Literatura

Sara Rodrigues da Costa: “As melhores coisas que escrevo são as mais verdadeiras.”

A ESCS tem talento e Sara Rodrigues da Costa é só um dos vários exemplos disso. Licenciada em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, é autora de dois livros, “Quando a Palavra era um Verbo” e “Próxima Paragem”, e regressou à ESCS para reavivar memórias e conversar com a ESCS MAGAZINE.

sara rodrigues livro

A escrita sempre esteve presente na tua vida?

Foi quando estava na Primária que comecei a querer escrever. Houve um concurso na escola, em que tínhamos de escrever um poema e ler esse poema num evento, e escrevi um poema chamado “Livro”, que foi, provavelmente, o primeiro poema que escrevi e ganhou. A partir daí fui sempre escrevendo, claro que de um modo infantil, mas escrevia imensas histórias de fantasia. Na adolescência, naquela fase mais parva, acho que houve um período em que deixei de escrever tanto. Depois…tinha um tio, que era poeta, e na altura em que ele morreu voltei a pegar no que tinha escrito.

Daí também uma relação mais próxima com a poesia?

Sim, o meu primeiro livro é de poesia e acho que é o que escrevo mais e que sai mais facilmente e ter um poeta na família acabou por ter alguma influência. Era um tio que, apesar de viver longe, motivava imenso, por mais infantil que fosse o que escrevia.

Como é que Relações Públicas e a escrita se juntam?

Confesso que o lado das Relações Públicas de que gostava mais era o lado que me obrigava a escrever mais. Depois fui percebendo como podia interligar a área que tinha escolhido com escrever.

A ESCS teve alguma influência na forma como escreves agora?

Sim, muito. Adorei a cadeira de escrita e a de Criatividade das Organizações e havia uma professora que escolhia os melhores trabalhos e lia em voz alta. Isso começou a puxar para que eu quisesse escrever melhor.

Para o teu segundo livro, “Próxima Paragem”, fizeste uma campanha de crowdfunding…

Achei que não ia resultar… Tinha acabado de sair de um emprego e não estava numa situação muito estável para investir num livro e lembrei-me de experimentar. No site tens de pôr um objectivo mínimo e pus metade daquilo de que precisava porque nunca pensei conseguir o dinheiro todo. Funcionava quase como uma pré-reserva do livro: quem contribuía recebia um livro, não ia pagar mais por ele. Insisti tanto em divulgar a ideia que acho que o livro chegou a pessoas a quem dificilmente chegaria de outra forma, porque houve pessoas que contribuíram que eu nem sei quem são ou como chegaram ali.

Mas foi um esforço feito por ti… A publicidade ainda falha muito em Portugal?

Acho que quem escreve tem de fazer esse trabalho — claro que há editoras que ajudam mais — de publicidade do próprio livro. Para mim foi bom ter andado na ESCS, porque usei conhecimentos e ajudou imenso.

Notas que as pessoas lêem menos e têm menos interesse em comprar livros?

Na nossa geração, acho que sim. Não tenho muitos amigos com quem discuta os livros que leio. Lembro-me de quando andava na ESCS e estar a fazer um trabalho e do meio de um caderno saíram umas folhas onde tinha um poema do José Luís Peixoto, que adoro, e as pessoas do meu grupo ficaram a olhar para mim quase a dizer “ler poemas? Que estupidez!”. Nas gerações mais velhas até há um certo interesse pela leitura, mas acho que o facto de haver menos dinheiro limita as decisões de compra: muito mais facilmente se investe num escritor que já se leu ou que é mais conhecido do que em novos autores.

Isso influencia a forma como escreves?

Tento abstrair-me porque, nesta fase, se for pensar muito nisso não escrevo. Não estou à espera de que os meus livros vendam muito. Surpreenderam-me, mas sei que parte das vendas é muito para família, amigos e pessoas a quem a família e os amigos disseram. Daqui a uns anos, sendo um objectivo meu viver da escrita, irei pensar mais na parte monetária, mas, para já, não.

Fernando Pessoa dizia que “o poeta é um fingidor”… Achas que os escritores são assim?

Depende dos escritores. No meu caso, eu consigo escrever uma coisa que, se calhar, não estou a sentir mesmo, mas acho que se nota. As melhores coisas que escrevo são as mais verdadeiras. Mas acho que os escritores conseguem disfarçar muito bem; conseguem pôr coisas que lhes são verdadeiras completamente camufladas.

Que conselhos deixas aos jovens que querem uma carreira na escrita?

Investir, mas não numa perspectiva de que renda dinheiro já. Se for para investir na escrita como profissão, vejam isso como um projecto a longo prazo. A literatura não acontece do dia para a noite, nem a publicação de um livro. Desde que se goste, acho que se chega lá; têm é de ler e escrever muito. O resto virá por acréscimo.

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Sofia Costa Lima nasceu em Trancoso, em 1994. Estuda Jornalismo e é apaixonada por escrita. Tem um blog pessoal desde 2009 e publicou dois livros — em 2013 e 2014. Colabora com a Associação Juvenil de Trancoso desde 2013, fazendo parte da equipa responsável pelo Jornal Escrever Trancoso.

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