Literatura

“Sete Anos no Tibete” – O tecto do mundo

Fugiu da prisão, andou milhares de quilómetros a pé pelos Himalaias e entrou onde mais ninguém conseguiu. Foi professor e amigo de Dalai Lama e defendeu a causa tibetana como nenhum ocidental. Heinrich Harrer escreveu as histórias desses sete anos, que são a prova de que um homem é capaz de atravessar até as barreiras mais intransponíveis – físicas e, acima de tudo, espirituais.

O alpinista Heinrich Harrer fugiu, em 1944, de um campo de prisioneiros britânico na Índia, na altura parte do Reino Unido. Explodia a II Guerra Mundial e todos os cidadãos de países inimigos foram capturados como prisioneiros de guerra. Depois de fugir para o Tibete, enfrentou desafios sobre-humanos. Só após sete anos saiu de lá (por causa da invasão chinesa). No fim, escreveu um livro.

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A narrativa de “Sete Anos no Tibete” é impressionante: desde que a expedição é capturada enquanto subia o Nanga Parbat, um dos picos mais altos dos Himalaias, até à fuga engenhosa do campo de concentração vamos conhecendo o protagonista, mas ele só se nos revela completamente durante a viagem. O relato quase a faz parecer fácil, mas basta tentarmos imaginar-nos a fazer um décimo das aventuras do fugitivo para percebermos o seu carácter heróico.

Rapidamente, Harrer está no Tibete e chega a Lassa, a cidade proibida, capital do ainda livre país. O livro está repleto de episódios deliciosos que descrevem a vida do povo tibetano ao pormenor e que levam o leitor a ganhar novas perspectivas sobre um dos momentos da história que ainda hoje é actual – a invasão do Tibete pela China.

Ao longo dos capítulos, novas tarefas ocupam os ‘estrangeiros’ que a cidade de Lassa acolheu, mas o ponto alto da história será, certamente, o início da relação entre Harrer e o Dalai Lama (que, aliás, assina o prefácio da obra sublinhando a importância deste livro e do escritor para a causa da libertação tibetana). Na altura com quinze anos, Tenzin Gyatso pediu a Harrer que lhe ensinasse tudo sobre o mundo ocidental. É nestes encontros que vamos conhecendo um dos grandes líderes espirituais da actualidade e a forma como o país mais pacífico do mundo era governado.

A escrita é essencialmente descritiva. Fica a cargo do leitor imaginar os diálogos e os pormenores dos momentos que o protagonista vai relatando a partir das notas do seu diário. Por outro lado, é um texto muito cinematográfico e não é preciso (apesar de interessante) ir ver o filme homónimo (de Jean-Jacques Annaud, 1997) para visualizar as cenas de cada episódio.

É um livro autobiográfico – e uma das mais apaixonantes histórias de viagens de sempre – que faz o leitor questionar-se sobre o passar do tempo e deixa certamente em cada um a vontade de, como Harrer, conhecer os segredos e os recantos do “tecto do mundo”, uma das suas mais belas regiões.

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