7ª Arte

Voo 93: Um voo documental

Grande filme americano, logo sobre um tema que é “uma ferida a céu aberto” na sociedade americana. É mais do que um relato do 11 de Setembro ou um filme de aviões; é o medo visceral que mais nos convence.

Do 11 de setembro, evento definidor deste século, já muito sabemos. A cultura pop não nos deixa esquecer. Os media relataram de forma quase insana o evento. A título de curiosidade, a emissão em direto da CNN na manhã do ataque, disponível no YouTube, é um excelente exercício de relato da crueldade humana; as perplexidades dos jornalistas ainda nos deixam “sem jeito”.

A base do filme gira à volta do Voo 93: Quatro jovens de origem árabe embarcam no voo da United Airlines com destino final a São Francisco com a intenção de o desviar. O sequestro dura aproximadamente 91 minutos, tempo esse que o realizador Paul Greengrass utiliza para transmitir a angústia dos eventos que vão sendo lançados. Aqui falamos dos ataques às torres gémeas com um olhar forte, mas não rendido a sentimentalismos. Para isso, o realizador usou como base os telefonemas dos passageiros do voo para os seus familiares, gravações de pilotos e relatos oficiais do sucedido. É por isso que não podemos estranhar o tom quase documental do filme – essa é uma das suas grandes vitórias.

Fonte: World of Movies

Greengrass, britânico de 65 anos que no seu currículo assinou três dos filmes de Bourne, onde explora os meandros da complexidade narrativa aliada à correria desenfreada de cenas de ação. É dele também o filmeDomingo Sangrento”, com o qual ganhou o urso de ouro em Berlim. Nessa adaptação, aborda o domingo de 1972 quando polícias britânicos dispararam contra uma multidão de manifestantes em Derry. Mais recentemente, assinou “22 de julho”, filme sobre os ataques de Anders Breivik, na Noruega. Tanto “Domingo Sangrento como “22 de julho partilham com o “Voo 93” o tom quase documental. Os filmes abordam acontecimentos reais e marcantes; é com isso que Greengrass joga também: a adaptação de momentos marcantes da sociedade. 

Paul Greengrass, foto de Dave J Hogan. Fonte: gettzimages.com

Há que dar o devido destaque ao elenco. Caras pouco conhecidas do mainstream, mas que cumprem de forma exemplar o papel que Greengrass lhes propõe. Não há uma personagem principal como no comum dos filmes. As diferentes “cenas”, cada uma a seu ritmo, dificultam o destaque de determinados “nomes”. É um filme alérgico ao individualismo. Se nos obrigassem a dar um destaque em termos de atuação, difícil sempre por culpa da coesão do filme, seríamos “obrigados” a congratular o grupo de terroristas com uma “menção honrosa”. A transposição do medo deles para a tela é feita com uma simplicidade e sinceridade a que não estamos habituados. Sim, o medo não tem apenas um lado.

É incrível a sequência em que, no posto de controlo do tráfego aéreo, os responsáveis se dão conta de que os aviões são uma arma que será disparada em direção ao coração da sociedade americana.

Uma das coisas mais bem conseguidas do filme é a sua capacidade para antecipar a tensão dos momentos determinantes daquele fatídico dia. Dá-nos a conhecer um medo que acaba por tomar conta de nós. Desengane-se quem pensa que este é o clássico “nós contra os bárbaros”.  Apesar da tradição “hollywoodesca”, Greengrass não abusa da demanda clássica entre o bem e o mal.

E, no fim, Greengrass não falha ao mostrar o momento de oração, do lado dos terroristas e dos passageiros. Diferentes “missões” e “motivações”. Tratadas de forma distante e sóbria – denominador comum de todo o filme.

Artigo redigido por Luís Carvalho

Artigo revisto por Lurdes Pereira

Fonte da imagem de destaque: Cinecartaz