Literatura

Haruki Murakami: 1Q84

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No verão de 2013, tive um love affair com Sputnik, meu Amor. Foi uma coisa curta, de dois dias, e que terminou com um virar de página. Curta mas memorável. Este Outono, contudo, o cenário foi diferente. 1Q84 tomou-me mais tempo, mais noites (de sono?) e mais pensamento. Cativou-me de forma ainda mais profunda. Ligou-me a Haruki Murakami.

As três extensas partes do romance roubaram-me ao mundo. Não importava o que acontecia, todos os dias me queria envolver nelas. ‘É só um capítulo’, começava por dizer, até que Aomame e Tengo me arrastavam por horas nas cativantes páginas. Vivi o seu romance como se fosse meu, quis acompanhá-lo e descodificá-lo. Não é bom quando isto acontece?, quando um livro nos cativa desta forma tão incontornável?

Não queria outra a não ser a seguinte. Quando acabava uma, queria a próxima. Mas era um querer de paixão, sempre desejoso por mais e tão boa continuação. Página após página, Parte III após Parte II, que, por sua vez, se seguia à I; quis mais sem no entanto me querer ver livre delas como um todo. Dia após dia, ia sabendo mais. Ia desejando conhecer o Povo Pequeno, ver Fuka-Eri e juntar Aomame a Tengo. Queria estar dentro do romance. Queria vivê-lo.

Vivi a descida de escadas no meio de uma auto-estrada como se de uma cena real se tratasse. Também eu vi duas luas e estive em 1Q84. Estive lá, sei-o. Vi Aomame movimentar-se ao longo da história, enquanto a Cidade dos Gatos ganhava forma; vi o assassínio, a fuga. Senti o medo. Tive medo.

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Em 1Q84 acontece de tudo. Mas, mais do que isso, vive-se tudo. O que Haruki faz é invejável. Coloca-nos dentro da história, do seu mundo, sem nos fazer levantar. Transporta-nos para um outro universo, um universo paralelo, onde passamos a fazer parte de tudo. Queremos acompanhar as personagens, viver o que vivem, queremos falar-lhes.

Não há prémio que valha tanto quanto a capacidade de captar um leitor a uma série de páginas. Digam o que disserem, não há. E Haruki sabe-o e por isso nos atrai tão bem. Da primeira à última página, nem por uma única vez desejei querer parar de conhecer. Ah, como é belo quando isto acontece.

Ushikawa fez-me temer o pior. Sofri por Aomame, sofri por Tengo. Mas, acima de tudo, vivi com Murakami. Se não está nas prateleiras lá de casa, algo está errado. É um livro a possuir e a ler, para ontem. Quando a lua estiver bem visível.

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