Opinião

Pontes Sobre Um Rio Sujo de Dinheiro

Agora que tenho carro a liberdade é outra. Não só a liberdade, mas o tempo perdido, em geral, é incomparável. Ao viver na Margem Sul, demoro no mínimo (!) uma hora de transportes a chegar a casa. É verdade que não é uma eternidade e há quem demore mais, mas se tenho azar ou se já vou tarde essa hora transforma-se rapidamente em duas… Quando comparo estes tempos com a meia hora que demoro de carro, se não houver acidentes, tudo fica mais sorridente.

Mais uma vez o povo paga, em dinheiro e em perda de tempo, à custa dos negócios dos donos disto tudo. Em 1995 foi assinado o contrato com a Lusoponte (empresa que a construiu) referente à construção da ponte Vasco da Gama e à exploração de portagens desta mesma ponte e da Ponte 25 de Abril. Ou seja, os custos da ponte Vasco da Gama seriam suportados pelas portagens não só da Vasco da Gama, mas também da 25 de Abril. Esta concessão durará até 2030. O acordo foi feito pelo então ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral. Tudo bem.

Quais são os problemas? Primeiro: a ponte Vasco da Gama custou cerca de 600 milhões de euros e os valores arrecadados mediante a cobrança das duas portagens já ultrapassaram os 800 milhões de euros. Mais: As indemnizações já ultrapassam os 350 milhões. Indemnizações! Que consistem num princípio, no mínimo, nojento no que toca a negócios estatais. Que é: combinamos que passam sempre 100 carros, suponhamos. Quando passarem menos de 100 carros, o Estado (ou seja, nós) paga a diferença. Assim também eu invisto. No entanto, se o Zé Povinho decidir abrir um restaurante, o Estado não lhe paga se ele não tiver clientes, obviamente. No fundo, nós saímos sempre a perder com o negócio da ponte e eles sempre a ganhar. Surreal…

Estes valores dizem-nos, claramente, que a ponte Vasco da Gama já está mais do que paga e com lucros brutais. Depois levanta a questão: por que é que a concessão foi feita para durar 32 anos? Mas o governo não fez as contas para perceber quanto tempo seria preciso para pagar a ponte e dar um lucro aceitável à Lusoponte com o dinheiro das portagens? É que numa concessão de 32 anos estamos 20 (!) só a pagar lucros à Lusoponte.

A questão é: sim, as contas foram feitas. Aliás o governo pensou em tudo. Porquê? Porque no país dos tachos é assim que funciona. Porque o tal ministro das Obras Públicas da altura, o “senhor” Ferreira do Amaral, está neste momento no Conselho de Administração da Lusoponte. Coincidência? Só pode, não é? Que governantes encarregues do futuro de um país com 10 milhões de pessoas é que obrigariam milhares de pessoas por dia a pagar quase dois milhões de euros (o resultado daqui a 15 anos) em lucro a uma empresa privada? Exato… Todos.

É à pala disto que hoje ainda milhares de pessoas perdem horas e horas de vida na fila da ponte 25 de Abril e Vasco da Gama. Porque o trânsito existe sempre e as filas acabariam sempre por acontecer, mas basta analisar o trânsito que sai da cidade (sem portagens) à hora de ponta para ver a diferença que seria. Isto, claro, sem sequer falar do dinheiro que perdem injustamente.

Pior é que as figuras mudam mas os interesses não. O interesse maior de um governante é encher o seu e ir embora para um lugar melhor. O país e os seus habitantes que se lixem porque ao fim de 4 anos já são problema d’outro. Mas os problemas que eles nos arranjam duram 32 anos. No futuro falarei sobre a democracia que hoje existe: um caos.

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