Literatura

Orgulho e Bom Senso, Sensibilidade e Preconceito

Dedicado aos apaixonados pelas palavras não ditas de Mr. Darcy, estas que, por vezes, entram em conflito com a brutalidade no que é dito em Orgulho e Preconceito. Dedicado aos apaixonados pelo drama em volta de John Willoughby e Marianne Dashwood, em Sensibilidade e Bom Senso, e pela história de amor de Elinor Dashwood e Edward Ferrars. Dedicado àqueles que conhecem Jane Austen. Dedicado àqueles que são apaixonados pelas palavras dela.

Apesar de as primeiras obras terem sido publicadas anonimamente (século XVIII, tudo era destinado à figura masculina), Jane Austen é uma das autoras mais influentes, deixando uma marca que se perpetuou, desde Amor e Amizade até Persuasão.

Falemos de duas das suas obras: Sensibilidade e Bom Senso e Orgulho e Preconceito. As histórias saíram com um intervalo de um ano (1811 e 1813, respetivamente) e nós, enquanto leitores, tendemos a escrutinar cada pedaço dos livros para os encaixar nas nossas interpretações e suposições. Sendo assim, que tal falarmos das diferenças e das semelhanças que vemos nas histórias das irmãs Dashwood e das irmãs Bennet?

Coloquem a mentalidade da época e vamos lá ver o que difere e o que aproxima estas obras uma da outra. Ready, set, GO!

Irmãs muito distintas, mas com um elo inimaginável

Elinor e Marianne Dashwood: as duas heroínas de Sensibilidade e Bom Senso e, se começarmos as nossas interpretações pelo título, conseguimos relacionar o nome da obra com o carácter destas personagens: Marianne é “Sensibilidade” e Elinor “Bom Senso”. São o oposto uma da outra, mas conseguimos sentir um voto inquebrável entre as duas. Não há um único momento em que Elinor, a mais velha, não pense em Marianne e não se preocupe com ela. 

O que pode haver de igual com a história das irmãs Bennet? Comecemos pelo óbvio. É também a história de uma família, mas neste caso é um bocadinho maior. Em Orgulho e Preconceito as irmãs também têm as características bem distintas, mas são muito unidas. 

Em relação às diferenças que possam saltar à vista? Na narrativa das irmãs Dashwood, vemos que a obra está muito equilibrada entre a história de Elinor e a de Marianne. É como se as duas narrativas estivessem de mão dadas. Orgulho e Preconceito conta com uma protagonista. Elizabeth é A personagem. Jane, a irmã mais velha, é a personagem secundária que nós vivemos para ver até onde vai a sua história de amor com Senhor Bingley.

As três irmãs Bennet mais novas não têm muito protagonismo, mas, apesar disso, Lydia consegue ter o seu momento de fama devido ao escândalo com Wickham. As restantes, Kitty e Mary, ficam um tanto à margem. 

Se ainda compararmos as características das personagens das irmãs em cada obra, vemos muito de Elinor em Elizabeth; já a emotividade de Marianne está mais presente em Lydia.

Edição inglesa de Orgulho e Preconceito.
Fotografia de Joana Americano

Herói romântico tanto em Darcy e Coronel Brandon?

Existe sempre aquela pergunta que é quase obrigatória depois de se ler Orgulho e Preconceito: o quanto gostas de Fitzwilliam Darcy?

Na maioria dos casos, ele apanha-nos quando faz aquelas suas declarações de amor a Elizabeth (não falemos do que aconteceu depois. A sério, Darcy? Foste logo pegar na família dela?).

Apesar de se falar muito de Darcy, também vemos um belo romance em Sensibilidade e Bom Senso. O grande amor de Elinor, Edward Ferrars, tem um grande coração, mas os seus segredos é que tornam a narrativa entre estas duas personagens tão interessante. Marianne? Marianne é aquele coração apaixonado! Bem vemos como ela é com John Willoughby, rendeu-se por completo ao jovem sedutor. Também podemos contar com Coronel Brandon – que tem aquele bom coração e é cheio de boas intenções.

Conseguimos comparar Brandon com Darcy? Conseguimos pois!

Eles partilham claramente aquele lado sério e não são pessoas de exteriorizarem muito os seus sentimentos. No entanto, Brandon mostra claramente que está completamente apaixonado por Marianne e Darcy teve de entender que Elizabeth é the one, mas teve de ser um processo gradual. Essa é a diferença entre eles. 

Com o romance ainda no ar, que tal não nos esquecermos do grande amor de Jane Bennet? Charles Bingley é das personagens em Orgulho e Preconceito que não consegue ter um gémeo em Sensibilidade e Bom Senso. É uma personagem única, que se torna um tanto especial na narrativa de Austen.  

Quem não gosta de Bad boys?

O bad boy existe e chama a atenção da personagem principal, de uma maneira ou de outra, e Jane Austen não escapa à tendência! Marianne apaixona-se por Willoughby e chamemos àquilo que Elizabeth sentiu por Wickham uma crush

Portanto, sim. Este tipo de personagem está presente e, em ambos os casos, observamos umas quantas características semelhantes (e não é só pelos apelidos começarem por “W”).

Willoughby parece ser o grande herói que salva Marianne, em Sensibilidade e Bom Senso, no entanto, revela as suas verdadeiras intenções por a ter seduzido. Soa familiar, não soa? Wickham é também (aparentemente) o homem perfeito. É bonito, carismático e ainda por cima bem-educado (este ponto é importante, porque não nos esqueçamos de como o Darcy é)! O soldado até consegue denegrir Darcy aos olhos da nossa Elizabeth.  Felizmente, a verdade vem sempre ao de cima. 

Existe alguma diferença entre os dois? Sim. A verdade é que Willoughby mostra, no final, que se apaixonou mesmo por Marianne e pede perdão por todo o mal que lhe causou.

Sensibilidade e Bom Senso, a história sem a figura paterna.
Fotografia de Joana Americano

A figura paterna muda o formato da história das famílias

Como já dissemos, tudo está em jogo quando se fala da interpretação de cada um. Tudo pode ser uma mera coincidência entre as duas obras. No entanto, as componentes que existem em Sensibilidade e Bom Senso, em alguns casos, parecem ter sido melhoradas em Orgulho e Preconceito. Por exemplo, a figura paternal.

Em ambos os casos, o legado das famílias não é o melhor e, ao ficar sem o homem de família, esta perde tudo. É o caso do Senhor Dashwood.

A descendência Dashwood, ao ver-se sem o pai, é forçada a abandonar a casa que considerava um lar e vai para a cabana que lhe foi cedida. As Dashwood nem podiam conseguir uma casa que pudessem designar como delas. 

Com o Senhor Bennet a história é diferente. Ele está vivo e a lidar com os nervos da mulher, Senhora Bennet, que se mantém muito empenhada em casar todas as filhas, ficando ele à margem quando o assunto é o casamento delas. Ele apenas assume as rédeas depois do escândalo de Lydia e quando Elizabeth (claramente a filha favorita) pede para não casar com o Senhor Collins. No entanto, se ele morresse a família também teria de abandonar a casa e teriam de arranjar uma forma de viver. Agora, uma coisa é certa: não sabemos como teria sido o Senhor Dashwood enquanto pai de família. 

Money, money, money / Must be funny / In the rich man’s world

Haverá maior semelhança do que a do dinheiro? Grande parte das conversas nas duas obras chegam a ser à volta deste tema.

A Senhora Bennet está constantemente a falar sobre o dinheiro e como é das coisas mais importantes para ela. É o dinheiro que a ajuda a avaliar os melhores pretendentes para as filhas. Até Darcy fala de dinheiro! Ele acabou tudo entre Bingley e Jane por achar que ela apenas queria saber do dinheiro dele. Não nos esqueçamos de quando o Senhor Bennet descobre as intenções de Darcy em contrair matrimónio com Elizabeth! O que é que ele diz logo? Que ela vai ter mais roupas e carruagens do que Jane. Ela é a filha favorita, mas um dos primeiros argumentos é o dinheiro.

Marianne, em Sensibilidade e Bom Senso, é a pessoa que dá um monólogo à irmã sobre as vantagens de casar com alguém endinheirado. Conta como a grande felicidade está em não ter problemas monetários e conseguir comprar tudo o que precisa sem contar tostões. Elinor é aquela até que lança a bela dita frase: “Money can’t buy happiness”. Além destes pensamentos iniciais de Marianne, ainda temos a situação de Willoughby, que acaba por casar com outra pessoa por dinheiro. 

Capas, edições e idiomas diferentes de Orgulho e Preconceito.
Fotografia de Joana Americano

As nossas interpretações levam-nos a pensar nestas coisas. Vai na volta, Jane Austen nem tinha esta intenção, de que futuramente fossem feitos estes paralelismos com as suas obras. No entanto, o leitor existe para isto mesmo e é uma das maiores maravilhas. Lemos os livros, interpretamos e sentimos coisas que nem os autores achavam que íamos conseguir sentir.

Os livros de Jane Austen fazem-nos apaixonar pelas personagens, pelo enredo, por tudo. Talvez ao ponto de comprarmos vários exemplares com capas e idiomas diferentes apenas como pretexto. Afinal, capa, edição e idioma diferentes, e é como se fosse um livro novo!

O autor escreve e abre um mundo. O leitor? O leitor lê e abre por completo os horizontes.

Fotografia de capa de Joana Americano

Artigo revisto por Maria Ponce Madeira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *