”

Foi há 45 anos que se deu a grande estreia dos debates políticos em Portugal. A 6 de novembro de 1975, o confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal foi emitido pela RTP1 e, durante cerca de quatro horas, falou-se sobre temas como a configuração do sistema político a instaurar em Portugal, o papel dos militares e a liberdade de imprensa.

Em 2021, os debates políticos não desapareceram, mas há quem diga que o seu interesse tenha desaparecido. Perante a época atípica em que vivemos, a pré-campanha eleitoral foi cancelada, o que levou a que os debates presidenciais detivessem um compromisso ainda maior no que toca à passagem de algum conhecimento político aos eleitores. Ora, após ter assistido à maioria dos debates, não senti que houvesse qualquer informação minimamente relevante que tivesse ficado na minha massa cinzenta e olhem que eu até me considero uma pessoa que sabe estar atenta e que consegue captar aquilo que é essencial numa conversa. Se é que aquilo a que eu assisti possa ser denominado dessa forma.

Esta pequena reflexão fez-me pensar: se eu, uma pessoa que, felizmente, tem acesso à educação e a informação credível, não consegui manter o interesse no acompanhamento dos debates, o que dirão as pessoas com a idade dos meus avós, por exemplo? O que dirão as pessoas que não têm acesso a informação fidedigna e cuja única forma de o terem seria através destes debates políticos? Pois, provavelmente estavam na mesma situação que eu – confusos e sem saber em quem votar.

Para os mais desatentos, proponho que recuemos um pouco para percebermos quais foram os pontos negativos e positivos (existiram?) dos debates entre os candidatos às eleições presidenciais de 2021.

Como é do conhecimento de todos, tivemos sete candidatos às presidenciais portuguesas – houve muito por onde escolher, certo? No entanto, apenas seis foram convidados a estar frente a frente nos debates organizados pelos canais de televisão RTP, SIC e TVI. O candidato Vitorino Silva ganhou a medalha de “excluído do grupo”, mesmo depois de ter entregado as assinaturas necessárias para se candidatar. O motivo? Só estariam presentes nos debates os candidatos que, de uma forma ou de outra, tivessem alguma espécie de correspondência com os partidos parlamentares. No entanto, num gesto quase de solidariedade, o Porto Canal propôs uma ronda de debates com «Tino de Rans», que acabou por ser proibida pela Entidade Reguladora da Comunicação, por considerar que o «princípio de igualdade de tratamento e não discriminação» ficaria comprometido. A RTP acabou também por anunciar o alargamento da grelha dos debates televisivos e assumiu o compromisso de incluir Vitorino Silva nos frente-a-frente. Não sei quanto a vocês, mas senti aqui um ligeiro preconceito e a tal discriminação que tanto repudiaram.

Quem atacou quem: a noite do bullying presidencial – Observador
Fonte da imagem: Observador

Para começar bem o ano, no dia 2 de janeiro, tivemos o prazer de ver uma conversa peculiar entre os candidatos João Ferreira e André Ventura. A nível de debate assistimos a muito pouco, mas, quando comparado a uma gala do Big Brother, atrevo-me a dizer que levou a medalha de ouro. Entre gritos, interrupções, acusações e outras coisas agradáveis aos nossos ouvidos, até a moderadora do debate, Carla Moita, se viu numa «roda livre».

Já o candidato Vitorino Silva quis aproveitar ao máximo a oportunidade que lhe deram e trouxe pedras para construir um raciocínio lógico no debate com André Ventura. Falhou redondamente. No entanto, foi um momento bonito vê-lo trazer «pedras de várias cores, apanhadas numa praia muito linda».

Seguiu-se o debate de que mais gostei. Eu e a maioria dos portugueses, ou não fosse o confronto entre o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o candidato André Ventura o mais visto de todos, com 36% de audiência. Para variar um pouco, o debate começou por se centrar nos erros cometidos pelo atual presidente. Se estavam à espera de saber aquilo que estes dois candidatos defendem, pois… Fica para a próxima. Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa teimava em dizer que ambos representavam «direitas diferentes», o presidente do Chega preferiu mostrar o álbum de fotografias que arranjou para denegrir a imagem do adversário. Como um debate a dois lhes pareceu pouco, foram ainda chamados à conversa João Paulo II e Francisco Sá Carneiro. Para terminar em grande, Marcelo frisou que não se deixa manipular por ninguém e acusou André Ventura de utilizar «outro tom» em Belém. Talvez uns decibéis mais abaixo, não?

            Conhecem o famoso jogo do «descubra as diferenças»? O debate entre João Ferreira e Marisa Matias retirou daí a inspiração. Como, em Portugal, vivemos no 8 ou no 80, enquanto que na maioria dos confrontos o lema era «concordar em discordar», aqui o complicado foi arranjar pontos de discórdia entre os candidatos. Foi a primeira vez, nestes frente-a-frente, que se falou de questões ambientais e os portugueses puderam assistir a um verdadeiro debate de ideias, onde de nada servia «cavar diferenças» onde elas não existiam.

            O confronto entre Tiago Mayan e André Ventura não fugiu à regra dos insultos e das acusações. Assistimos àquilo a que já estávamos habituados: o candidato do partido Iniciativa Liberal insultou o adversário com as palavras de sempre – «racista, xenófobo, troca-tintas» – e André Ventura frisou o seu discurso de sempre – «Não vou ser o Presidente de todos os portugueses, nem dos pedófilos, dos que vivem à conta do estado, dos ciganos (…)» – enfim, mais do mesmo, portanto.

            Já o debate entre o presidente do Chega e a «candidata cigana», como carinhosamente trata Ana Gomes, foi o «copy + paste» do confronto com Marcelo Rebelo de Sousa – insultos, prints, acusações… Foi aqui que comecei a achar que faltava uma boa dose de criatividade aos nossos candidatos e parei de assistir aos debates.

            Após esta compilação dos momentos mais «interessantes» dos debates políticos a que pudemos assistir nos últimos dias, apercebo-me de que mais valia ter estado a estudar, a ler um livro, a fazer um bolo ou até mesmo a dormir.

Foram quase 13 milhões de telespectadores que assistiram aos frente-a-frente nos diversos canais de televisão. Se 1/3 deste número conseguiu entender alguma coisa daquilo que os sete candidatos defendiam ou pretendiam fazer se fossem eleitos presidentes é, sem dúvida, uma vitória. A verdade é que aquilo que eu senti ao acompanhar os primeiros confrontos foi que nenhum dos presentes estava minimamente preparado para ali estar ou para passar informação do interesse de todos. O objetivo que motivou a maioria foi passar por cima uns dos outros, interromperem-se, desrespeitarem quem os assistia e quem lhes deu a oportunidade de ali estarem.

Quando a taxa de abstenção ultrapassa os 50% na escolha de um presidente; quando a maioria dos jovens com mais de 18 anos não vai votar; quando surgem problemas como a legitimidade democrática num país que «deixou» a ditadura há 47 anos, não podemos dizer que se trata apenas de «falta de interesse» ou de «preguiça em ir votar». Temos também de salientar a falta de informação que existe, a desigualdade que predomina em obter conhecimento político, a falta de interesse por parte da educação em ensinar os mais jovens e tantas outras coisas que estão mal. No entanto, é mais fácil fechar os olhos e clamar a falta de interesse em obter a informação do que fazer diferente e, efetivamente, informar os mal-informados.

Fonte da imagem de destaque: RTP

 Artigo revisto por Rita Asseiceiro

Margarida Rodrigues

Com quase duas décadas de vida, aqui vos apresento a rapariga mais extrovertida que possam vir a conhecer. Nascida e criada na margem sul, sítio onde são feitos os sonhos, garante que tem uma mão cheia deles. Foi na área da comunicação que encontrou o melhor que a vida lhe podia oferecer – a oportunidade de conhecer histórias e de contá-las a quem mais as deseja ouvir. Prazer, chamo-me Margarida.

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