SNS e o suicídio

Não saber que o Sistema Nacional de Saúde é lento é como não saber que data é 1143: é sinal de que não se é bom português. A lentidão recorde deste sistema não é novidade, mas em determinadas situações esta característica passa de irritante para muito perigosa. Vou omitir todas as situações em que pacientes com possíveis cancros têm de esperar meses por consultas, arriscando o desenvolvimento dos mesmos, e focar-me apenas nas consultas de psicologia. 

Confesso que até ter uma pessoa próxima nesta posição, nunca tinha pensado no grande problema que é o passo lento do SNS nas questões psicológicas. Uma pessoa com historial de consultas de psicologia, com tendências suicidas e hábitos de autoflagelação chega a esperar três meses por uma consulta tida como urgente. Imediatamente, penso no que uma pessoa neste estado pode fazer nesse tempo…

Chegar ao ponto de pedir ajuda não é fácil. Conseguir fazê-lo e receber uma carta, já de si atrasada, a dizer que o passo de coragem vai ter de esperar? Que chapada de luva branca.

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Reconheço a sorte que temos por vivermos num país com um Estado-Providência, que, melhor ou pior, nos garante apoio à saúde.  Por mais que o sistema não seja perfeito – e por vezes nem haja o esforço para assim o tornar -, sei que muitos não têm este privilégio e que vivem com medo de adoecer não apenas por causa do seu bem-estar, mas porque não têm forma de pagar a cura. No entanto, há cenários em que o SNS pura e simplesmente tem de melhorar, porque, não o fazer, pode custar vidas. 

A todos aqueles que sentem que ninguém se importa, se desaparecerem, não podemos dar uma carta que afirme que não são prioridade. Por que motivo temos manifestações “pró-vida” em relação à eutanásia e ao aborto, mas temos tanta dificuldade em falar sobre doenças mentais e a crescente taxa de suicídio? Cada vez mais adolescentes e homens de meia idade optam por tirar a sua própria vida e é necessário que o sistema se adapte. O estigma à volta da autoflagelação e depressão não pode causar inércia no SNS.

Não morre de igual forma um jovem admitido nas urgências hospitalares por um qualquer acidente como morre por suicídio? Diria que as duas situações exigem apoio urgente. 

Em três meses muito pode acontecer. Muito silêncio se pode instalar. 

Se precisas de falar ou sabes de alguém que precise, existem inúmeras linhas de apoio que te podem ajudar enquanto não tens um psicólogo fixo. Experimenta a SOS Voz Amiga. Atendem entre as 16h e as 24h através de qualquer um dos seguintes números: 213 544 545, 912 802 669 ou 963 524 660.

Artigo corrigido por Ana Rita Sebastião

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