Opinião

Reler e Revisitar maio de 68

Para um estudante universitário de 20 anos de idade ter sido participante ativo nas revoltas de maio de 1968, em França, há de ter nascido algures em 1948, o que lhe confere a idade de 72 anos no dia de hoje, caso se encontre vivo.

Ao passo que um estudante universitário de hoje deverá ter nascido algures em 2000 para agora ter a idade do primeiro, aquando dos famosos e marcantes protestos.

Em que medida é que isto é significativo? No estranho sentimento que os estudantes de hoje me provocam. Os revoltosos de 68 insurgiram-se pela liberdade individual e pela libertação dos dogmas conservadores, sob o lema “é proibido proibir“.

Queiramos ou não, os estudantes são o laboratório do futuro, pelo que olhamos para eles com a esperança de que carreguem o futuro e o progresso dentro das suas cabeças. Os sistemas conhecidos do estudo da História, ou pelo menos os mais consensuais, apontam esta necessidade inevitável de renovação das mentalidades que os jovens, até aqui, sempre trouxeram.

Não confio em progressistas movidos pelo rancor. Não confio em progressistas movidos pela ânsia da vingança e da proibição. Talvez seja pedir demais a jovens na casa dos 20 anos que conheçam o que lhes antecede em termos cronológicos. Há, no jovem, uma assunção de absoluto que se perderá, inevitavelmente, ao longo da vida.

Se isolarmos, numa redoma, as causas pelas quais os estudantes lutam hoje, não podemos negar que existe efetivamente uma esperança de progresso. O problema é que as coisas mudam consoante os tempos, ao passo que o modelo de comportamento, ao fim e ao cabo, acaba por ser o que interessa, porque é esse modelo que permite o permanente progresso civilizacional.

Será absurdo, pouco ensaístico e frágil caracterizar os estudantes de hoje como conservador-progressistas ou puritano-progressistas. Não sei ainda como os definir, mas entendo-o com uma inquietação que não me cabe no corpo. Temo que a falsa assunção de absoluto e de fim da história nos possa levar, sim, aos progressos desejados como a igualdade racial, de género ou sustentabilidade ambiental, sem que se perceba que as causas vão e vêm e que, no fim, o que importa é essa coisa tão ininteligível que se chama democracia. Afinal, é ela que garante a liberdade de reclamar aos que hoje reclamam e aos que um dia hão de vir a reclamar. Não sei até que ponto posso observar com otimismo os estudantes de hoje que serão os donos do mundo de amanhã. Sei que concordo com a maioria deles, ao dia de hoje, nas suas lutas e causas. Sinto neles, porém, uma arrogância ideológica pronta a degolar os críticos fundamentados com a mesma prontidão que os críticos avençados ou os críticos do ódio desinformado – uma equivalência que me preocupa. Temo que essa arrogância, tão necessária para bater o pé ao passado, quando exacerbada, derive para uma verdade cristalizada, intocável e puritana – e, portanto, perigosa.

Creio que seja este puritanismo uma das capitais diferenças entre gerações. O advento da liberdade pela liberdade, a revolução sexual e o pacifismo foram substituídos por pequenos rancores e pequenas vinganças, para as quais o esgoto comunicacional das redes sociais muito tem contribuído com o coroar da cancel culture. Nesta predomina o espírito censor, a mesquinhez e a frustração. As consequências para a liberdade individual já se notam. 

Trago o exemplo do humor que muito se tem comentado. Atualmente, predomina a ideia de que é preferível não caricaturar ou não satirizar, com medo de que haja uma franja de imbecis que vão levar isso à letra. Está em curso um abaixamento do nível intelectual e civilizacional que certamente envergonharia os iconoclastas de 68. Fazer cedências na liberdade individual, de forma a não ofender os ignorantes, é um sintoma muito inquietante sobre os ideais da nova geração, que se sente perfeitamente confortável em cancelar posições divergentes. Aliás, não apenas posições divergentes, mas também simples piadas. Devido à tal inoperância intelectual decorrente do ensino desatualizado, é hoje comum achar-se, mesmo dentro de uma franja de jovens com formação académica avançada, que uma piada e uma declaração a sério, se o conteúdo for igual, são uma e a mesma coisa. Veremos onde nos levará esta tendência para a literalidade e para o biografismo – historicamente claros retrocessos.

Sei que o mundo verá estes progressos, independentemente de eu os poder presenciar ou não. E sei, com profundo pesar, que o espírito censor e proibicionista, apreciador de bolhas e de guetos, se há de virar um dia contra mim. E a democracia em liberdade de que Platão já nos andava a dizer maravilhas, algures num século que não me apetece verificar, ficará, mais uma vez, por cumprir. 

Por estranho que pareça aos jovens de hoje, há de haver um dia em que, espero, a igualdade de género ou a sustentabilidade ambiental serão dados adquiridos e novas causas surgirão como urgentes. É de um profundo egocentrismo achar que tudo ficará cumprido se as lutas de hoje tiverem êxito. E essa falácia do absoluto, incompatível com o exercício da plena liberdade de pensamento e de expressão, verbal, corporal e mesmo sexual, como defendia Herbert Marcuse, irromperá, tarde demais, no entendimento coletivo de uma geração, como, de resto, acontece habitualmente e com consequências difíceis de profetizar.

É urgente dizer que, antes de debater quem tem ou não razão, existe o alicerce do espírito puramente livre que se via na maioria dos jovens de 68 e que não vejo nos jovens de hoje. Podem dizer-me, claro, que em 68 houve a deriva revolucionária, inclusivamente uma deriva de pendor maoísta, descrente até do processo democrático (recordar a célebre frase “le vote ne change rien”). Vejo, ainda assim, duas coisas nessa geração que não vejo nesta: um nível intelectual e uma consciência política superior (devido a uma escolaridade mais rica e uma facilidade de independência financeira que não existe hoje), bem como um suporte de grandes intelectuais da época como Foucault, Beauvoir, Sartre. Intelectuais estes que hoje parecem desaparecidos, escondidos ou ambos.

Se é possível que esta minha visão resulte de um acesso cristalizado a 1968 e de um acesso em bruto a 2020? Seguramente. Só quero deixar claro que não se conte comigo para romantizar 68 e diabolizar 2020, exercício onde não vejo grande interesse. Esta discorrência não visa colocar os bons em contraponto aos maus, mas antes fazer uma revisitação histórica que nos permita a nós, jovens, recuperar os bons valores de 68, de forma a podermos replicá-los nas lutas que nos esperam – a liberdade sem pudores, a inércia pela paz, a depuração do puritanismo -, idealmente sem a violência e hostilização que tanto se condena nos nossos adversários.

Fonte: Website iG Gente

Há de chegar o dia em que cada um de nós, na utopia do exercício da livre consciência, não vai concordar com aquilo que parece óbvio à maioria e vai reivindicar o direito, no mínimo, à dignidade de existir, mesmo que em silêncio. Porque sim, eu posso não querer saber do futuro. Eu posso não querer saber de política. Eu posso não querer saber dos outros. Eu posso não ser empático ou sensível ao sofrimento. Desde que não obrigue ou proíba o outro, eu posso tudo o que eu quiser. Era este o espírito de 68.

Não é isso que se vê. O que se vê nos herdeiros de 68 é que lhes é absolutamente óbvio que têm razão e que esta ideia lhes valida a coação, o separatismo, o cancelamento do contraditório – em suma, a hegemonia da força em vez do reformismo. E não numa curta escala, como em 68. Desta feita, esta vaga proibicionista e populista parece afetar a franja mais larga da juventude contemporânea, perspetiva que creio que se valida no ambiente de puritanismo vigente.

Os jovens têm sempre razão. O problema é que o tempo faz com que os jovens de 68 sejam hoje os boomers. Haverá um dia em que os jovens de 2020 serão os boomers, os velhos rezingões e conservadores. Porque se esqueceram de que a base da luta de causas não são as causas, porque estas mudam, mas os alicerces que lhes dão corpo: a plena liberdade que só é conferida pela ciência e pela paz. Um fim, por muito bom que seja, não compensa se for atingido à custa de qualquer meio. Fins há muitos. Depois destes, outros existirão, enquanto houver jovens.

É proibido proibir. Sei, porém, que, algures no tempo e no espaço, este texto será proibido. O motivo da nossa razão deixa de interessar quando nos achamos no direito de silenciar quem se nos opõe. A falsa superioridade moral tem a vantagem de se revelar cruelmente quando exposta. Um dia seremos nós, os jovens de hoje, futuramente decrépitos, a não ter razão. Nessa altura, ler este texto será novamente permitido, mas inútil.

Escrito por João P. Mendes

Artigo revisto por Beatriz Campos

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Um indivíduo que o relembra, leitor, de que os livros e as opiniões são como o bolo-rei: têm a relevância que se lhe quiser dar. O seu maior talento é insistir em fazer coisas que não servem para nada: desde uma licenciatura em literatura luso-alemã, passando por poemas de qualidade mediana, rabiscos de táticas de futebol (um bizarro guilty pleasure) ou ensaios filosofico-autobiográficos, sem que tenha ainda percebido porque e para que o faz. Até porque já ninguém sabe o que é um ensaio.

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