Opinião

As tradições transformam-se

O progresso rompe cada vez mais, de forma imediata, com normas tradicionais. Isso resulta numa defesa acérrima da tradição, em detrimento de um caminho para uma sociedade que evolui e se transforma de acordo com o conhecimento que vamos adquirindo. O progresso da sociedade não significa, necessariamente, acabar com as tradições. Significa, sim, transformá-las.

            Desde 2019 que o Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra iniciou um processo de revisão do Código de Praxe da Universidade de Coimbra. A 21 de abril deste ano, terminou a etapa de consulta pública com a recolha de sugestões da comunidade académica. Uma das sugestões foi materializada através de uma petição pública com mais de 400 assinaturas, que defendia a possibilidade de qualquer pessoa, independentemente do seu género, optar pelo uso de saia ou calças do traje académico.

Logo surgiram dois lados na história: aquele que defendia exaustivamente a tradição tal como ela é e o outro que defendia a transformação da tradição, tendo em conta a sociedade de hoje. Contra a sugestão apresentada, insurgiram-se essencialmente homens que não só tinham evidentemente uma relação emocional e de proximidade com a praxe e a sua tradição – que lhes foi transmitida -, mas também não perderam tempo em ridicularizar uma proposta que apenas pretende uma praxe mais inclusiva. Uma ridicularização que fez, até, surgir uma petição que pretendia permitir no código da praxe o uso de chinelos e calções por pessoas do género masculino.

Na verdade, a tradição é dos mais autênticos processos de comunicação da nossa sociedade, mas já diz o povo que “Quem conta um conto acrescenta um ponto”. É evidente que qualquer processo de comunicação que passe de gerações em gerações tem especial vulnerabilidade à alteração e transformação da mensagem desse processo comunicacional. Ou seja, inevitavelmente a tradição que se mantém hoje é diferente do seu berço. Significa isto que a defesa da tradição, tal como ela é hoje, é até pretender quebrar o próprio processo natural dessa comunicação, da transmissão dessa mensagem que é a tradição.

Via pela qual os factos ou os dogmas são transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade que essa transmissão.

Definição de "tradição" de acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 

A quebra dessa transmissão é a própria morte da tradição, pois não permite transformá-la e adaptá-la aos tempos de hoje. Pensemos em muitas das questões etnográficas de regiões do nosso país que se perderam no tempo, precisamente porque a tradição não se adaptou aos tempos, não se adaptou aos novos lugares, não procurou novas estratégias.

A tradição não é só um legado; é também o espelho da nossa sociedade atual. De nada nos importa continuar as tradições tal como elas eram, caso estas coloquem outras pessoas ou animais em situação de opressão ou dominação. São muitos os exemplos que podem sustentar a transformação da tradição e o mais óbvio deles todos são as touradas que ainda hoje, no século XXI, acontecem. Tudo em nome da tradição, de um legado que não se quer quebrar para um caminho onde o espetáculo violento seja cada vez menos aceite. Uma tradição com os dias contados por falta de transformação.

Fonte da imagem: Madeira Best

Eu próprio cresci num ambiente sócio-cultural que sempre valorizou muito a tradição. A Madeira tem muitas tradições enraizadas, muitas delas com forte componente religiosa e familiar. Muitas das tradições correm o risco de se perder devido à quebra do processo comunicacional, mas essencialmente porque não se transformaram; outras mantiveram-se até hoje, alteradas, pois claro: acompanharam o lugar e o tempo.

Das tradições em risco de extinção na Madeira estão por exemplo a obra de vime e o Bordado Madeira, artesanato tradicional madeirense. Tradições que pararam no tempo, com cada vez menos profissionais artesãos e artesãs, e consequentemente com cada vez menos adeptos. A não atualização das mesmas levou à não identificação das gerações mais novas com estas tradições, quebrando o tal processo de transmissão.

Desconheço se me defino como tradicionalista, mas a verdade é que acho a tradição dos legados mais importante da nossa sociedade. Sou apaixonado pela descoberta de tradições assentes na nossa sociedade. Defendo a tradição sem sobrepô-la à igualdade, à liberdade, porque transformar a tradição é também respeitar o seu legado – é querer mantê-la. Importa entender que toda a tradição sofre um processo de readaptação, de transformação, e evitá-lo é acelerar a sua extinção.

Na tentativa de defender a tradição, existe uma quebra do próprio processo de comunicação da tradição, como também o de negar, por exemplo, as ciências sociais. Se transformadas, as tradições não se perdem. Transformá-las é a única forma de manter o seu legado, de a manter viva numa sociedade que o tempo também transformou. As tradições não se perdem; transformam-se.

Fonte da imagem de destaque: UC | Marta Costa

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais

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