Um excesso de lives

A quarentena criou novas profissões. Não me refiro aos YouTubers e aos podcasters que descobriram um dom especial para tal, ao encontrarem-se trancados em casa. Não é também sobre os confeiteiros, bodybuilders e artesãos que preenchem os storys com os seus mais recentes feitos. Este artigo é dedicado à nobre função sem a qual não sei o que seria a internet. Sim, a patrulha das lives

Existe um grupo muito requintado de pessoas, verdadeiros intelectuais, que cede o seu nobre tempo à inspeção de redes sociais para ver se, por acaso, os malandrinhos estão a abusar. Para facilitar o seu trabalho, têm as notificações ativadas e dizem logo à Maria e ao Zézinho que parem já com os disparates, porque isolamento social estende-se ao Instagram. Não há vivalma que escape ao seu escrutínio, e rapidamente se desfaz o direto. 

Às vezes, os patrícios da idade moderna prestam a sua contribuição indiretamente, em status e tweets próprios que meros mortais se esforçam por entender. “Eu só gostava de abrir a app e não ter de dar de caras com o direto de fulano!”, diz a beldade que segue com afinco o transgressor. Como ousa usar uma das opções de partilha desta rede social? Até parece que vive em democracia, ou sei lá o quê. 

Também conhecemos os fiscais dos profissionais, uma extensão do governo ainda por este não reconhecida – mas um dia há-de ser, com medalhas, condecorações e nenhuma cobertura mediática (Deus que os livre!). É que há uma malta esperta que decidiu dar aulas gratuitas em lives. Veja só se é possível! Todos em casa, sem fazer nada para além de teletrabalho, telescola e tele-aborrecimento e esses engraçadinhos vêm trazer ao público novas competências para os seus currículos e hobbies? É que já roça o absurdo. 

Estão a tomar conta dos feeds os degramados comediantes, autores, músicos, atores, pintores, artistas, chefs, psicólogos, professores, dançarinos, padres, o Papa… Sim, o Papa! Quem terá dito que isto era permitido, num mundo liberal, com direito a livre expressão? Afinal quem foi que lhes disse que podiam usar as suas contas para proporcionarem cultura, entretenimento, passatempos, saber e lazer? 

Só podemos agradecer à sempre alerta patrulha desta soberana classe de indivíduos, que, não só não gosta de lives, como quer que não gostemos. Estão a fazer-nos um favor em pedir o fim do favor dos outros. Aliás, estão a ajudar-nos a atrapalhar quem quer um direto. Obrigada! Podiam, sei lá, só não assistir. Mas decidiram clamar pelo seu fim. Dedicaram energia e tempo preciosos para isso, e agora temos uma legião de baby-sitters do conteúdo, que definem o que pode sair o que não tem direito a diretos.

Artigo revisto por Ana Cardoso

Fonte da imagem em destaque: Hotmart

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