7ª Arte,  Secções

Homem Irracional

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Estreou no festival de Cannes mas não entrou na competição pois Woody Allen, o escritor/realizador, recusou. Juntem Filosofia com um homicídio, drama e uma pitada de humor, uma boa estética e um elenco bom e aí têm as bases deste filme.

Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é professor de Filosofia e não tem vontade de viver. Chega a uma pequena universidade numa pequena cidade americana onde desde logo ganhamos uma ideia de quem é ele, uma vez que os alunos e o corpo docente comentam a sua chegada, especulando acerca dele e eventualmente romantizando um pouco do seu passado.

Jill Pollard (Emma Stone) é uma aluna dele, também o romantiza e ao longo do filme vai desenvolvendo uma relação cada vez mais íntima com a personangem. Conseguimos entretanto perceber que a sua personalidade é o oposto da de Abe. Ela é a vitalidade em pessoa, empenhada, cheia de energia, de curiosidade, de simpatia. Já ele é um passivo na sua própria vida, embalado na sua rotina e esperando pela morte. Durante o filme é dito algo acerca de como Abe passa a sua vida a romantizar a morte enquanto Jill passa a sua vida romantizando a mesma. Eu não podia estar mais de acordo.

A princípio, quem aproveita esta passividade de Abe é Rita Richards (Parker Posey), que se “impõe” a ele. A ideia que ficou comigo é que Jill poderia vir a tornar-se numa Rita: uma mulher inteligente, curiosa, que se encontra em decadência por se encontrar presa a uma vida indesejada da qual não se consegue libertar sozinha.

A verdade é que ambas criaram fantasias em redor de Abe Lucas: para Rita ele seria a sua oportunidade de se libertar de uma vida infeliz; Jill desenvolve uma fantasia romântica em que o salva da depressão e autodestruição e se torna a sua musa a nível intelectual e erótico.

Entretanto, Jill acaba mesmo por o salvar. É ela que lhe oferece, inadvertidamente, o ponto de viragem que dá sentido à vida de Abe. Num restaurante, ela chama-lhe a atenção para uma conversa onde se discute o abuso de poder de um Juiz num caso de poder parental. E é nesse momento que o professor decide tomar uma atitude e matar o Juiz.

O filme podia ser dividido em duas partes: uma primeira onde Abe carrega o peso da sua existência despromovida de sentido e uma segunda que começa no momento em que decide matar o Juiz e se liberta desse peso, passando efectivamente a viver e inclusive permitindo que a sua relação com Jill passe de platónica.

É interessante perceber que de uma fase para a outra o peso não desaparece, muda apenas de forma e portador. Jill descobre o que Abe fez e as suas fantasias acerca dele morrem perante as suas crenças morais. Já Abe aceita o que fez sem remorsos e cria todo um raciocínio para justificar o que fez, promovido de um sentido de justiça (vazio). Jill afasta-se dele, vive com a culpa de não denunciar o homem que ama e perde muita da vitalidade que a caracteriza. Quando a certa altura um inocente é preso pelo crime, Jill lança um ultimato: ou ele se confessa às autoridades ou ela denuncia-o. Abe Lucas decide ignorar a moral e entrega-se à maldade. Não vou avançar com o fim do filme, prefiro fazer perdurar o mistério até que o vejam!

Devem ver não só pelo final, mas também pela estética fascinante e característica e pela história que assume um tom leviano, o que faz com que deixe de ser um drama e tornando-se mais num híbrido curioso entre um drama e uma comédia.

E, por fim, por uma das razões mais importantes: o elenco. Parker Posey rouba qualquer cena com o carisma que entrega a Rita Richards; Joaquin Phoenix não cai de cabeça na angústia característica de Woody Allen, o que o torna mais credível e cativante, e, por último, a encantadora Emma Stone afirma-se como a nova musa do realizador e faz de Jill Pollard a consciência e vitalidade do filme.

A crítica divide-se entre quem gosta e quem considera o pior trabalho de Woody Allen. Eu tendo a ficar mais do lado de quem realmente o aprecia e considero que embora possa não ser o melhor filme de Allen, não deixa de ser um filme acima da média e bastante singular.

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Assumidamente despistada mas extremamente pontual, Sofia Fernandes é uma sportinguista fanática, com uma séria paixão por pizza e que por acaso adora a 7.ª arte!

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