Opinião

Mato, porque não acredito

Já numa fase terminal da sua vida, Christopher Hitchens, escritor inglês, debateu com Tony Blair, antigo primeiro-ministro britânico, sobre a temática “Será a religião uma força positiva no mundo?”. Abrindo o debate com o tom irónico que a sua escrita tão bem conserva, o ateu Hitchens expõe claramente o que está de errado nas doutrinas religiosas que enveredam pelo caminho do pecado, pelo “pau” do inferno e pela “cenoura” do paraíso: “Ao assumirmos a criação e um plano divino, isto faz de nós, humanos, objectos numa cruel experiência científica, em que nascemos doentes e somos ordenados a ficar saudáveis, sob pena de arder para sempre. E acima de nós, para supervisionar este processo, é instaurada uma ditadura celestial… Uma espécie de Coreia-do-Norte divina.”.

É esta a doutrina do inferno. Tortura eterna. Castigo infinito por pecado finito é uma atrocidade desequilibrada – é a verdadeira antítese da definição de justiça. Atrevo-me a dizer que nem os maiores genocidas da história, nem os mais nojentos pecadores merecem castigo tão obtuso. Ninguém.

Proponho-te o seguinte desafio: nomeia uma actividade benéfica que um crente possa fazer e que um ateu não possa. Terás muita dificuldade em encontrar tal exemplo. No entanto, se eu reverter a pergunta, dezenas de exemplos jorram à la romantismo: nomeia uma actividade maléfica feita em nome de uma determinada religião. A lista é, de novo, potencialmente infinita. Desde a caça às bruxas da inquisição espanhola, até aos vôos suicidas dos radicais islâmicos, passando pelos cristãos radicais que colocam explosivos no interior de clínicas de aborto e pelas tribos de mutilação genital, e terminando a “carreira dos horrores” num inimaginável número de anos de subversão científica. É um buffet religioso.

No entanto, existe um ponto em que a religião cristã é benigna comparativamente à islâmica. No Islão, a apostasia é “curada” com pena de morte. Quem abandona a religião é preso, torturado e apedrejado em praça pública (similarmente a uma mulher arábica que cometa adultério).

É neste ponto que começa a formar-se uma horrível comichão na minha nuca: por que é que alguém se dá a este trabalho? Por que é que alguém assassina cartoonistas, mulheres ou descrentes? Por isto quero dizer que, se vamos todos sofrer eternamente devido à nossa ofensa ao profeta, por que é que os fiéis estão a “antecipar trabalho”? Mesmo lidando com pessoas absolutamente irracionais, este comportamento não faz sentido.

Só existe uma resposta: eles não acreditam. Não acreditam em coisa nenhuma. Se tivessem tal grau de fé, deixavam Alá tratar disto. Deixavam o ser omnipotente destruir-nos completamente até que não sobrasse um único átomo daquilo a que poderíamos chamar “nós”. Ofensivo, para o profeta, deveria ser ver os seus crentes a fazer aquele que deveria ser o seu trabalho.

Aqui aplica-se um conselho que quase todos recebemos, seja pessoalmente, ou por filme: não tenhamos medo, porque os bullys são as pessoas mais inseguras.

CRÓNICA - Eu mato, porque não acredito - João Carrilho (corpo do artigo)

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