Opinião

Raios partam as pessoas que amamos por terem de morrer

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar?”

Não sou eu quem o questiona, é Miguel Esteves Cardoso. Se calhar, até podia ter sido eu a escrever isto, à minha maneira, porque o senti e sinto. Este foi dos primeiros textos sobre a morte e sobre o processo de luto que li depois de eu própria ter sofrido na pele a perda irreparável de alguém que amo. No humor que lhe é (re)conhecido, Esteves Cardoso diz-nos aquilo que não sabíamos que precisávamos de ouvir.

Antes de mais nada, quero relembrar como o processo de luto é diferente para todos – tendo em conta fatores como a idade, a personalidade, a fase de vida, o tipo de relação com o falecido, a idade do falecido, a causa da morte. Por essa razão, tudo aquilo sobre o qual vou falar diz respeito àquela que tem sido a minha experiência de luto. Penso que a mesma é incomparável à perda, por exemplo, de um filho, ainda por cima na flor da idade. Apenas vou falar daquilo que sei. Não quero, de todo, dar-vos uma entrada no Diário dos Oprimidos, mas acho que existem certos assuntos que, a bem ou a mal, ainda hoje são evitados a quase todo o custo. A morte é um deles.

É certo que não tenho grande moral para estar a dizer isso, pois eu própria também evito falar sobre a perda que sofri. Dizem que, com o passar do tempo, acaba por doer menos e talvez até por passar. Para mim, isso são tudo balelas, porque ainda dói como se eu tivesse acabado de receber a notícia. Bem, vamos por partes.

Nas culturas ocidentais (e.g. países da Europa Ocidental e América do Norte), onde predomina a religião católica apostólica romana, lida-se com a morte de uma forma – permitam-me – sadomasoquista. O funeral é um ritual sombrio que nos dá a volta ao estômago. A morte é parte integrante da nossa condição humana, assim como o sofrimento que lhe está associado, principalmente quando se trata de alguém próximo de nós. Mas, tendo em conta que todo o processo de luto já é doloroso o suficiente, será que o último adeus a quem amamos precisava mesmo de ser assim tão dilacerante?

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O luto pode ser um processo bastante solitário.
Fonte da imagem: choice.npr.org

Se na nossa cultura este é um momento moroso de lamento e de pesar, na África Ocidental, por exemplo, mais precisamente no Gana, há danças, cantos e banquetes. O morto é enterrado da forma mais breve possível. Lamenta-se a morte, mas, ao mesmo tempo, celebra-se a vida do falecido. Até os próprios caixões podem ser personalizados consoante a profissão ou qualquer outra coisa que representasse a pessoa que faleceu: um carro, um avião, uma viola, um animal. Ato excêntrico ou leviano? É uma questão de cultura, pois claro.

A morte é sempre uma grande chatice. Nós é que escolhemos a forma como decidimos lidar com ela, seja a nível coletivo, seja a nível individual. Ora, com isto não quero sugerir que andemos todos a cantar sempre que morre alguém, mas transmitir que o facto de nem sempre sabermos como gerir as emoções que a morte provoca é também fruto da cultura em que vivemos – e onde, muitas vezes, também existe esta mania maldita de meter o bedelho no processo de luto alheio, como se já não fosse suficientemente horrível perdermos alguém e lidar com toda a turbulência de sentimentos que isso suscita em cada um.

O luto é como uma opinião: cada um tem a sua. E, já que falamos de opiniões, de nada vale dizer a alguém que acabou de perder uma pessoa que ama “olha, a vida é assim!” (obrigada, caro Sherlock) ou tentar decidir o que é que essa pessoa deve ou não fazer – “tens de sair e de te divertir, a vida continua!”, “não acredito que o funeral foi ontem e já estás a fazer a tua vida normal, como se nada fosse!”. Ainda hoje é muito difícil para quem não passa por esta situação compreender que o luto é um processo individual e íntimo que depende de pessoa para pessoa, tendo em conta todos aqueles aspetos que mencionei anteriormente. E não cabe a ninguém julgar a forma como o luto é feito, pois só à própria pessoa diz respeito (àquela que ainda se encontra viva, claro está).

Como é que se esquece alguém que se ama?
Fonte da imagem: The New York Times

Garante a Psicologia (e poderá ser comprovado por alguém que já tenha sofrido uma perda próxima) que o luto – ou aquilo a que podemos chamar, com palavras mais pomposas, “processo de cicatrização emocional” – é feito de diferentes etapas. Em primeiro lugar, temos o período de negação, durante o qual se recusa a acreditar que aquilo que aconteceu é verdade. Depois, aparece a fase da revolta e da raiva (“Porquê a mim/nós? Porque é que não consegui fazer nada?”) e aí pode ser difícil relacionar-se com as pessoas que nos rodeiam. Posteriormente, surge o período de negociação, ou seja, chegamos à conclusão de que a raiva que sentimos não tem o poder de alterar nada e que a negação só nos vai dificultar o resto. É a fase na qual podemos começar a adquirir alguma paz interior e a retomar a nossa rotina. Procura-se dar tempo e espaço ao coração para, a seu tempo, acalmar.

No entanto, não ficamos por aqui. Chega-nos a quarta e mais delicada fase do processo de luto: a depressão. Percebemos que nada mesmo voltará a ser como dantes e que a pessoa nunca mais irá voltar. Podemos beliscar-nos vezes sem conta que nada se alterará. Promete-se aos sete ventos que se desistirá de todos os nossos projetos e sonhos, pois já nada mais faz sentido. É um momento de profunda reflexão e de crises de choro, associados às lembranças da pessoa que se perdeu. Depois da tempestade parece vir a bonança e, por último, surge a etapa da aceitação. É uma etapa de maior tranquilidade, em que se consegue pensar naquilo que aconteceu com alguma serenidade e com alguma distância.

Todas as cinco etapas do luto são necessárias.
Fonte da imagem: Pinterest

Quando me morreu uma das pessoas mais importantes da minha vida (note-se que o “me” é propositado, porque, com a sua partida, também partiu parte de mim), há cinco anos, eu estava a semanas de completar dezanove. Também eu passei por várias fases. O coração parecia que me ia saltar pela boca, zanguei-me, quis desistir de tudo, já nada parecia ter a importância (boa ou má) que lhe dava, prometi-me a mim mesma que ia viver de maneira diferente. Acho que foi a única altura da minha vida em que eu, adolescente que nunca fora problemática, realmente preocupei a minha mãe (desculpa, mãe).

Foi ao conhecer outras experiências de luto como a minha que percebi que afinal eu não era um caso assim tão perdido. Deve-se recordar que estas cinco fases não são assim tão lineares, não têm de ocorrer necessariamente nesta ordem e, mais importante, podem ser cíclicas. Hoje, apercebo-me de que o luto é uma coisa muito estranha. Tão depressa estás bem e a sorrir com as memórias (que são apenas isso, memórias, à falta da pessoa que amamos e de quem temos saudades), como estás a chorar desalmadamente e “Ai-meu-Deus-o-que-é-que-eu-fiz-para-merecer-isto”.

No meu caso, e passado todo este tempo, basta-me falar da pessoa que perdi (atenção que nem digo pensar) para começar a chorar que nem uma criancinha. Porque ela continua a habitar na minha cabeça e no meu coração. Porque a sinto sempre, sempre, sempre. E falar disso torna a perda muito mais real. É uma coisa estranha, realmente, pois ao falarmos sobre isso materializamos a perda. Sabemos que não podemos passar a vida a evitar falar da morte, mas, por vezes, é mais forte do que nós (lá está, eu bem avisei que não tinha grande moral). É a finitude que me assusta e é muito difícil ultrapassar o facto de que a pessoa que perdi, simplesmente, não está. Nem nunca mais estará.

O que é que eu fiz para superar a perda? Na verdade, não fiz grande coisa. Esqueci tudo aquilo que pensei que sabia sobre o processo de luto. Nunca se está verdadeiramente preparado. O que vos quero dizer é que não há fórmula mágica nem milagre algum para o processo de luto. No seguimento do que disse no parágrafo anterior, claro que há quem diga que se deve continuar a falar da pessoa, que se deve estimar todos os momentos que tivemos oportunidade de partilhar com ela, que se deve honrar todas as memórias, bla bla bla. Claro que tudo isso, para alguém que tenha acabado de perder uma pessoa que se ama, pouco ou nada serve. Porém, prometo-vos que, um dia, quando a dor amenizar um pouco, o coração tiver tempo para se auto-curar e a razão parar de se confundir com a emoção, isso começa a fazer um bocadinho de sentido. Não totalmente, mas um bocadinho. Há que saber aceitar que, quando se ama, a perda é sempre algo que virá por acréscimo. Vai fazer sempre parte de nós. E não há nada que possamos fazer para o evitar, a não ser que sejamos criaturas frias despojadas de sentimentos.

Existem várias maneiras de lidar com a perda. Para mim, escrever é uma delas.
Fonte da imagem: The New York Times

O que se faz para se esquecer alguém que se ama quando a nossa própria existência nos lembra essa pessoa? Como é que nos podemos consolar quando a única pessoa capaz de o fazer foi aquela que partiu? O processo de luto pode ser muito solitário, mas exteriorizar a dor da perda junto de pessoas em quem confiamos e que já tenham passado pelo mesmo – pessoas que não vão estar com “paninhos quentes” sobre o assunto e que vão dizer as coisas tal e qual como elas são, por mais cruas que possam ser – pode ser uma ajuda. É, por isso, sempre importante que quem já tenha sofrido uma perda dessa dimensão também não descure a dor dos outros e procure ajudar outro familiar, amigo, conhecido, desconhecido caso ele se encontre nessa situação.

Lembro-me de tudo como se tivesse sido ontem e, às vezes – fazendo, claro, jus à nossa cultura sadomasoquista –, meto-me a pensar em tudo isso, as imagens a decorrerem na minha cabeça em loop. Uma coisa vos garanto: pensa-se que se vai morrer de saudades. Mas não se morre. No entanto, é muito importante, caso sintamos que não conseguimos lidar com o processo sozinhos, procurar ajuda especializada. Não há que sentir vergonha, nem culpa. A partida definitiva de alguém que amamos é, muito possivelmente, a coisa mais dura pela qual um ser humano pode passar. Não podemos comparar a nossa perda à das outras pessoas. Não se aprende a lidar com a morte como se aprende Matemática ou Português. As coisas são como são e cabe-nos a nós aceitá-las (ou fazer o esforço para).

Por isso, se, por um lado, és daqueles que tem a mania de julgar a maneira que os outros têm de lidar com a sua própria dor, o conselho que te posso dar é ficares de bico calado; se, por outro lado, sofreste uma perda e te sentes, de certa forma, culpado/a em relação à forma como estás a lidar com isso, esquece isso. Demora o tempo que precisares, faz o que tiveres de fazer. Aqui, permito-me voltar a citar Miguel Esteves Cardoso: “O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar”.

E porque é que tudo isto acontece? Porque se morre. Isto só dá trabalho. Raios partam as pessoas que amamos por terem de morrer. O melhor remédio para superarmos a sua perda é amá-las o melhor que pudermos enquanto são vivas e, quando já não são, agradecer o simples facto de, nos 4,5 mil milhões de anos de vida na Terra, termos tido o privilégio que as nossas existências se tenham cruzado.

Fonte da imagem de destaque: intouch.org

Artigo revisto por Ana Janeiro

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Uma pessoa de muitas paixões. Por isso, licenciou-se em Informação Turística, está a terminar o Mestrado em Jornalismo e quer tirar Doutoramento em História Contemporânea. A ideia de ter uma só carreira durante a vida toda aborrece-a. A Inês gosta de escrever, de concertos, dos The Beatles, de Itália, de conduzir e dos seus cães. Sonha em visitar, pelo menos uma vez, todos os países do mundo.

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