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Please Like Me – A realidade dura e cozinhada

Uma análise sem spoilers

Criada e escrita por Josh Thomas, Please Like Me é uma série australiana exibida entre 2013 e 2016 que segue Josh, um jovem homossexual que vai viver com a mãe após esta se tentar suicidar. Esta é uma sinopse bastante simplificada para resumir o que a série tem para oferecer, uma vez que no seu núcleo temos um retrato realista, hilariante e brutal da vida de um grupo de pessoas em Melbourne, ao longo de 4 curtas temporadas.

Josh (Thomas) e a sua mãe Rose (Debra Lawrance). Fonte: Entertainment Weekly

Palavras como realismo e honestidade são termos atirados no mundo televisivo moderno e, normalmente, são palavras-código para doenças mentais e uso de drogas. Porém, enquanto muitas destas se escondem no melodramático exagerado de personagens a passar por situações traumáticas, poucos são os programas que realmente mostram as dificuldades comuns do quotidiano da pessoa normal, devido ao receio de pôr de parte o escapismo que maior parte das audiências procura quando liga a televisão… Mesmo assim, gemas contemporâneas como Fleabag e Please Like Me apareceram de maneira a desmistificar esta desvalorização do fator de relacionabilidade e provam que, por detrás das caras bonitas das minisséries da HBO ou dos adolescentes de 30 anos da Netflix, existe um espaço para as histórias reais, sem a glamorização das doenças mentais ou estruturas narrativas organizadas e calculadas.

Phoebe Waller-Bridge em Fleabag (2016-2019). Fonte: Digital Spy

Please Like Me é brutalmente realista, não porque toca em assuntos novos ou violentos, mas porque apresenta as suas temáticas de uma maneira completamente diferente… Se me questionasse sobre o que acontece ao longo da série, ia ter dificuldades em dizer acontecimentos que parecessem muito interessantes, pois os seus fortes estão na construção das personagens e diálogos, e, tirando momentos-chave, a série acaba por ser sobre tudo e nada. Apesar de esta afirmação soar deveras pretensiosa, é bastante semelhante à maneira como descrevemos a vida real. Sim, é bonito procurarmos significados poéticos e criarmos arcos de transformação de nós enquanto personagens, mas a verdade é que muitas coisas acontecem sem razão e que são as pessoas e lições de vida que nós retemos das diversas experiências que realmente dão substância à nossa existência.

Existe um novo género cinematográfico que tem ganhado atenção especialmente no circuito de festivais de cinema que é chamado mumblecore: filmes indie construídos à base de diálogos naturais, com enredos simples, seguindo uma ou mais pessoas comuns e as diversas questões trazidas pela sua existência – por outras palavras, se as crises existenciais fossem um filme seriam provavelmente um do género do mumblecore. Alguns exemplos deste género são a trilogía Before, de Richard Linklater; qualquer coisa Greta Gerwig pré-Mulherzinhas, destaque a Frances Ha; mais recentemente Malcolm and Marie (mais ou menos) e até no mundo do terror temos Creep.

Ainda que seja difícil encontrar o equilíbrio ideal, fazer um filme ou série mumblecore pode facilmente ser pretensioso ou, ainda pior, aborrecido. Este género é um espelho da realidade quotidiana, rica em lições de vida que tanto mete quem assiste numa espiral niilística, como oferece o conforto do sentimento de coletividade que vem com o decifrar a vida.

Greta Gerwig e Adam Driver em Frances Ha! (2012). Fonte:  BFI

Mesmo que Please Like Me possa aparecer na sua superfície bastante mais sensacionalista que muitos deste género, segue a fórmula (que, sem ser o uso rico de diálogos e de personagens bem concebidas, consiste na ausência de uma fórmula) de uma série mumblecore.

O nome de cada episódio é baseado num prato de culinária feito nos créditos iniciais, que se conecta com as temáticas do episódio, e num traço pessoal do seu criador, o que torna a série mais pessoal. Além disso, muitos dos enredos dos episódios foram baseados nas experiências de Thomas, o que torna a trama credível. Sim, as histórias são sempre assentes na realidade, mas as personagens e talentos de Thomas elevam as narrativas mais simples, transformando os episódios – se caíssem nas mãos erradas – aborrecidos em 20 minutos hilariantes e confortantes. E, quando menos esperamos, levamos com um murro direto no coração, quando a história dá reviravoltas imprevisíveis.

 O facto de optarem por uma narrativa semelhante à vida, em que tudo segue o seu rumo sem consideração pelas evoluções das personagens ou respeito pelas regras subentendidas nas séries de televisão, acrescenta o realismo à série.

Thomas e Lawrance. Fonte: The Pop Hub

Tal como disse anteriormente, nós procuramos nestes meios de escapismo histórias fantásticas em que tudo faz sentido e em que toda a gente está dentro de uma caixa narrativa e termina com um final adequado. Please Like Me não só foge a esta estrutura, como também apresenta uma segunda opção, em que as personagens não vivem limitadas pelos arquétipos esperados e em que a sua vida, tal como a real, vai ao seu próprio ritmo, indiferente à sua situação e necessidades pessoais. Pode soar deprimente quando sentimos que acompanhamos uma personagem e nos sentimos traídos quando ela não é recompensada pelos seus desafios, mas existe esta dimensão otimista, pois não só nos sentimos vistos, como também nos força a perceber que a vida da nossa personagem favorita termina no último minuto do último episódio, mesmo que em algumas situações acabe mesmo.

Josh e amigos. Fonte: Tv Blackbox

A lição mais importante que retirei desta série é a ideia de, tal como estas personagens, não estarmos limitados pelas expetativas da nossa existência, de que o final feliz que procuramos não deixa de ser um final e de que é tão válido encontrarmos continuidade tanto nesses como quando a nossa vida parece que vai ter um final trágico e melodramático. A imprevisibilidade da vida é parte do seu charme e nós somos apenas coargumentistas da mesma, mas qual era o interesse de ter o controlo total?

Josh Thomas criou uma ode ao bom e mau da vida real e ofereceu um espelho à pessoa comum para se ver como personagem principal da sua história, no feliz, no aborrecido e no melancólico. E, ainda que adore o escapismo que o entretenimento nos oferece, é agradável saber que gemas como estas existem e que tratar a realidade como meio artístico implica aceitar a sua imprevisibilidade, mas também o poder que temos na nossa narrativa que (felizmente), de certa maneira, não existe.

Artigo revisto por Inês Pinto

Fonte da foto de capa: filmow.com

Bernardo Campos

Natural de Mafra, este estudante de jornalismo ainda não sabe o que quer ou vai fazer mas pode garantir que vai procurar respostas nas artes visuais. Amante de cinema, gostaria de um dia trabalhar em algo relacionado com a área, mas tal como foi dito anteriormente, ainda é uma incógnita… Talvez descubra no próximo filme! Gosta do escapismo e identificação que a arte nos traz, e acredita na importância de contar histórias sobre pessoas, quer seja numa série ou numa reportagem.

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