Milhares de palavras de ódio e dezenas de amor

Na escola, todos nós aprendemos que o distrito de Lisboa se estende a um largo número de concelhos, uns mais longe do que os outros, mas todos inseridos no distrito de Lisboa, na zona litoral. Esta zona é sempre mencionada pelo seu desenvolvimento e abundância de serviços.

Talvez as pesquisas se tenham esquecido, amavelmente, do Concelho de Sobral de Monte Agraço. A pouco mais de 40 kms do centro de Lisboa e com um conjunto de estradas que já viram melhores dias, sem luz nem separadores, com curvas que se repetem interminavelmente, correndo ainda o risco de dividir a estrada com um camião de longo comprimento, no topo da montanha, surge finalmente a cidade.

Chegar a Sobral de Monte Agraço não é uma jornada fácil, mas as pessoas precisam de trabalhar e/ou estudar, então os movimentos pendulares entre a localidade e o centro da capital são constantes.

Mas o problema não morre na altura em que chegamos, apenas começa.

Faz este mês um ano que eu e a minha família dissemos adeus à bela e fabulosa localidade de Alcântara e nos mudámos para o oeste lisboeta. E digo desde já, passar de uma freguesia no centro de Lisboa para uma freguesia no desconhecido de Lisboa é uma experiência e tanto.

Comecemos pelos transportes. Todos sabemos que é um terror em tudo o que é lugar, mas os transportes da Boa Viagem Sobral estão cá para ganhar o primeiro lugar! Num dia útil e em época escolar, saem não mais nem menos do que dezassete autocarros da estação do Sobral para Lisboa, sendo ainda necessário informar que dez desses autocarros vão a Nárnia antes de conseguirem sequer chegar ao destino, atrasados de tal maneira que nem se sabe qual se está a apanhar. É o das três horas? Ou o das cinco? Nem os próprios motoristas sabem! Mal parece que Lisboa está a uma distância de 35 minutos. Mas lá nos aguentamos, no meio de bancos estragados, buracos no teto do autocarro e água que cai do além.

A ginástica que é feita para conseguir sair do Sobral merecia no mínimo uma medalha de bronze, mas nem sempre o corpo permite fazer ginástica e muitas vezes, precisamos de permissão de um médico para a poder fazer. A ironia do destino é que o hospital que abrange a região fica na região de  Loures, para a qual, num dia útil, há apenas dois autocarros. Tendo em conta que a Câmara não tem nenhum meio de transporte para quem precise de lá ir a uma consulta, os autocarros da Boa Viagem são o meio mais “seguro” para lá chegar. Nem parece que a pouco mais de 20 minutos fica o Hospital de Torres Vedras, para o qual existe muitos mais autocarros, numa frequência quase lisboeta em hora de ponta.

Foto por Cátia Matos

Era bom que acabasse por aqui e que o esquecimento da necessidade de estradas em bom estado, de transportes funcionais e de prestação de serviços de saúde fosse o suficiente para acabar este texto. Mas não, há um ponto que falta e, aos meus olhos, o ponto mais crítico: as pessoas.

Os sobralenses tem a sua própria maneira de ser. São uma mistura peculiar de lisboeta com alentejano do interior (sem querer ofender nenhuma das partes) que se entendem muito bem entre eles mesmos. Está tudo bem com o facto dos correios não fazerem metade dos serviços que deviam fazer e ainda melhor com o bloqueio da única avenida principal que permite acesso rápido a Lisboa para que treze pessoas possam andar a “rufrar” durante uma hora. É perfeitamente comum e compreensível. O que não está de todo correto é que nas festas do Sobral não haja carrinhos de choque, ou um carrossel, isso sim é incompreensível e é mesmo isso que vamos levar ao presidente da câmara como o nosso problema mais urgente e crítico.

Até ao Santo dia de hoje fico sempre chocada quando me lembro do que aconteceu no início das Festas de Sobral de Monte Agraço. No Natal foram colocadas colunas aqui e ali, que estavam constantemente a passar as mesmas músicas, e umas decorações quase tristes no jardim. No Ano Novo não houve nada a não ser um novo calendário. Tudo indicava que a cidade não era uma localidade dada a festividades, o que é totalmente compreensível. Quer dizer, o Natal é capitalismo puro e o Ano Novo alcoolismo puro. Compreensível.

Mas a minha teoria foi completamente refutada quando em finais de agosto eliminaram espaços no parqueamento da creche e o Palco de Sobral de Monte Agraço começou a erguer-se. Luzes foram postas na avenida, já fortemente iluminada, bandeiras hasteadas por um total de 20 metros de estrada e carrinhas de farturas começaram a encher as ruas. De repente, Sobral respirou, havia pessoas na rua, música e vida. A feira e as festas de Sobral de Monte Agraço tinham começado.

Inocentemente, eu tinha pensado que as luzes não eram colocadas nas estradas porque não havia dinheiro para isso, mas lá estavam as luzes a iluminar a avenida já iluminada. Todas as noites, mesmo quando a afluência de pessoas era menor, as luzes estavam ligadas. E o mais engraçado é que havia pessoas a saírem dos seus prédios, juntando-se alegremente à multidão na rua. Compravam farturas, riam, tiravam fotografias despreocupadamente, com uma leveza que me deixou desconfortável. Elas simplesmente não queriam saber dos problemas gritantes que existiam na localidade, do perigo que é conduzir à noite em Sobral (ou a qualquer hora do dia), do facto dos transportes serem uma desgraçada e ainda por cima pagar-se um preço exorbitante quando a Área Metropolitana de Lisboa fica a menos de 1 km. Não era suficiente para ser levado ao presidente da câmara, mas já a falta do carrossel nas festas do Sobral? Alguém que chame o Presidente Marcelo, isto é uma crise nacional!

É irónico e claramente hipócrita, mas como disse, eles entendem-se uns aos outros. Eu é que sou uma alfacinha totalmente fora do lugar no meio disto tudo.

Chegando ao final, acho injusto não realçar os Bombeiros Voluntários de Sobral de Monte Agraço, que sem dúvida são um dos melhores corpos de bombeiro que alguma vez vi. Prestáveis, profissionais e aos quais não tenho nada a dizer a não ser: obrigada pelo trabalho fantástico que fazem todos os dias. Assim como a GNR.

Com isto, só posso afirmar que mudarmo-nos para o Sobral não foi a melhor ideia. Mas foi a escolha que a inflação imobiliária nos obrigou a fazer. O bom disto é que pelo menos aprendemos alguma coisa.

Artigo revisto por: Ângela Cardoso

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