Opinião

O Papa que Descende do Macaco

O Papa Francisco já demonstrou que vai deixar a sua marca na Igreja Católica. Não por ser o primeiro papa jesuíta da história. Não por ser muito próximo do povo e não se querer esconder atrás de vidros à prova de bala. Nem por ser bom comunicador e promover a paz. Mas sim pela diferença.

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Ser jesuíta é história. O seu nome vai ficar para sempre ligado a esse facto, mas para fazer História (com “h” grande) ser o primeiro jesuíta não chega. A proximidade ao povo é óptima: transmite confiança aos seus seguidores e cria laços entre as pessoas e a Igreja. É importante que a Igreja não deixe aumentar a distância entre o chão do povo e o pedestal em que vive. Pede-se até, se possível, que a diminua. E nesse aspecto o trabalho do Papa Francisco tem sido de louvar, mas não difere dos casos mais graves nem os resolve. Ser bom comunicador e promover a paz é o mesmo que um canalizador arranjar um cano da sanita. É aquilo que se lhe pede. Falar às massas e reclamar a paz e a integração é, na minha opinião, o mínimo. Mas entre falar e fazer vai uma grande diferença e é nessa diferença que se insere o Papa Francisco. O Papa João Paulo II, por exemplo, que tanta gente idolatra, foi bastante próximo das massas. Era adorado e amado pela sua bondade, mas em pontos críticos falhou redondamente. Não chega ser bonzinho. É preciso agir. Entre declarar como crime o uso de preservativo, independentemente da ocasião, quando a SIDA estava a rebentar em África (era necessário outro tacto para lidar com a situação mas não o teve; limitou-se a seguir o que está escrito) e o encobrimento de escândalos sexuais dentro da igreja, venha o diabo e escolha. Bento XVI deu um passo muito importante: permitiu o uso de preservativos em casos pontuais, como na prostituição, mas em relação aos abusos sexuais pouco ou nada fez. O Papa Francisco parece saber que a igreja está a precisar de se actualizar. O mundo já não é o mesmo de há quinhentos anos. Caramba! Já nem é o mesmo de há dez! Eu sou ateu, mas reconheço na Igreja uma força e um dever a que têm depois de corresponder os seus actos.

O Papa Francisco vai fazer História porque vai ser o Papa que irá devolver à Igreja o papel que lhe é devido e reaproximá-la de todos nós. Finalmente começamos a ver a pedofilia na igreja punida. Repito: não chega dizer que está mal. O Sínodo dos bispos do passado Outubro foi mais um ACTO. A Igreja não se pode continuar a fechar às sociedades modernas. O que o Papa Francisco queria – uma maior abertura da igreja a novos tipos de família – não foi aprovado, mas tal discussão seria simplesmente impensável há uns anos atrás. Veio agora interpretar brilhantemente (apesar de não de forma inédita entre membros da igreja) a teoria da criação divina, de uma maneira que até para mim, como ateu, faz bastante sentido. A igreja só se estava a enterrar cada vez mais ao não adoptar como factual a teoria do evolucionismo pois, à medida que a ciência avança e explica, a Igreja perde força e credibilidade. A ideia de que o big-bang exige intervenção divina tem tanta ou mais força do que as teorias que neste momento explicam (ou tentam explicar) o como e o porquê deste fenómeno. Ao afirmar que Deus não pegou numa varinha e começou a criar, devolveu credibilidade à Igreja. Deus “criou os seres vivos e permitiu que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que deu a cada um, de forma a que se desenvolvessem e atingissem a sua plenitude”. Tão simples como dizer: Deus criou o big-bang e definiu como toda a vida iria prosseguir a partir dali e, evoluindo, ela prosseguiu. Em pouco tempo, o Papa Francisco já mostrou ao que vem. Pretende mudar para melhor uma entidade desgastada e cada vez mais perdida; actualizá-la e modernizá-la, acabando com o que, nos últimos anos, a manchou perante o público. Daqui até à aceitação do preservativo e da homossexualidade ainda falta muito, mas com o que já conseguiu em tão pouco tempo não me admirava se fossem dados passos importantes nesse sentido durante o seu pontificado. Vai ser, sem dúvida, um Papa para a História.

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O Pedro acha-se muito esperto mas quem for ver percebe que no fundo é apenas parvo, mas já morreu uma vez e esteve para morrer outras duas, por isso tem desculpa.

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