7ª Arte

Quando a música rouba a cena: 4 vezes em que a banda sonora foi protagonista

Frequentemente incorremos no erro ingénuo de acharmos que a banda sonora é um elemento extra, algo que existe para complementar a obra maior. A afirmação não é sempre errada, se tivermos em conta a quantidade de filmes em que a música é apenas barulho de fundo, estando lá unicamente para encher um vazio, quer seja no conteúdo, quer seja no ritmo da obra. Mas, quando bem utilizada, a banda sonora perde (e bem) o seu estatuto de extra e ascende ao nível de protagonista, tendo tanta importância como o elenco ou o realizador, e torna-se numa personagem por si só. Estas afirmações levantam, inevitavelmente, a seguinte questão: quando é que uma música se torna protagonista? Quando deixamos de conseguir ouvi-la sem sermos inundados por imagens da cena que a acompanhou. E os filmes abaixo são apenas alguns exemplos de momentos em que a banda sonora roubou a cena.

Where is my mind?”, Pixies (1988) – Fight Club, David Fincher (1999)

Fonte: The New Yorker

Mischief. Mayhem. Soap. Quando o filme de Fincher saiu nos cinemas, estava longe de se adivinhar que o seu legado teria a dimensão grotesca que ainda mantém: foi recebido com críticas mistas, considerado obsceno e desnecessariamente violento e na bilheteira a performance não foi estrondosa. Só mais tarde, com o lançamento em DVD e o passar dos anos, é que ascendeu ao status de filme de culto. Fight Club envelheceu como um bom vinho, tornando-se num ícone do cinema, e não é difícil perceber porquê.

O enredo que é baseado na obra homónima de Chuck Palahniuk, lançada em 1996, conta-nos a história de um narrador sem nome, interpretado por Edward Norton, que leva uma vida verdadeiramente deprimente, sem quaisquer expetativas de emoção: trabalha num escritório, vive sozinho num apartamento e sofre de insónia crónica. A única cura que encontra para o desespero de não conseguir dormir é tornar-se num impostor em grupos de apoio para pessoas que sofrem de doenças terminais. Até que encontra o misterioso e atraente niilista Tyler Durden, interpretado por Brad Pitt, que faz sabonetes e é o expoente máximo do cool e de tudo aquilo que o narrador deseja ser. Juntos, criam um clube de combate, onde o objetivo é, essencialmente, dar e levar pancada e lutar contra o sistema materialista e capitalista que Tyler repudia. No meio de tudo isto está Marla Singer (é a ever so cool Helena Bonham Carter que lhe dá vida), também ela uma impostora que frequenta os mesmos grupos de apoio que o narrador e que se torna decisiva no desenrolar da história.

E se todo o filme é caos, violência e uma reflexão filosófica e cética das vidas banais que vivemos, é na cena final que Fight Club atinge o seu clímax. Depois de o grande plot twist ser revelado, o narrador e Marla dão as mãos, enquanto à sua volta explodem edifícios e o caos se instala. “You met me at a very strange time in my life” e o ecrã fica escuro. Fight Club acabou, mas só nos fica na cabeça a música que acompanhou os últimos momentos do filme: “Where is my mind?”, dos americanos Pixies. Quem conhece a música conhece-a, provavelmente, por causa do filme: lançada em 1988, só se tornou um êxito depois de ter sido usada em Fight Club. Mas porque é que esta música marcou tanto o filme, a ponto de ainda hoje serem indissociáveis? Primeiro, a frase “Where is my mind?” encaixa que nem uma luva na revelação que acabou de ser feita no final do filme. Naquele momento, toda a gente está perdida: o narrador não percebe o que se passa com a sua cabeça e com todos os eventos que experienciou, Marla não tem a mínima ideia do que está a acontecer e o espetador ainda está a processar o que acabou de acontecer e a tentar perceber se compreendeu ou não o final. Depois, a música contrasta fortemente com a cena que a acompanha. Se no ecrã vemos confusão, caos e edifícios a cair, o que nos chega aos ouvidos é uma melodia quase hipnótica que nos coloca numa espécie de transe, com a voz do vocalista sempre distante. E, por fim, a incerteza em relação ao futuro das personagens depois de o ecrã ficar preto, enquanto ouvimos “Where is my mind?”, ganha uma dimensão muito mais poética e marcante. É um final apoteótico para um filme que não nos dá um segundo para respirar.

Fonte: Youtube

Singing in the rain”, Gene Kelly (1952) – A Clockwork Orange, Stanley Kubrick (1971)

Fonte: The Telegraph

Quando A Clockwork Orange saiu em 1971, uma adaptação do livro de Anthony Burgess pelas mãos de Stanley Kubrick, o choque foi imenso. Sexo, violência, misoginia, raiva e caos preenchem o ecrã durante os 136 minutos da controversa obra que foi recebida com críticas mistas: alguns interpretando-a como genial e outros criticando a presença excessiva de obscenidades e violência. Independentemente da opinião, é inegável que A Clockwork Orange é não só um marco da carreira de Kubrick, mas também um dos mais épicos trabalhos que a Sétima Arte generosamente nos ofereceu.

O filme conta-nos a história de um gangue de jovens delinquentes, liderado por Alex (Malcolm McDowell), numa Inglaterra distópica, que se rege pelo conceito de ultraviolência e que passa os dias a roubar, a agredir, a matar e a violar, em atos grotescos de violência. Aqui, há violência porque sim, revelando o lado mais negro e selvagem do Homem.

Mas, se Alex é absolutamente viciado na música de Beethoven, foi a alegre “Singing in the rain” que ficou para sempre associada a este filme. A música, celebrizada por Gene Kelly no filme 1952 com o mesmo nome, viu ser roubada a sua inocência neste filme. Aliás, o próprio Gene Kelly sentiu uma revolta profunda relativamente a este uso: afinal, a música à qual a sua carreira seria associada seria lembrada por uma cena de violação noutro filme. Mas vamos por partes: Como é que “Singing in the rain” vai parar a A Clockwork Orange? Durante uma das cenas mais importantes do filme, Alex, o protagonista, e os seus amigos invadem a casa de um casal, amordaçam, agridem e imobilizam o marido e obrigam-no a ver enquanto violam a sua mulher. Enquanto filmava esta cena, Kubrick achou que estava demasiado convencional e pouco marcante. Pediu então a Malcolm McDowell que cantasse qualquer coisa e dançasse durante a cena. E eis que Malcolm cantou a primeira coisa de que se lembrou. E porque é que “Singing in the rain” marcou tão tanto aquela cena? A questão prende-se precisamente com o facto de as ações de Alex e companhia serem a completa antítese da música. A cena é perturbadora, violenta, “suja” e representa tudo de errado; a música, por sua vez, é a felicidade e a alegria se a felicidade e a alegria tivessem um som. E por isso mesmo é que a cena se torna tão absurda e grotesca: enquanto uma mulher é violada, alguém canta e dança alegremente, num espetáculo macabro, resultando num momento que destrói não só a personagem, mas também a imagem que a música tinha antes. Para além disto, “Singing in the rain” volta a aparecer noutro momento do filme, quando, dois anos depois, Alex reencontra o viúvo da mulher, que só o reconhece quando o ouve cantar.

A utilização de “Singing in the rain” em A Clockwork Orange é não só inesquecível, mas também demonstra bem a força do jogo psicológico de Kubrick, que nos destruiu a ideia de positividade e felicidade associada à música, tornando-a suja e verdadeiramente perversa.

Fonte: Youtube

Sunshine of your love” Cream (1968) – GoodFellas, Martin Scorsese (1990)

Fonte: Biography

Martin Scorsese nasceu para contar histórias de gangsters em Nova Iorque. Não há mestre como ele na arte de criar obras cinematográficas que impressionam com igual entusiasmo os críticos e o público e que conseguem trazer tanto entusiasmo às histórias dos italianos mafiosos e dos acentuados sotaques Nova-iorquinos. Scorsese já contou estas histórias várias vezes, mas fá-lo como ninguém. E para este estatuto contribuiu, em grande parte, GoodFellas, o seu Magnus Opus.

GoodFellas conta-nos a história da ascensão e queda de Henry Hill, interpretado por Ray Liotta, desde a sua adolescência como moço de recados e “aprendiz” de uma família da máfia italiana até às consequências que este envolvimento tem na sua vida décadas depois. Do elenco fazem ainda parte os já veteranos nestas andanças dos filmes de mafiosos Joe Pesci, Robert De Niro e Paul Sorvino. E sim, há uma quantidade obscena de indivíduos chamados Paulie, Jimmy, Tommy, Frankie e Tony. O starter pack na construção de personagens que pertencem à máfia, no fundo.

E é precisamente de uma cena com a personagem de Robert De Niro, Jimmy Conway, que falo. Na cena em questão, Jimmy está sentado no bar e decide, naquele momento, que vai matar Morrie, um dos mafiosos com quem trabalhava, que está completamente alheio do seu destino. Tudo isto enquanto “Sunshine of your love” toca no fundo. E porque é que o “Sunshine of your love”, dos Cream, é tão relevante nesta cena? Vejamos: neste momento do filme a música não é apenas barulho de fundo e torna-se ela própria numa personagem. E atenção: é esta personagem que nos deixa perceber quais as intenções de Jimmy. Um dos aspetos que torna esta cena genial é o facto de De Niro não precisar de dizer uma única palavra para percebermos o que está a acontecer na cabeça da sua personagem. Naquele momento, as suas expressões faciais e os riffs de abertura de “Sunshine of your love” fazem o serviço de forma bastante eficaz: a descontração e ar presunçoso de Jimmy demonstram a sua frieza e brutalidade. Para além disto, podemos ainda atribuir à música o facto de esta cena ser o expoente máximo do cool, com o fumo do cigarro de Jimmy a dançar à volta do seu rosto e os riffs de Eric Clapton no fundo.

Fonte: Youtube

Stuck in the middle with you”, Steelers Wheels (1973) – Reservoir Dogs, Quentin Tarantino (1992)

Fonte: BFI

Para falar da obra cinematográfica de Tarantino sem mencionar as suas bandas sonoras seria necessário um esforço hercúleo. E todo esse esforço seria profundamente inútil. Nos filmes de Tarantino a banda sonora adquire uma dimensão superior: as músicas tornam-se protagonistas e constroem as cenas, dando-lhes mais profundidade e deixando-as reféns das canções usadas. Impossível pensar em Pulp Fiction sem pensar em “Misirlou”, de Dick Dale, que é a abertura perfeita, ou ainda em Kill Bill sem pensar no “Don´t Let Me Misunderstood”, que acompanha de forma genial a cena de confronto entre a Noiva e a O-Ren Ishii.

Em Reservoir Dogs, a grande estreia de Tarantino como realizador, um grupo de assaltantes (Harvey Keitel, Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi, e Quentin Tarantino), cujo nome verdadeiro (quase) nunca é revelado, comete um assalto a uma joalharia com o objetivo de roubar diamantes. No entanto, algo corre mal e o grupo percebe que foi traído por um dos elementos. O enredo acompanha os eventos antes e depois do assalto e explora a tensão entre o grupo, enquanto tenta perceber quem é o traidor entre eles. Inicialmente recebido com alguma controvérsia por causa da violência (que se viria a tornar, aliás, indissociável da filmografia de Tarantino), Reservoir Dogs recebeu várias nomeações e prémios, tendo adquirido o estatuto de filme de culto e sendo hoje considerada uma das mais importantes obras da Sétima Arte.

E é precisamente a cena mais sangrenta do filme que merece destaque neste artigo. Mr. Blonde, um dos assaltantes, interpretado por Michael Madsen, rapta um polícia, Marvin Nash, e leva-o para o ponto de encontro do grupo. A partir daí, a música ganha destaque e o caos instala-se: Mr. Blonde decide torturar o polícia que chora e implora para que o deixem ir. Contudo, Mr. Blonde não está minimamente interessado nos pedidos desesperados de Nash e diz-lhe, com toda a calma, que o quer fazer sofrer. Com um cigarro entre os lábios, tira uma lâmina de dentro da bota e liga o rádio. “Do you ever listen to K-Billy’s Super Sounds of the 70’s? It’s my personal favorite”. E é neste momento, ladies and gents, que assistimos a uma das mais icónicas cenas da história do cinema: “Stuck in the middle with you” começa a tocar e Mr Blonde dança pelo armazém, enquanto Nash o observa em pânico, numa espera agonizante. Mas porque é que este momento se tornou tão inesquecível? À semelhança do que acontece em A Clockwork Orange, também aqui a música contrasta com a cena: se o ritmo de “Stuck In the middle with you” é alegre e dá vontade de dançar, o que se passa dentro do armazém é o descarado oposto. A contradição entre o que a música nos faz sentir e aquilo a que a cena nos obriga a experienciar é a receita perfeita para tornar esta cena ainda mais violenta. Para além disto, a sequência é longa, o que faz com que durante minutos (parecem mais do que realmente são) nos sintamos angustiados e sufocados com o que está a acontecer. Tudo isto enquanto no fundo só se ouvem os gritos de agonia do polícia e a música dos Steelers Wheels.

Tarantino, qual mestre de jogos psicológicos, aposta na tática de Kubrick e torna uma música dançável e animada para sempre refém de uma cena brutal que mudou, para sempre, a forma como a ouvimos.

Fonte: Youtube

Artigo redigido por Madalena Guinote

Artigo revisto por Ana Roquete

Fonte da imagem de destaque: The Consequence of Sound

Madalena Guinote

Com 20 anos, Madalena, futura jornalista, já sabe há muito tempo que o seu futuro passa pela comunicação e é na escrita que se sente em casa. Mãe de três gatos, voluntária num abrigo de animais e fervorosa cozinheira amadora, ama dias de chuva e viagens de autocarro. É profissional da procrastinação e foi nas tardes passadas a ver filmes, para adiar o estudo, que surgiu a paixão pelo cinema.

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