“Desgraça”, o terceiro disco de Miguel Marôco
Miguel Marôco não é um nome estranho para quem acompanha a nova vaga de músicos que integram o universo Cuca Monga.
Com o lançamento de Desgraça, a 10 de abril, o compositor revela um olhar pessoal e introspetivo sobre a vida boémia, as contradições que a acompanham e a clareza que surge depois da mesma.
O conceito de hotel imaginário conduz toda a experiência. Da narração acolhedora (e simultaneamente inquietante) de Madalena Tamen no check-in, até ao desfecho orquestral que nos conduz à saída– check-out –, o ouvinte é convidado a ser hóspede das emoções do artista. É um disco sobre estar acompanhado e estar só; sobre o ruído do bar e o silêncio do quarto.
É neste cenário de hotel que Marôco desenha o seu terceiro longa-duração, uma tapeçaria rica onde bebe da sofisticação harmónica dos Steely Dan e da soul de Michael McDonald, mas não tem medo de mergulhar no funk de Sly Stone ou na escrita confessional e boémia de um Jorge Palma, como em Impostor e Vida de Estrada. Esta mistura resulta numa sonoridade “pop aventureira”, juntando o jazz e a fusão sintetizada.
Desgraça vive de contrastes. Se por um lado temos a energia festiva de Farra & Folia, com a colaboração de Zé Maria, por outro encontramos uma vulnerabilidade crua em temas que exploram a solidão e o peso das expectativas, como em Cada um por si.
Já Graça transporta-nos até Macau, fruto de uma viagem com os Capitão Fausto. Entre o fumo e as luzes de um bar local “manhoso”, o músico encontrou a inspiração para o tema ao conhecer Grace, a funcionária do bar. «Havia uma energia muito misteriosa no ar», confessa Marôco, explicando que a canção procura não só narrar a vida dessa pessoa, mas acima de tudo «capturar a sensação de estar naquele sítio».
Segue-se Daphne, «inspirada vagamente num desastre amoroso que desapareceu sem deixar rasto». Apesar da premissa melancólica, o resultado é uma canção divertida e dançável, marcada por uma harmonia fresca que culmina num solo de Moog.
Nesta exploração de personagens e sentimentos, encontramos também Clichês. Escrita de forma «despretensiosa e até em jeito de brincadeira», a faixa, que começou pela ideia de compor um standard romântico, acabou por vir a esconder uma dualidade: o que começa por parecer um romance idílico revela-se, afinal, ser uma narrativa de contornos obsessivos. Musicalmente, Marôco descreve-a como uma «modernização da sonoridade da Motown, aliada à língua portuguesa».
Selvagem retrata uma paixão intensa e caótica, caracterizada por emoções avassaladoras e pela falta de ternura, terminando em arrependimento.
O disco conta ainda com mais uma colaboração – Nuvem, com Justin Stanton, dos Snarky Puppy, que acrescenta mais camadas a esta narrativa.
Ao aproximarmo-nos do fim da estadia, surge a penúltima faixa, a vulnerável e dançável Sayonara (meu amor), descrita pelo artista como uma das suas criações mais pessoais e íntimas. Esta surge como uma despedida, selando as vivências dos últimos anos.
Todas as faixas, à exceção de Check-in, são da autoria do cantautor, que assina também a produção e os arranjos do disco. A masterização é de Pedro Joaquim Borges e a mistura é de Gonçalo Bicudo.
A par do lançamento do disco, o cantor foi um dos vencedores do concurso Talentos Ageas Cooljazz By Smooth FM 2026, distinção que celebra a sua criatividade e consistência artística, atuando no palco Cascais Jazz Sessions by Smooth FM no dia 31 de julho.
“A Desgraça recebe-o de braços abertos”. A discografia de Miguel Marôco pode ser ouvida em todas as plataformas digitais.
Fonte da Capa: Simão Pernas
Artigo revisto por: Carla Vitório
AUTORIA
A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e para aperfeiçoar a sua escrita e a dos outros em Correção Linguística. Sem dar por isso, a Magazine tornou-se muito mais do que o lugar onde apenas escrevia. Um ano depois de entrar, tornou-se Editora de Música e, no seguinte, Vice-Diretora.
Ao longo de três anos, escreveu muito, aprendeu ainda mais e colecionou experiências que vão muito além dos artigos publicados. Despede-se da Magazine com a certeza de que esta foi uma viagem muito bonita. Quanto ao resto, basta dizer que se houver música a tocar há uma boa hipótese de estar por perto.



