7ª Arte

Teresa Villaverde: Do colo às ruas

Tinha acabado de atingir a maioridade quando ouvi pela primeira vez o seu nome ser referido numa aula de cinema português aberta ao público. Junto de si, Pedro Costa era também foco do visionamentoque levou a uma reflexão conjunta a que mais tarde me cheguei a juntar. Esperei dois anos para que conseguisse finalmente assistir ao filme indicado pelo professor numa sala de cinema e poder tirar as minhas próprias conclusões. Além disso em Portugal poucos são os nomes femininos no cinema e sendo assim queria entender o destaque que a cineasta parecia ter. O filme era Os Mutantes e até hoje essa foi a única oportunidade que as distribuidoras portuguesas me deram para conhecer, em sala, o cinema de Teresa Villaverde.

O plano próximo aos cabelos de Andreia (Ana Moreira), que posteriormente nos deixam a par do contexto em que a jovem se insere, ainda me cativa. Mais tarde iria compreender que os elencos femininos dos filmes de Villaverde têm tendência a exercer uma beleza que camufla o seu oposto. É difícil ficar indiferente ao rosto ausente, magro, que parece contemplar um vazio criado por si mesma como refúgio à falta de beleza em seu redor. O mesmo vazio parece ser retratado nas obras de João Canijo. Também o realizador costuma escolher ambientes problemáticos e negativos para a condição humana ou familiar. Semelhante ao espírito apático de Lúcia (Anabela Moreira) em Mal Nascida de João Canijo, Andreia, protagonista de Os Mutantes, é inserida num ambiente que não foi escolhido por si, e que terá de lidar com isso até aos seus últimos dias por falta de melhores oportunidades. E a maneira como ambas se mostram no grande ecrã propõe um distanciamento entre espetador e personagem. No sentido em que parece que quem vê o filme nunca conseguirá sentir na pele o que a personagem realmente sente ou mesmo antecipar as suas ações. Há sempre um vazio contemplado que parece guiar as suas decisões mais violentas.

Estas duas personagens podem ser comparadas em diversos patamares – ambiente, ações e a sua representação pelo cineasta. Canijo cria Lúcia numa aldeia do interior de Portugal, conservador, que a estreita a ser um tipo de mulher conformada e descuidada, até agressiva; Andreia, adolescente, igualmente vive num sítio onde não se enquadra, com condições limitadas e ausência de carinho. Apesar de serem ambas retratadas numa crescente decadência que as leva a tomar atitudes violentas, existem algumas diferenças que vão além da idade. Em Os Mutantes, Andreia faz parte de um grupo de jovens que sobrevivem numa casa de gaiato, e apesar de isso fazer com que ela inevitavelmente se torne uma Lúcia, sem qualquer tipo de cuidado higiénico e mal-educada, a personagem é criada por Teresa com um certo encanto. Não retiro a ideia de que igualmente se encontre um certo tipo de encanto na beleza grotesca de Lúcia, mas as personagens femininas de Villaverde parecem transparecer um belo contrastante face ao contexto em que se inserem. Diria até que se nos aproximássemos de Andreia nem diríamos que se tratava de uma jovem fugitiva de uma casa de acolhimento. E isso pode ter a ver com os propósitos do tema em que Teresa se debruça nas suas obras.

Comparação de beleza entre Lúcia, acima, (Mal Nascida de João Canijo) e Andreia, abaixo (Os Mutantes de Teresa Villaverde).

Andreia parece alvo de um romantismo ligado ao patriarcado. A sua pele é limpa ao ponto de vermos apenas como desgaste umas simples olheiras, os cabelos corridos e uma beleza que se encaixa no padrão social. Não tem qualquer característica que se afaste da fantasia dos homens. No entanto, é somente uma adolescente. Villaverde retrata a dualidade da juventude singela com um embate da realidade demasiado dura para alguém tão novo. Quase o mesmo cenário com que se depara Jeffrey (Kyle MacLachlan) de Blue Velvet, ao se ver obrigado a desvendar algo que vai além da sua maturidade. A diferença é que as personagens da cineasta portuguesa raramente parecem ter livre-arbítrio. E não sei até que ponto é que o seu sexo poderá ser mais que um mero acaso no seu encurralamento.

Maria (Maria de Medeiros), uma das personagens dos Três Irmãos e representada na foto de capa, é retratada como um elemento essencial à narrativa, mas parece não merecer o seu destaque. O mesmo parece acontecer com Andreia, observamo-la a ter o seu filho sozinha, numa bomba de combustível e de seguida abandonar o mesmo, sem qualquer apoio médico ou familiar, e também Maria acaba por falecer no asfalto de uma rua noturna sem chegar a alcançar os irmãos. As peças não se comprometem com soluções. Dos dois tipos de espetador existentes um encontra-se em frente ao ecrã e ao ver o filme espera que os anseios da história tenham uma solução; e o outro “intra espetador”, dentro do filme, lida diretamente com as ações violentas e prejudiciais das personagens no local e não se impõe. O facto de haver dois espetadores, um deles que espera uma solução e que espera que o outro, presente na narrativa, interfere, não são pontos de incentivo para que realmente haja um desfecho feliz nas histórias. E isto acontece com objetivo de se ser fiel à exposição dos temas indissolúveis que acontecem no escuro da realidade.

O filme desta vez abordado é Transe, na edição de 2016 do festival Leffest no Estoril. Paulo Branco, na sua conversa com Ana Moreira, atriz que representa duas protagonistas da cineasta, também presente, tenta esclarecer que Teresa nunca teve o objetivo de criar filmes documentais. O apontamento é feito com base na ideia de que apesar de a cineasta ter um trabalho de pesquisa, é igualmente partilhado por Pedro Costa, há uma necessidade de transpor a narrativa para ficção. O produtor afirma que isto acontece de forma a “tocar-nos muito mais do que um simples documentário”, o que pode ser subjetivo e discutível. Talvez a afirmação de Branco carregue a suposição de que o interesse pelos documentários diminuiu e que a forma de captar a atenção do público para a sensibilização de (no caso de Transe) tráfico humano seja através de uma ficção com pesquisa envolvida. Além disso há também uma leve suposição, tanto no trabalho de Villaverde como no pensamento do produtor, de que o filme documental foi limitado a um formato padronizado ligado ao sensacionalismo, decorrente de abordagens comuns. Este parece ser um dos motivos para expor a ideia de que não houve de todo intenção de fazer um documentário, o que pode ser compreensível. No entanto continua a ser ambíguo constatar que o cinema de Teresa Villaverde reside num formato puramente ficcional. Não estou tão segura disso.

António Júlio Duarte durante as filmagens de Colo

A única oportunidade que tive de ver a cineasta foi numa breve conversa com o público antes da exibição de Os Mutantes no Cinema Nimas. Semelhante à conversa tida no Leffest’16, Villaverde esclareceu alguns pormenores de pré-produção relativos ao filme. A idealização da peça fílmica provinha da vontade de criar um documentário sobre as condições dos jovens que residiam numa casa de acolhimento em Lisboa. O contacto com os jovens, futuros mutantes, já se teria iniciado quando foi indicado à cineasta que não poderia concretizar o documentário. O filme foi assim produzido com atores e efetivamente, em algumas cenas, como figurantes, os jovens da casa de acolhimento apareceram sem que Teresa Villaverde estivesse à espera ou provocasse essa aparição.

Sendo que a pesquisa já teria sido feita e havia uma necessidade de representar as fugas dos jovens e respetivos problemas na rua, mesmo que através de uma ficção, foi impossível não entrar em contacto com a realidade inspirada. Isto não está longe do cinema de Jean Rouch e consequentemente do cinema documental. No entanto, a reação do público poderia ter sido diferente e/ou distante se tivessem possibilitado a Teresa Villaverde a realizar em formato documental. Mas com isso naturalmente também o seu percurso teria mudado e não estaríamos a ver o seu público como ele é hoje.

Apesar dos filmes da cineasta não serem etno-ficções, os temas privilegiados têm, naturalmente, ligação com pesquisas antropológicas. O facto de Teresa Villaverde ser uma mulher a trabalhar numa indústria maioritariamente de criadores masculinos traz para o ecrã uma perspetiva renovada e que pode não ser representativa do todo. Pois, para o efeito, uma mulher habitualmente terá características e representações quotidianas e sociais diferentes face ao que uma personagem masculina possui. Umas por motivos biológicos outas por motivos misóginos. A idealização da igualdade de géneros não chega a evitar as problemáticas que uma mulher tem de enfrentar ainda.

Nos casos já abordados, Andreia (Mutantes), Maria (Três Irmãos) e Sónia (Ana Moreira) (Transe) são raparigas que já sofrem com imposições sociais que as sujeitam a situações precárias e incompreensíveis socialmente. Uma mulher – e prefiro referir-me e a estas personagens assim, devido a uma maturidade acelerada, ainda que em certa parte sejam menores – que reside numa casa de acolhimento e foge repetidamente nunca terá a mesma experiência na rua que um homem no mesmo contexto. Uma mulher que vê o seu espaço familiar destruído e consecutivamente o trabalho ameaçado não suporta o mesmo que um homem. Uma mulher que se vê obrigada a abandonar o seu país muito dificilmente será aceite num novo espaço como um homem. O facto de em Os Mutantes vermos dois jovens rapazes serem explorados de forma a ganharem uns trocos é mais surpreendente do que vermos estas três mulheres passarem por dificuldades e abusos de terceiros que levam à degradação da sua integridade pessoal. E isso é algo que é mais rapidamente possível explorar e representar no grande ecrã se primeiro for estudado e reconhecido através dos grupos sociais que se queiram abordar. E nada melhor que uma mulher para expor problemas que envolvem mulheres. Mesmo com a distância entre a cineasta e realidades diferentes da sua, o filme ajuda a dar realce às problemáticas e ao seu reconhecimento.

Fonte: Imagens retiradas do filme Colo, através de rtp.pt/play

Também a classe social é um tema em foco no cinema de Teresa Villaverde. Em conjunto com o olhar feminino e adolescente, as condições financeiras são o centro de ligação desfavorável de diversos indivíduos das suas obras. Marta (Alice Albergaria Borges) ainda não foi referida até ao momento. Faz parte do elenco feminino que Villaverde insiste em manter na sua carreira. No entanto não encaixa com o resto das mulheres – Andreia, Maria e Sónia. Colo tem lugar em várias críticas como sendo apenas mais um filme sobre os efeitos de uma crise económica. Na década passada, Marta e os seus pais (Beatriz Batarda e João Pedro Vaz) vêem os seus privilégios, anteriormente tomados por garantidos, serem retirados após complicações laborais. A sua mãe trabalha em dois locais diferentes e o pai acaba de ser despedido. As duas variantes acabam por provocar inevitavelmente um afastamento entre o casal deixando a filha desamparada e ausente. Este é o incidente dramático da jovem.

Ao contrário dos outros filmes, Teresa aponta que Colo “não tem grito”, violência, levando a que este tenha automaticamente focos e reações diferentes pela parte dos intervenientes. Comparado às restantes protagonistas aqui abordadas, Marta parece a que menos vê a sua vida prejudicada. Primeiramente, tem condições de vida superiores, habita num apartamento em Lisboa, o que a deixa num contexto de longe mais favorável. Portanto aqui o foco já não é tanto perceber como uma mulher encara as suas restrições financeiras e sociais, mas sim como uma família pequeno burguesa lida com tais barreiras. Apesar de isto criar uma descida de classe mais óbvia que nas restantes protagonistas, não é tão difícil como viver na rua. E isto faz de Marta uma rapariga indefesa ainda.

A protagonista ao perceber que lhe foi cortada a luz em casa pede à mãe para comprar velas. Já em casa, a adolescente senta-se impotente, a um nível abaixo da mãe, como uma criança que depende das soluções maternas. Na foto acima observamos Marta conduzir as velas a pedido da mãe, que de seguida começa a preparar o jantar. Alguns segundos da interação entre mãe e filha explicitam a ingenuidade que ainda reside em Marta. A sua mãe ao abrir o frigorífico incentiva à imaginação que as levará a ignorar o corte de luz. Sugere fingirem que simplesmente não lhes apetece naquela noite acender a luz. Ao que a filha responde “Vamos fazer de conta que eu era mais pequena”. Não só a mãe põe em prática uma reação ao problema adequado a uma criança, isto é, ignorar a situação e criar um mundo inocente para a filha não se preocupar, como também a própria ainda se prende na sua juventude puritana. Mesmo que na prática aja como uma adolescente consciente de que a realidade a seu redor se está a decompor lentamente e tenha desejos de fuga, não parece comprometer-se com a realidade. No fundo, ainda não foi forçada a ser uma mulher submissa ao seu contexto.

A banda sonora escolhida por Teresa Villaverde adiciona mais uma camada que se liga às dificuldades das classes desfavorecidas indiretamente. Tanto em Os Mutantes como em Três Irmãos a música que acompanha os créditos é da autoria de José Afonso, compositor ligado à intervenção social. É também este um autor de música do povo, cuja arte não se insere na alta cultura. Quando ouvimo-lo cantar “Numa mancha negra / Numa pedra fria / Que amor não se entrega / Na noite vazia”, qualquer pessoa na sala de cinema, independentemente da sua classe social, irá identificar a mensagem. O que distingue são aqueles que realmente sentiram na pele a ausência de amor nas ruas noturnas desertas. Essa só os mutantes o sabem. E estes não estão presentes.

O ato de ir ao cinema já descarta uma parte da sociedade com menos posses, portanto a amostra nem é representativa. Isto é, os que viriam a sentir a sua solidão partilhada pelo grande ecrã não têm a possibilidade de o experienciar pois não têm sequer dinheiro para um bilhete. Como diria a protagonista de Tristeza e alegria na vida das Girafas – a tristeza significa “Qualidade ou estado do que é ou está triste, mágoa”, mas só Maria no asfalto percebe, na ausência de um dicionário, o que realmente é a tristeza – “É vontade de chorar. Tristeza é quando se morre”. E o cinema de Teresa Villaverde é apenas uma brecha para a tristeza e sofrimento do outro que nem amor tem escrito no seu dicionário.

Artigo redigido por Margarida Ramos

Fonte da imagem de destaque: Leffest

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