Opinião

Até onde nos leva o extremismo?

Com a conjuntura política, económica e social cada vez mais incendiada, os polos sociais estão cada vez mais intensos. Há quem diga que “o extremismo não leva a lado algum”. Que agora, nesta aldeia global – e digital – que vivemos, é algo que lemos com mais frequência. Mas será que é mesmo assim?

Antes de mais, responder a esta questão implica que se escrutine o termo. De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa, por extremismo entende-se a “adoção de teorias político-sociais extremas”, o que por si só implica que é uma crença, uma comunicação, um comportamento, uma expressão essencialmente política, com o objetivo de intervir para mudanças na sociedade atual.

Contudo, o extremismo atinge dimensões subjetivas, pois o que é considerado extremo depende de cada pessoa. Aspetos da luta anti-racista ou do feminismo podem ser considerados um extremo, enquanto que aspetos sociais e estruturais racistas ou machistas podem ser considerados também um extremo. Na verdade, estão realmente em polos opostos – e são, nessa lógica, extremos -, mas aquilo a que chamamos extremo, num sentido político, depende também do polo em que nos situamos.

Estes extremos são expressos de várias formas: por vezes, de forma pacífica e, noutras vezes, inflamada. Pacificamente, observamos o associativismo, o direito à reunião, os manifestos e as manifestações, os abaixo-assinados, entre outros. Do outro lado, vemos a violência nas suas diversas dimensões e o vandalismo – este último que só assim é denominado, tendo em conta os conceitos de invasão de propriedade privada e de destruição do espaço público.

No entanto, o que merece a avaliação de extremo pela sociedade não são apenas os comportamentos que das teorias político-sociais resultam, mas também as teorias em si, ou seja, o seu conteúdo e aquilo que defendem. Estas considerações surgem a partir do quadro cultural, dos valores e opiniões que cada pessoa forma, sejam elas fundamentadas no conhecimento científico ou no senso comum.

Tal como na ciência, é importante distanciarmo-nos do que queremos analisar. O ponto de vista, o ângulo de análise, é realmente fulcral para entendermos que aspetos podemos considerar extremismo. Considero que esta é, por isso, uma questão de perspetiva, de tempo, de história. Quantas coisas hoje temos asseguradas – que são direitos nossos – mas que em tempos sofreram grande reprovação da sociedade por serem unicamente analisadas de um ponto de vista do presente?

A sociedade evolui. E acompanhar essa evolução é também analisarmos estes fenómenos numa perspetiva de futuro, ou seja, se o que hoje defendemos é o que queremos para a sociedade do futuro; se no futuro olharemos para trás e, com julgamento, reprovaremos aqueles que estiveram contra esse progresso. Na nossa história, existem vários casos de que foi isto que realmente aconteceu: analisar e avaliar uma teoria político-social apenas de acordo com os valores do presente, em vez de uma perspetiva de construção de futuro.

Fonte da imagem: Pink News

Pedras e garrafas iniciaram a luta pelos Direitos LGBTQI+

Estávamos em 1969, em Nova Iorque, e as pessoas queer – leia-se pessoas não-normativas em relação à sexualidade e ao género – eram ainda perseguidas e violentadas. Apenas 7 anos contavam após a descriminalização da homossexualidade, antes punida com prisão, trabalhos forçados ou pena de morte.

O Stonewall Inn era o único bar gay, em toda a cidade, que se mantinha aberto clandestinamente – através de um pagamento dos proprietários à polícia nova-iorquina. Apesar disso, na madrugada de 28 junho, o bar foi alvo de uma invasão policial que, ao contrário das outras vezes, não correu como previsto. O ambiente ficou tenso e a multidão respondeu com revolta. Voaram pedras e garrafas, o confronto levou a detenções e a polícia foi afastada do local pelos manifestantes que, num sentimento coletivo, quiseram defender-se dos abusos constantes à sua integridade.

Este foi um episódio não só de violência, mas também de defesa que impulsionou o movimento pelos direitos LGBTQI+ e que fez nascer as Marchas do Orgulho em todo o mundo. Esta violência expressou-se, porque a pretensão era alcançar um bem maior, um mundo onde a sexualidade e o género pudessem ser expressados de forma livre, com proteção legal e um ambiente social seguro.

Duas das pessoas que marcaram o episódio de Stonewall e a história do movimento foram Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que – não só pelas suas ideias e envolvimento no ativismo – foram estigmatizadas e rejeitadas, dentro e fora da comunidade. Marsha P. Johnson acabou por ser encontrada morta no Rio Hudson, enquanto Sylvia viveu momentos de solidão até à sua morte.

À luz dos pensamentos de 1969, poderia considerar-se que as pessoas queer eram extremistas – não só por aquilo que pretendiam, mas também pelos seus comportamentos fora da norma. Quem ousasse pensar num mundo onde fosse normal beijar uma pessoa do mesmo género, vestir um trapo associado ao género oposto, sem receber insultos ou sequer poder usufruir de proteção legal contra a discriminação homobitransfóbica era claramente extremista. A verdade é que hoje olhamos para este episódio e sabemos quem esteve do lado certo da história e não fica difícil entender que o extremismo – a ideia defendida – é altamente subjetivo.

Fonte da imagem: Fordham News

Dar o corpo ao manifesto pela igualdade de género

A primeira vaga do feminismo surgiu durante o século XIX e início do século XX, num contexto fortemente patriarcal e que, só por isso, desafiava a estrutura sociocultural que colocava as mulheres numa situação de opressão sistemática. Na maioria dos países, as mulheres não tinham direito ao voto nem à educação – estas que acabaram por ser as conquistas mais significativas da primeira vaga. Além disso, todas as decisões em relação à mulher não eram tomadas pela própria, vivendo sob controlo do homem.

Uma das mulheres que se insurgiu pelos direitos das mulheres foi Olympe de Gouges – francesa que publicou a obra Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que não correspondia, de todo, à igualdade de géneros. Devido às ideias que defendia que, de um ponto de vista, eram consideradas extremistas, acabou condenada à morte na guilhotina.

A partir de 1960, a denominada segunda vaga do feminismo levou à contestação da ideologia da dona de casa, que colocava a mulher num mito de felicidade ao ser submissa ao marido e privada de prazeres da vida, a não ser cuidar da família e do lar: um papel social alimentado pela Segunda Guerra Mundial que começou a ser desmontado um pouco por todo o mundo.

Simone de Beauvoir foi uma das mulheres francesas que, na década de 1940, analisou a forma como a sociedade patriarcal castrava socialmente as mulheres, principalmente através da obra “O Segundo Sexo” – amplamente ignorada quando foi lançada. Beauvoir defendia que “Não nascemos mulheres, transformamo-nos em mulheres”, o que marca o início da desconstrução das caraterísticas biológicas em relação à construção social de género, neste caso, feminino. Estes pensamentos filosóficos e sociopolíticos resultaram na sua rejeição social e em insultos públicos contra Beauvoir.

A par de Olympe de Gouges, Beauvoir foi também considerada extremista, aos olhos de algumas pessoas, pelas ideias que defendia. Hoje, podemos também olhar para estes séculos e entender que Olympe de Gouges e Simone de Beauvoir estiveram do lado certo da história, embora, naquele contexto social, cultural e político defendessem um extremo que hoje é apenas considerado ciência e um contributo para os caminhos que percorremos em direção à igualdade de género. 

Serve a história das lutas LGBTQI+ e feministas para demonstrar que, de alguma forma, o extremismo leva sempre a algum lado – seja para que lado for -, até porque os extremismos não são todos a mesma coisa. O mesmo se poderá considerar em relação aos direitos estudantis, aos direitos das pessoas racializadas ou aos direitos laborais.

Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Olympe de Gouges e Simone Beauvoir são exemplos de como os contextos temporal, social e político influenciaram a forma como foram vistas pela sociedade. Com estas situações, e outras que poderiam ser enumeradas, podemos refletir a forma como avaliamos movimentos ativistas na sociedade.

O que é que a nossa definição de extremo diz de nós? Diz em que polo estamos, pois, a partir do momento em que fazemos uma avaliação desse carácter, posicionamo-nos automaticamente numa linha linear entre um extremo e outro. Por isso, a ideia de neutralidade é quase impossível e irreal, porque a nossa aparente posição neutra nesse espetro linear é também ela uma posição política que pode beneficiar um dos extremos.

Fonte da fotografia de destaque: Institute for Policy Studies

Artigo revisto por Beatriz Campos

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