Opinião

Quando o facto de ter uma opinião no jornalismo é alvo de censura

Após 10 meses de reportagens sobre notícias de última hora, justiça criminal e sobre o movimento “Black Lives Matter” para a república do Arizona, a jornalista Emily Wilder conseguiu trabalho na Associated Press. Assumiu na sua rede social Twitter que estava orgulhosa por ter construído uma reputação de respeito na redação e nas comunidades onde esteve a fazer a cobertura noticiosa. Quando conseguiu o trabalho na Associated Press sentiu-se feliz.

No entanto, os republicanos da Stanford College lançaram uma campanha contra a jornalista, tentando expor o seu ativismo público pelos direitos humanos palestinos quando esta ainda estava na Universidade de Stanford. Emily Wilder afirmou ter sido transparente com os seus editores e eles garantiram-lhe que não seria punida pelo seu ativismo anterior. Wilder recebeu vários comentários sexistas, racistas e antissemitas como uma forma de crítica ao seu ativismo. 

Ao fim de 48 horas do lançamento da campanha de incentivo ao ódio, a jornalista foi despedida pela Associated Press. A razão que lhe foi dada foi que esta tinha violado a política de média social da agência de notícias. Nesse período de tempo, o senador Tom Cotton, Ben Shapiro e Robert Spencer, conservadores poderosos, criticaram-na de forma repetida via online.

Quando Emily Wilder questionou os seus gerentes acerca de quais tweets teriam violado a política de média social da Associated Press, estes recusaram-se a responder. A jornalista não recebeu qualquer tipo de orientação ou de apoio à sua aprendizagem, sendo quase utilizada como um bode expiatório.

Wilder é judia e cresceu numa comunidade judaica. Frequentou uma escola ortodoxa e nos seus anos de faculdade estudou a questão de Israel-Palestina. Perante isto, a jornalista não entendia como podia estar a ser tratada daquela forma.

Emily Wilder conta no Twitter que é uma das vítimas da aplicação assimétrica de regras em torno da objetividade e das redes sociais que tem censurado tantos jornalistas, sobretudo jornalistas palestinianos ou jornalistas negros. A jornalista sempre assumiu que a compaixão que impulsionou o seu ativismo é parte do que a levou a ser uma repórter comprometida com uma cobertura jornalística justa, crítica e baseada em factos.

Como é que explorar duras realidades sem tomar uma posição em detrimento da outra pode ser visto como tendencioso? A cobertura feita pelo jornalismo deve dar a conhecer todas as realidades vividas acerca do mesmo acontecimento.

Emily Wilder lançou uma reflexão no Twitter acerca da objetividade jornalística em relação à questão Israel-Palestina. A jornalista diz nesse tweet que a objetividade é posta em causa quando se usa o termo “Israel”, mas não “Palestina”. Ou quando se usa o termo “guerra”, mas não as palavras “cerco ou ocupação”. Wilder defende que estas escolhas políticas também são as mesmas escolhas dos media, sendo que estes não são confrontados por terem posições tendenciosas.

Fonte: Twitter

Os esforços contínuos de Israel para limitar a presença de cidadãos da Palestina em Jerusalém, cidade que o Estado judaico assumiu, unilateralmente, como sua capital em 2017, são responsáveis pelo mais recente conflito entre judeus e árabes. Com o disparo de mísseis de ambos os lados já morreram inúmeros palestinianos, incluindo mulheres e crianças e alguns israelitas. Sheikh Jarrah, o bairro oriental onde colonos israelitas estão a tentar expulsar várias famílias palestinianas das suas casas, é o epicentro do reacendimento do conflito.

É importante referir que a jornalista não estava a fazer a cobertura sobre a questão Israel-Palestina. Wilder apenas expôs uma reflexão na sua rede social pessoal que poderia gerar o debate público acerca de um tema tão atual e difícil. A jornalista assumiu e divulgou a sua posição. 

A Associated Press ao suspeitar de um enviesamento por parte de Emily Wilder quanto à questão Israel-Palestina procurou atuar imediatamente. O despedimento da jornalista como forma de evitar que a marca da agência de notícias fosse prejudicada teve um reflexo contrário. A agência de notícias foi duramente criticada por esta decisão. 

As redes sociais são pessoais e, por isso, já implicam uma forte subjetividade. Alguns jornalistas também usam as redes sociais como uma forma de expor ideias ou reflexões. Os jornalistas não são objetivos. São pessoas e têm posições acerca da realidade do mundo.

A objetividade que sempre foi associada ao jornalismo não é real. Os próprios jornalistas quando fazem escolhas acerca das notícias que vão dar e a forma como as vão dar já estão a tomar uma posição.

Devem preservar a sua imagem para serem respeitados e vistos com seriedade; no entanto, não devem ser privados da liberdade de dar uma opinião ou de lançar o debate público sobre algum assunto se assim o desejarem. É importante termos jornalistas que pensem sobre as coisas, que as discutam e que partilhem as suas opiniões.

Independentemente dos órgãos de comunicação social para os quais trabalham, estes devem ter cuidado para não prejudicar o órgão e a sua própria integridade enquanto jornalistas. Contudo, o trabalho deve falar por si só. Isto é, um jornalista pode demonstrar posições pessoais acerca de temas nas suas redes sociais, mas o seu trabalho é onde não deve existir enviesamento. Cobrir um tema é dar a conhecer todas as perspetivas e não favorecer algumas posições em detrimento de outras. O jornalismo deve ser independente e os jornalistas também. Todos temos direito a dar uma opinião, a fazer-nos ouvir, a estimular o debate público. Olhar para a realidade e tentar compreendê-la é o que permite a um jornalista que também é um cidadão dar o seu contributo. 

Emily Wilder disse no Twitter que não ficará calada e que não será intimidada em silêncio. A utilização desta rede social permitiu-lhe expor aquilo que se define hoje em dia como cultura de cancelamento. Assim, a jornalista denunciou aquilo que foi um limite imposto à sua liberdade de expressão por uma agência de notícias reconhecida e dita independente. 

Artigo revisto por Miguel Tomás

Fonte da imagem de destaque: Twitter de Emily Wilder

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