Descobrir e desvendar António Lobo Antunes

Há largos meses, procurei entrevistar António Lobo Antunes (ALA). O primeiro contacto telefónico que fiz com o grupo editorial que representa o escritor não foi bem sucedido. ALA não se encontrava disponível naquele momento para dar qualquer entrevista, disseram-me, sem mais justificações. A resposta foi curta e grossa, o tom inflexível. Não desisti. Voltei a insistir. Arranjei novos contactos dentro do mesmo grupo e tentei, de novo, chegar até ele. Desta vez, a resposta foi bem mais simpática, mas acabou por ser a mesma: ALA encontrava-se, efetivamente, indisponível. Continuei sem conseguir a entrevista.

A oportunidade para entrevistar Lobo Antunes não voltou (ainda) a surgir. No entanto, hoje até consigo encontrar comparação entre os dois tipos de resposta que recebi por parte dos dois elementos do grupo editorial com tudo aquilo que o escritor nos transmite, tanto através da sua obra, como das entrevistas que concede. ALA, com 78 anos celebrados a 1 de setembro, é dotado de uma sensibilidade crua – ou será de uma crueza sensível? É autor de algumas frases polémicas, ditas em entrevista – ou será que apenas tem a coragem de dizer aquilo que grande parte das pessoas pensa e não diz?

É brutalmente honesto e sem papas na língua. A sua prosa é, na maioria das vezes, difícil e exige-nos a nós, leitores, uma leitura atenta e paciente. Até eu, confesso, já desisti de ler um ou outro livro. Mas é impossível não voltar a pegar, mais cedo ou mais tarde, nas suas obras e procurar retomar a leitura. Há qualquer coisa, um je ne sais quois no seu génio literário que não me permite desistir, mesmo quando penso ter-me cansado. Mudei de ideias. Afinal, penso saber do que se trata: é a concentração que nos exige e que insistimos em alcançar, a pontuação rebelde e sem regra (sem podermos ousar, em momento algum, compará-lo a Saramago), o realismo da narrativa, as idas e vindas no espaço temporal que se entrelaçam e que quase se confundem. É tudo isso. Ao mesmo tempo.

Em 2018, em entrevista ao Diário de Notícias, ALA, com a honestidade descarada que tanto o caracteriza, disse: “Quero que o Nobel se fod*”. É um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo, mas a Academia Sueca nunca lhe atribuiu o galardão. Apesar disso, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considera que Lobo Antunes não precisa do Nobel da Literatura, por “estar acima” do mesmo – opinião partilhada por muitos dos seus admiradores.

A verdade é que, ao longo da sua carreira como escritor (não nos podemos esquecer de que trocou a Psiquiatria por amor à Literatura) foi, muitas vezes, reconhecido e galardoado, a nível nacional e internacional, entre prémios, condecorações, doutoramentos Honoris Causa, colóquios em sua homenagem e outras distinções igualmente notáveis. Ainda em relação ao Nobel, serviu-lhe como consolação a recente integração da sua obra completa, no ano de 2018, na prestigiada coleção francesa da Biblioteca La Pléiade, pertencente à editora Gallimard, tendo ALA sido o segundo autor português a receber este reconhecimento, depois de Fernando Pessoa – que também já foi alvo das suas críticas, durante uma entrevista ao jornal espanhol El País, em 2015: “Pergunto-me se um homem que nunca fod** pode ser um bom escritor”.

Fotografia de Inês Sousa Martins
Lobo Antunes conta com 41 anos de carreira literária e uma vasta bibliografia.

Lobo Antunes já nos habituou, e bem, à sua escrita disruptiva, ousada, meio cómica, meio grotesca, de cunho irónico, crítico e também trágico. Evoca-nos facilmente para uma leitura quase cinematográfica, dando-nos o privilégio de mergulhar na narrativa e transportando-nos para o cenário que descreve tão vivamente, como se o estivéssemos a observar através dos seus olhos azuis. Nas célebres Crónicas da revista Visão – publicadas paralelamente aos romances e que findaram em 2019, ao fim de 19 anos de vínculo, depois de Lobo Antunes se ter zangado com a Direção -, o autor mostra-se mais intimista e sensível, fazendo inclusive confidências aos seus leitores. Damos por nós a ouvir atentamente ALA nas suas Crónicas, onde nos conta as suas vivências, permitindo-nos, de certa forma, entrarmos no seu mundo. Fala de acontecimentos caricatos e inesperados com um humor provocador. Mas também de perda, de dor, de morte, da Guerra. Fala sobre tudo e sobre nada. Escreve sobre a Vida. A sua. Sobre a maneira como a perceciona. Descobrimos António Lobo Antunes nas entrelinhas dos seus textos.

A obra do autor é vastíssima e, por essa razão, eis algumas sugestões para iniciantes ao mundo literário de ALA, para que possam começar a habituar-se à sua escrita rebelde:

Memória de Elefante & Os Cus de Judas, os dois primeiros livros do autor, de vincado cunho autobiográfico, publicados no ano de 1979;

– Os livros de Crónicas, cinco no total, editados ao longo da sua carreira literária, cuja leitura é mais fluida que aquela que vemos nos seus romances;

D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto: Cartas da Guerra, uma compilação da correspondência que ALA trocou com a sua mulher, Maria José, enquanto serviu de médico alferes durante a Guerra Colonial, em Angola. As suas filhas, Joana e Maria José Lobo Antunes, reuniram estas cartas em livro, após vontade expressa da sua mãe, que lhes disse que as poderiam ler e publicar depois da sua morte. Maria José, a primeira mulher de ALA, de quem, entretanto, se divorciara, faleceu em 1999. A escrita destas cartas é dotada de enorme sensibilidade, em que o autor se revela, como nunca antes, numa tonalidade próxima das suas Crónicas. O livro foi publicado em 2005, tendo sido, posteriormente, adaptado para o cinema, no ano de 2016. No ano seguinte, Lobo Antunes afirmou ao Expresso que não queria ver o filme Cartas da Guerra, porque se iria emocionar.

É o efeito de se sentir demais, de escrever demais. Sempre à mão, no papel, como ALA tanto gosta e prefere. Em quarenta e um anos de vida literária, quase tantos quanto o número de livros publicados (trinta e seis títulos), continuamos a descobrir e a redescobrir António Lobo Antunes. Nunca temos verdadeiramente a certeza de onde acaba o Homem e começa a Obra. Muito provavelmente, porque o Homem é a Obra e a Obra é o Homem.

Imparável, o escritor publicou, no passado dia 13 de outubro, através da Editora D. Quixote, o novo e muito aguardado livro Diccionario da Linguagem das Flores.

Então e o Nobel?

O Nobel que se fod*.

Fonte: Wook
António Lobo Antunes

Fonte da imagem de capa: Expresso

Artigo escrito por Inês Sousa Martins

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais

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