Opinião

Refletir sobre a cultura do cancelamento

A sociedade avançou a um ritmo alucinante nos últimos anos, impulsionado pela força das redes sociais e pela velocidade a que a comunicação passou a ser recebida. Estas influências mudaram hábitos e pensamentos. Mudaram subculturas que eram consideradas imutáveis – o machismo e o patriarcado foram mais problematizados –, as piadas homobitransfóbicas já não fazem rir e apela-se, cada vez mais, à coerência a quem vive em sociedade. As práticas de desconstrução social tiveram cada vez mais impacto na vida das pessoas e, com isso, o risco de ser cancelado também. A cultura do cancelamento faz cumprir os seus propósitos?

Sendo um termo vago, de uma forma geral, a cultura do cancelamento é uma manifestação individual ou coletiva de reprovação e de punição como resposta a crenças, a opiniões ou a comportamentos de um nome individual ou coletivo, contrários aos defendidos. Nos dias de hoje, essa manifestação é, essencialmente, digital, mas as consequências são reais.

Nem a globalização veio padronizar modelos culturais e crenças acerca do que é certo e do que é errado. A própria cultura do cancelamento que é expressa sobre as crenças do que é certo e do que é errado poderá diferir em localidades distintas: o que em Portugal poderá ser motivo de cancelamento, noutras referências culturais poderá até ser motivo para alcançar a glória.

Mas foi com a globalização que se estabeleceram espetadores cada vez mais atentos na sociedade. Este comportamento vigilante perante aspetos sociais, políticos e culturais, principalmente em relação a figuras mediáticas, é diretamente alimentado pelo facilitado acesso à informação e por uma comunicação alucinante, também potenciado pelas redes sociais que, de uma forma ou de outra, contribuem para a educação de cada um de nós. São aspetos que alteraram, em poucos anos, a forma como assistimos ao que se passa ao nosso redor, mas também a forma como agimos perante o que vemos.

Os reality shows portugueses são um exemplo desta mudança de mentalidades. Os formatos special living environment regressaram à televisão generalista portuguesa – como é o caso do Big Brother – e têm uma maior interação digital com o público. Os próprios concorrentes receiam a opinião pública e sabem que o mundo de hoje não é o de há 5 ou o de há 10 anos atrás. Nos últimos meses, discutiu-se em praça pública questões como a homofobia, a xenofobia, o machismo e os apelos ao nazismo – alguns destes comportamentos tiveram influência no jogo e outros incendiaram a opinião pública. Nestes casos, a influência da opinião pública levou a expulsões diretas e, no mundo real, os concorrentes enfrentaram uma opinião pública incendiada que, inevitavelmente, trará consequências para as suas vidas.

Do outro lado do Atlântico, também o Big Brother Brasil tem feito correr muita tinta. Várias atitudes consideradas xenófobas e de violência psicológica levaram ao cancelamento da rapper Karol Conká, que não só viu o seu número de fãs descer a pique nas suas redes sociais, como também viu os seus concertos e contratos de trabalho a serem cancelados. Há, até, uma organização coletiva para expulsar a concorrente que ainda está em jogo, com uma percentagem histórica.

Fonte: WeBraga

De volta a Portugal, o humorista Diogo Faro, que se tem evidenciado por posições anti-fascistas e não discriminatórias, esteve recentemente na secção “assuntos do momento” do Twitter por, no contexto pandémico, condenar ajuntamentos de grupos de jovens, mas ele próprio ter participado num ajuntamento na noite da passagem de ano, violando as recomendações dadas pela Direção-Geral da Saúde. A hipocrisia de Diogo Faro criou indignação geral e foram muitos os apelos para o cancelar. O número de seguidores de Diogo Faro nas redes sociais diminuiu de forma considerável e a sua credibilidade enquanto cronista ficou abalada.

Se olharmos em perspetiva, os comportamentos que hoje são socialmente punidos eram antes branqueados com uma apatia geral. Nos reality shows, o preconceito era um requisito para se ser um bom concorrente, mas hoje é um motivo tanto para punições no próprio jogo, como para sanções no mundo real. Provavelmente, até muitos de vós que me estão a ler já toleraram comportamentos que hoje não tolerariam e até se podem envergonhar de algumas coisas que já consentiram.

Considero importante definirmos os nossos limites quando confrontados com discursos completamente distintos dos nossos princípios e que colocam em causa as nossas identidades, o nosso bem-estar emocional e a nossa saúde mental. Num espaço individual e privado, esses limites podem ser estabelecidos como uma espécie de cancelamento, criando um ambiente seguro para nós próprios. No entanto, uns peso e medida são importantes, já que as nossas próprias tolerância e empatia e o nosso próprio espírito crítico são também alimentados quando contactamos diretamente com outras realidades que não estão de acordo com as nossas crenças.

Nos espaços coletivo e público, esse cancelamento atinge dimensões maiores com o impacto socioeconómico. Se por um lado significa uma mobilização e uma união por um objetivo em comum, por outro promove indiretamente a segregação que culmina num sentimento de “nós” versus “eles”. O cancelamento é, muitas das vezes, a primeira escolha coletiva em resposta a um comportamento contrário ao que é defendido. Essa primeira escolha não permite o diálogo e não motiva a discussão pública; pelo contrário, cria desentendimentos em vez de pontos em comum.

Acredito que a interação permite alterar paradigmas; e o cancelamento público contraria esse princípio. Enquanto que cancelar poderá constituir uma parede e não permite acordos, o diálogo poderá construir pontes importantes para a evolução de mentalidades para os patamares pretendidos.

É que, além de o cancelamento não privilegiar a educação, os oportunistas poder-se-ão sempre  aproveitar destes movimentos. O comportamento vigilante que hoje há deve também prevenir o oportunismo, já que os ânimos se exaltam e que o discurso de ódio, a perseguição, a humilhação e o cyberbullying são legitimados, por vezes, com um objetivo distinto em comparação ao do cancelamento.

No caso do Diogo Faro, vi isto acontecer. Achei assustador, porque se de um lado estava um cancelamento de pessoas desiludidas pela hipocrisia de uma pessoa, do outro lado estavam oportunistas com interesses obscuros para, através do cyberbullying e do discurso de ódio, tentar calar uma voz. Uma voz com a qual podemos não concordar sempre, mas que tem a sua importância por ser mediática e por se insurgir contra questões sociais e políticas que colocam em causa a manutenção da democracia e o cumprimento dos direitos humanos.

Foi nesta situação que refleti e que me questionei: devo juntar-me a este movimento, correndo o risco de dar mais força ao oportunismo, ou devo abster-me? Não só não me abstive, como também não me coloquei do lado do agressor. Jamais marcharei ao lado de quem luta contra os meus ideais. Evidentemente, cada caso é um caso, mas vou dar sempre prioridade ao diálogo e à educação a quem me der prova de Humanidade, de humildade e de ambição de se tornar numa pessoa melhor que aprende com os erros; bem como a quem demonstrar uma escuta ativa e uma abertura para absorver novas informações e novas perspetivas. São variáveis importantes que considerarei sempre nestas situações.

A questão que coloco é: acreditamos ou não, como cidadãos e cidadãs, que a educação é a arma fundamental para construir uma sociedade com pontos e objetivos em comum? Queremos calar ou preferimos educar? O mundo está em constante rotação: o nosso espírito crítico aguçou, o acesso à informação está à distância de um clique, mas a esperança na educação não pode ser substituída por soluções rápidas e ineficazes. Devemos, sim, construir soluções coletivas e aplicá-las de forma complementada.

Artigo revisto por Andreia Custódio

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