oDar um tempo é mais difícil do que parece. Somos nós que impomos os prazos mais importantes. Quando é que é suposto já termos decidido o que queremos fazer da vida e com que idade esses sonhos devem ser planos postos em prática? Qual é a idade limite para já termos conhecido alguém especial? Qual é o prazo de validade desse relacionamento? Talvez tenhamos sido condicionados pelo que vivemos, ou talvez essa seja apenas a natureza humana.

Os nossos parentes têm sempre uma forma de chamar a nossa atenção para a passagem do tempo. As perguntas deles vão mudando, mas pressionam sempre os nossos próprios prazos. As tias sabem como te dizer que já era suposto estares com alguém. Os pais sabem exigir que arranjes um emprego. Para as mães, entretanto, o tempo não passa: és sempre uma criança, mesmo quando não queres. De facto, há dias em que era preferível teres cinco anos a teres vinte e poucos.

Irmãos e primos vivem na dimensão temporal em que tu estás. Vocês evoluem juntos e por isso parece que ontem estavam a brincar pelo quintal da avó. Num piscar de olhos estão todos nos seus trabalhos – mas continuam a ser as mesmas pessoas pequeninas por dentro. O relógio para na presença deles, pois ainda riem como miúdos. E essas gargalhadas são a melhor maneira de te conheceres a ti mesmo. Mais ainda do que pelas tuas metas e prazos.

O tempo muda também as tuas amizades. Algumas ficam cada vez mais fortes, enquanto outras pouco a pouco desaparecem. Os gostos deixam de ser parecidos, ou pelo menos não o suficiente para manter a amizade próxima. As formaturas tentam separar as amizades também. Caminhos são escolhas muito subjetivas, e por vezes terem crescido juntos não significa que chegarão ao mesmo lugar simultaneamente. Por vezes é mais fácil fazê-lo com quem acabaste de conhecer. Não têm os costumes do tempo aos quais devem ser leais, ou uma imagem para manter. É só o momento – enquanto ele durar.

Mas, como disse lá no início, nós somos quem mais impõe pressão sobre o nosso tempo. Não deixamos calendários serem só calendários. Fazemos com que a passagem dos segundos no relógio seja motivo de stress. E tudo isso por objetivos sobre os quais às vezes nem queremos pensar. Como viver normalmente quando estás sempre a exigir mais de ti?

Comparar a forma como estás com as expectativas que tinhas é, na minha opinião, ainda mais perigoso do que comparar com outros. A verdade é que raramente tais expectativas advêm de factos certos mas, mesmo assim, parecem tão reais no nosso imaginário. Podes ter vivido as mesmas situações que os teus amigos e familiares e por isso não consegues compreender o que é que te fez ter um resultado diferente. Mas quem é a pessoa que vês quando pensas em como estarás daqui a, por exemplo, 5 anos?

Passamos mais tempo a fechar os olhos para encontrar quem queríamos ser, para encontrar as nossas metas, do que com os olhos abertos para os objetivos já alcançados. Tanto é assim que chega até a ser difícil descansar quando nos deitamos. É tão melhor estar presente, por mais que te custe largar das versões mirabolantes.

Quando me perguntam se eu tenho alguma promessa de Ano Novo, devo dizer que tenho várias. Queria aprender outro idioma, tocar um instrumento, conhecer novos lugares e novas pessoas. O que eu preciso, porém, é parar de fazer promessas para um calendário que acabámos de abrir. Por isso eu larguei as listas e alarmes. Deixa o momento chegar e então logo vemos o que é que se faz com ele.

Artigo revisto por: Andreia Jesus

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