Haverá sempre espaço para ele


Poster do filme, fonte: RTP

A melhor maneira de preservar a memória de João Cesar Monteiro é ver os seus filmes. Nenhum é mais Português do que “Recordações da Casa Amarela”, peça essencial do cinema Europeu do século XX.

João Cesar Monteiro (1939-2003) foi sempre visto por parte do grande público como um marginal, inadequado ao mainstream. Já nos anos de 1960, como crítico de cinema, era conhecido pela sua ironia muitas vezes incompreendida, mas sempre desafiante, mesmo em época de censura. Na década seguinte, Cesar Monteiro seria um dos grandes impulsionadores da chamada “antropologia visual” no cinema, iniciada por Manuel de Oliveira e explorada por ele em filmes como “Veredas”, de 1978, e “Silvestre”, de 1981. “Recordações da Casa Amarela”, de 1989, é um outro exemplo dessa exploração visual.

A história é a de João de Deus, “alter ego” do realizador. Em Lisboa, no final da década de 1980, João de Deus vive num quarto de uma pensão barata e familiar na zona velha e ribeirinha da cidade. Um dia, na sequência de uma tentativa de violação, João de Deus é posto na rua. Privado de quaisquer recursos, Deus vê-se confrontado com a dureza da vida urbana. Cambaleia pelas ruas como o “Nosferatu” de Murnau, assombroso e cavernoso. É internado num hospício, de onde sairá como um homem livre, empenhando-se numa missão que lhe é sugerida por um velho amigo, doente mental, interpretado por Luís Miguel Cintra.

No filme cabem vários “Joãos de Deus”: O João de Deus satírico, O João de Deus carnal, o João de Deus mesquinho, cruel, mas capaz de mostrar compaixão, ou ainda o João de Deus que compreende pobres e ricos; Como se de um homem chamado “Deus” não se pudesse esperar outra coisa que não uma mistura de várias coisas. A dimensão individual de Cesar Monteiro não retira importância aos restantes intervenientes, que são apresentados como “frescos” da cultura popular portuguesa.  

Ninguém escreve como Cesar Monteiro. Os seus diálogos são de uma simplicidade tocante, uma das mais bonitas demonstrações do uso da Língua Portuguesa: como aquando da visita de João de Deus ao médico ou ainda na cena em que os habitantes da rua onde se situa a pensão falam uns dos outros. Margarida Gil, companheira de César Monteiro e também ela realizadora, diria, mais tarde, que aquela cena era um retrato real da vizinhança do casal. As camadas populares são as que habitam os bairros de Lisboa. Veríamos isso em “Ossos”, de Pedro Costa, com a representação do abismo fantasmagórico das Fontainhas, ou ainda, mais recentemente, em “Sangue do meu Sangue”, de João Canijo, ambos influenciados pela caracterização do “bairro” feita por Cesar Monteiro. A rua é, normalmente, palco da linguagem grosseira, característica das classes sociais mais pobres, e vem acompanhada de provérbios populares que João de Deus usa à sua maneira: “A vida são dois dias apesar da duração”; “Cada um sabe de si, deus sabe de todos” ou “As aparências desiludem”.

Luís Miguel Cintra (esquerda) e João Cesar Monteiro (direita), fonte: Sapo blogs

Um filme imponente, com os seus elegantíssimos enquadramentos, as suas fabulosas composições e o movimento interno dos planos; uma verdadeira aula de cinema que vai do expressionismo alemão ao neorrealismo italiano. Explora os costumes portugueses, mas nunca deixa de os inquietar.

“Recordações da Casa Amarela” é um dos grandes filmes portugueses da História e uma peça detalhada que marca todo o cinema europeu.  É uma lição, de teatro, de literatura, sem nunca deixar de ser cinema. Mais tarde, com a “Comédia de Deus” e as “Bodas de Deus”, César Monteiro completaria a trilogia do seu “alter ego”, João de Deus, consagrando o seu nome, apar de Manuel de Oliveira e João Canijo, como um dos mais visionários realizadores portugueses de sempre.

Revisto por Ana Roquete

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