Opinião

Pêras e Abacates: O papel da imprensa

Peço, desde já, desculpa por voltar a falar de José Sócrates, mas servirá apenas como ponto de partida para o resto. Isto porque ouvi muitos debates a criticar o papel e a acção da imprensa no acompanhamento do caso. Sobre a questão de estarem a filmar no aeroporto, já falei a semana passada: o erro prende-se com quem quebrou o segredo de justiça, não com os jornalistas. Depois os mesmos fizeram o seu papel. Agora, a partir daí, concordo muitas vezes com o facto de não terem tido a abordagem correcta.

Podemos começar com a questão de se saber que José Sócrates comeu cozido à portuguesa e apaga a luz às dez da noite. Que interesse, pergunto eu, é que isto tem? Ou, por exemplo, terem tido a oportunidade de falar com Mário Soares, à porta da prisão (e de, inclusive, perguntar coisas concretas sobre as declarações do próprio), e de a “única” coisa perguntada ter sido se abraçou José Sócrates. Como diz o meu amigo Rúben Tiago Qualquer Coisa, grande youtuber: “Eu neste momento sei mais sobre os abraços do Sócrates do que sobre quem são aos malandros de que falou Mário Soares”. Este interesse sobre o que come, o que anda a ler ou quem abraça é relevante para o caso? Não me parece.

Como disse, este é apenas o ponto de partida para aquilo de que quero falar: o sensacionalismo. Porque ouvi inúmeras críticas ao jornalismo em Portugal e, infelizmente, concordo com a maior parte. Vamos por partes. Primeiro vou referir essencialmente os canais em sinal aberto (RTP 1, RTP 2, SIC e TVI) e os principais jornais portugueses (Correio da manhã, Diário de Notícias, Público, Jornal i, Expresso, Sol, etc). Não por descrédito aos outros, mas porque são estes canais e jornais que representam a maioria da população portuguesa. Adiante. Não só o jornalismo mas a comunicação social em geral está cada vez mais sensacionalista. De quem é a culpa e se fazem bem ao fazê-lo é, no fundo, aquilo a que hoje me proponho responder.

Existe, de facto, mau jornalismo em Portugal. Como futuro (ou não) jornalista, isto preocupa-me. Essencialmente porque percebo que ser bom não conta tanto como devia. Existem demasiados pés de microfone espalhados por todos os meios de comunicação. Isto é verdade. Muitas vezes as questões essenciais passam para segundo plano para dar lugar ao sensacionalismo. “Abraçou José Sócrates?”, em vez de: “A quem se refere quando diz ‘malandros’?”, por exemplo. Agora, como disse Teresa Guilherme numa conferência na ESCS: “A televisão dá o que o público pede”. Isto é verdade também nos jornais. Existe mau jornalismo, mas existe também mau público. A maioria dos portugueses quer sensacionalismo. Não é por acaso que a “Casa dos Segredos” é líder de audiências ou que o Correio da Manhã é líder de vendas nos jornais. São os conteúdos sensacionalistas os mais apreciados. E com isto não quero dizer que os portugueses são, digamos, brutos e atados mentalmente. Nada disso. O sensacionalismo é uma categoria como as outras. Na minha opinião, não deve é estar no topo. Mas com esta crítica não me esqueço de que Portugal (e grande parte da sua população) viveu durante o Estado Novo, que “apelava” à ignorância e à distracção dos temas fulcrais da sociedade. Isso não muda de um dia para o outro. A este mau público junta-se, depois, o mau jornalismo. O papel dos principais meios de comunicação social, na minha opinião, é muito mais do que dar ao público o que ele quer. Como diz o tio Ben do Homem-Aranha (ou Stan Lee, autor da banda desenhada): “Com um grande poder vem uma grande responsabilidade”. E a comunicação social atira, muitas vezes, esta grande frase ao lixo. Não aceita essa responsabilidade e limita-se ao “fácil”: ir atrás do barco. Os portugueses foram, durante o Estado Novo, educados para não terem opinião, sentido crítico e interesse pelas questões mais pertinentes da nação. Depois do 25 de Abril, a educação oposta – com o objectivo de despertar interesse nas questões do país – evoluiu, mas, neste momento, estagnou. Houve uma melhoria, claro. Existem, de facto, programas sobre o que de essencial se passa em Portugal (para mim o essencial é a política, a economia, a saúde, a educação), mas esses só passam em sinal aberto muito raramente.

Nos jornais, que estão de livre acesso a todos, o Correio da Manhã lidera o número de leitores, com os conteúdos que todos conhecem. No caso dos jornais, o mau público tem mais influência, porque existem outros muito bons com conteúdos bem constituídos disponíveis de forma “igual”. Por isto digo, e repito, que existe mau jornalismo mas existe também mau público. Agora, penso que quem tem poder para criar uma sociedade mais consciente devia fazer um esforço maior para o fazer. Os nossos telejornais de canais generalistas às vezes roçam o ridículo. Em uma hora de emissão, chegamos a ter trinta minutos de notícias relevantes para o país e para os portugueses (como a política, a economia, a cultura, os feitos dos portugueses lá fora, etc.) e notícias de relevância mundial (como conflitos mundiais ou epidemias), e os restantes trinta minutos sobre uma senhora que esteve dois anos sem pagar a conta da luz, sobre o cão de água português do Obama ou sobre uma rua em Valpaços (com todo o respeito por Valpaços) que está com buracos há cinco anos. Não é que estes assuntos não mereçam ser noticiados: a questão é que, para mim, têm demasiado destaque num programa de referência com milhões de espectadores. O público, lá está, pede estes casos, mas a comunicação social não pode contribuir para uma sociedade alienada do país e focada em cães nos EUA. O Obama não pagou 75 mil milhões ao Governo de Portugal para ter o cão. Isso, sim, seria uma notícia para ocupar 2 ou 3 minutos, no mínimo.

Resumindo, a opinião pública portuguesa é, na sua maioria, fraca e pouco conhecedora. Mal habituada, pede o que não interessa para o futuro do país e a imprensa, preguiçosa, dá sem reclamar. Tornar os portugueses mais activos e conscientes exige esforço e muito tempo, mas algum dia isso tem de começar. Porque, enquanto continuarmos assim, vamos continuar a saber quantos abraços deu Mário Soares a José Sócrates e a esquecermo-nos de que o Orçamento de Estado para 2015 foi aprovado dia 25 de Novembro…

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