Isolamento e Introspeção

Por Marília Lúcia

O niilismo é uma ferramenta filosófica de análise que rejeita qualquer noção de significado na vida. Um niilista existencial não se preocupa com a busca de um propósito: ele simplesmente vive, ouve e rejeita qualquer princípio religioso ou moral. No entanto, quando alguém desvaloriza os valores mais altos, o que resta? Nada.

Os filósofos abordam o assunto por meio de opiniões divergentes. Os pontos de vista de Karl Marx, pensador alemão do século XIX, e de Jean-Paul Sartre, escritor francês do século XX, são considerados otimistas, uma vez que a filosofia tem, em certa medida, o poder de mal interpretar o mundo espiritual.

As perspetivas filosóficas foram significativas durante o período de quarentena que surgiu face ao recente surto do Coronavírus. A pandemia obriga-nos a passar tempo sozinhos, isolados. Isso implica o abandono das regras sociais. Desde o amanhecer até o anoitecer, exercitamos momentos de introspeção e descobrimos quem realmente somos. Por essa razão, muitos regressaram aos seus interesses do passado. Anteriormente julgados como superados, tinham sido enterrados pela ideia de que crescer requer o desapego absoluto do passado. Em plena reflexão existencial, surge a famosa questão sobre o nosso propósito.

Como ele é vago, podemos supor que não há nenhum propósito para além de viver de acordo com a natureza humana. Os indivíduos que ainda não encontraram o seu propósito envolvem-se numa rotina e desperdiçam recursos. Eles não vivem, simplesmente existem. Ao contrário, aqueles que encontraram a sua motivação são capazes de criar o seu próprio significado. Eles vivem pelo que morreriam, seja uma pessoa ou uma paixão.

Para criar o nosso sentido, devemos enfrentar o nada, a possibilidade de que não haja um plano fixo nem um futuro predeterminado. Para alguns, essa consciência de que o futuro está nas suas mãos é um pensamento avassalador que leva à ansiedade. Quando o indivíduo dá conta de que é o criador de seu próprio destino, perde-se. Quando se perde, isola-se. Esse isolamento social conduz ao encontro consigo próprio.

Fonte: Oxsight News

Respeitar as medidas de contingência da pandemia do COVID-19 é uma excelente forma de praticar o autoconhecimento. Embora o processo seja doloroso, o resultado será essencial para o seu desenvolvimento. Como Slavoj Žižek, um filósofo moderno que critica o Utilitarismo, sugeriu, a felicidade pode não ser tão desejável quanto a doutrina presume. Na verdade, as pessoas estão dispostas a sofrer quando a consequência é positiva. A seguir à crise existencial, fluem num oceano de esperanças. No fundo, tempos de crise são tempos de oportunidades.

Por isso, Sartre declarou que o absurdo nos proporciona uma energia essencial. Se a existência precede a essência, criamos a nossa identidade por meio das decisões que tomamos e dos valores que adotamos, pois nenhum é inerente. O absurdo dá-nos a liberdade de agir e responsabiliza-nos por isso. Assim, o existencialista acredita que o ser humano constrói, ao longo do tempo, a sua própria personalidade.

São os momentos de reviravolta na nossa vida que nos permitem entrar num período de introspeção benéfica. São os momentos em que podemos parar para refletir, os momentos dominados pelo desejo do progresso pessoal, que dão valor ao nosso florescimento.

É o que acontece no primeiro filme de Harry Potter. O Chapéu Seletor não escolheu colocá-lo na casa da Grifinória, a personagem fictícia influenciou a decisão. Na verdade, quando ele confronta Dumbledore, Harry admite ter pedido explicitamente isso. Como disse o diretor da escola de magos: “São as nossas escolhas que mostram o que realmente somos, muito mais do que nossas habilidades”.

Fonte: Google Images

Algo que guia as nossas decisões de vida e influencia a nossa essência é a nossa vocação profissional. Na verdade, para algumas pessoas, o propósito está relacionado com um trabalho significativo e gratificante. Enquanto uns dão lugar ao teletrabalho, outros cuidam dos filhos e da casa. Uns estão satisfeitos com a sua profissão, outros engajam-se numa ocupação repetitiva que leva à alienação. Devido à deterioração da criatividade, interiorizaram a falta de sentido na sua vida.

Todavia, Marx defendeu a ideia de que as pessoas não se devem distrair com a noção abstrata de significado. A ciência simplifica-a para nós. Os mecanismos de evolução dão uma resposta clara ao problema. Entretanto, a filosofia tornou absurdo falar sobre o nosso propósito. Os humanos têm uma mente complexa, que é atraída por respostas. Como seres racionais e insatisfeitos, procuramos mais. Em vez de se contentar com o conhecimento factual, a nossa mente leva-nos até ao inexplicável. Será esta a maneira mais eficiente de chegar à verdade?

Na minha primeira aula de filosofia, o professor pediu-nos para abordar a disciplina académica com a mente aberta. “Eu só sei que nada sei” é um ditado de Sócrates que convida os alunos a esquecer o que eles presumem que sabem, a fim de alcançar a iluminação. Começar do zero. Criar algo do nada. Assim sendo, não devemos julgar os niilistas pelo seu vazio. A consciência do nada é o primeiro passo para a totalidade.

Afinal, os filósofos influenciaram a questão da nossa existência. O poder da introspecção não pode ser negligenciado porque nos guia até à filosofia e esta ensina-nos o que a ciência não pode. A arte de bem pensar ajuda-nos a tomar decisões éticas a respeito da nossa identidade.

Da mesma forma, as atividades de entretenimento promovem a evolução pessoal. Não nos devemos sentir culpados pela falta de produtividade durante a quarentena. A vida inclui picos e vales de energia. Um pico é uma empolgação e ninguém pode existir continuamente nesse estado. Aproveite o relaxamento. Conheça-se a si próprio. Se o isolamento é uma prisão, a saída é a introspeção porque, como Sartre disse, a liberdade é o que fazemos com o que nos é feito.

Artigo revisto por Inês Paraíba

Artigos recentes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *