Opinião

Apropriação Cultural: Uma questão de respeito e de contexto

Portugal tem complexos de inferioridade. O comportamento não lhe foi diagnosticado; nem é preciso. Somos um país pequeno, facilmente confundido com uma província de Espanha e que só por vezes não passa despercebido devido a alguns reconhecimentos do país. Para além de nos acharmos inferiores por motivos de pequenez territorial, também achamos que tudo o que nos é externo é sempre melhor. Tory Burch, por entre outros casos, mostra-nos o contrário. 

No mês de Março, a designer norte-americana colocou à venda uma camisola poveira, como sendo sua criação, a custar por volta de 700 euros. Se não nos focarmos no ultraje do valor da peça e no erro da designação da origem da inspiração, restam-nos duas componentes – uma apropriação cultural e, posteriormente, uma revalorização da tradição. É considerada uma apropriação cultural, devido ao facto de uma mulher americana usar como sua uma cultura com a qual não está familiarizada e para propósitos dispersos à sua origem. Consecutivamente, há uma revalorização, pois, após a polémica se instalar, o município da Póvoa de Varzim aproveitou o disparo das suas vendas para inaugurar formações, agora esgotadas, com a ideia de qualificar artesãos.

Numa altura em que, em parte, o cidadão comum tem o direito de se ofender e o mostrar democraticamente, torna-se cada vez mais difícil detetar e delimitar as situações que se consideram apoderamentos culturais. O termo surgiu nos últimos vinte anos do século XX como parte do vocabulário da crítica pós-colonial do expansionismo ocidental. Kenneth Coutts-Smith foi um dos primeiros a discutir o tema em “Some General Observations on the Concept of Cultural Colonialism” (1976). Apesar de no arquivo o crítico reunir a noção marxista de “apropriação de classe” e “colonialismo cultural”, não as inclui na frase em que refere “apropriação cultural”. O problema que abrange os termos é detetado no início do século pelos escritores do movimento New Negro e Harlem Renaissance, que estavam preocupados com a caricatura da voz afro-americana e o retrato das tradições folclóricas em programas populares.

Fonte: Greenheart International

Mesmo que esta temática difira de situações que só o indivíduo no singular poderá delimitar e detetar, o conceito de apropriação cultural necessita de uma definição-base que possa reger essas delimitações. Tal como o racismo ou o assédio, por muito que cada pessoa no seu núcleo determine de forma mais restrita ou leviana estas práticas, no fundo, existem normas que delimitam minimamente os preconceitos. Desta forma, a apropriação cultural, no que depender da sua conservação, consistirá sempre na adoção de elementos específicos de outra cultura, incluindo símbolos, objetos e penteados que, removidos do seu contexto original, acabam por assumir significados diferentes. Esta poderá ser a definição-base do conceito. O caso do assédio: referir-se-á sempre a um comportamento incomodativo para outra pessoa. Aquilo em que na prática consiste esse incómodo, no entanto, já difere consoante os indivíduos envolvidos na situação. Isto é, para algumas pessoas um piropo faz parte do grupo de signos que investem numa comunicação incomodativa, enquanto outras pessoas não englobam essa interpelação na temática do assédio. No caso da apropriação cultural, é acrescentada a ideia de que, de entre as duas (ou mais) culturas envolvidas, a que está a ser apropriada faz parte automaticamente de uma comunidade minoritária ou submissa. Esta afirmação tem algumas pontas soltas e suposições que poderão incentivar a contínua existência da apropriação em si.

Ao longo dos séculos é acessível, de forma educativa, a noção de que alguns povos foram submetidos a situações precárias. Isto, no entanto, não deve resumir a existência desses povos aos abusos a que são sujeitos por outras comunidades. A escravatura ou o massacre da extrema-direita são acontecimentos que, inevitavelmente, marcam gerações e levam a constrangimentos no grupo; e, por isso, é desrespeitoso achar-se que as comunidades vítimas desses abusos são inferiores. A ideia de que uma vítima é uma vítima, em qualquer cenário, por ser fraca é falaciosa e deve ser imediatamente repensada. Para além de estarmos a dar motivos para essas condutas terem acontecido, estamos também a acreditar que realmente uma comunidade é inferior a outra. E, desta forma, não só os constrangimentos se mantém como a definição de apropriação cultural é idealizada através de uma defesa cultural, individual e de grupo. Se eu me insiro numa comunidade que tem histórico de abusos sofridos, mais facilmente vou estar ciente e na defensiva relativamente a futuras aproximações ou interações. É compreensível e deve ser respeitada a ideia de que essa comunidade será alvo de apropriações por ser, numa perspetiva histórica, submissa ou minoritária, o que já é questionável e fica ao critério de cada um. 

Não é falso indicar que haja, talvez, uma tendência para o grupo cuja cultura está a ser apropriada ser o mesmo que anteriormente foi abusado e rejeitado por outros povos. Basta perceber a origem da apropriação cultural para se compreender que provém de preconceitos cuja existência já foi demonstrada no passado. Claro que a transferência cultural não contém, diretamente, uma conotação de ódio, mas a sua identificação pode provir de um desdém. Creio que o que incomoda as pessoas cuja cultura vem sendo adulterada não é o facto de um indivíduo de outra cultura a manifestar, mas o contexto em que essa manifestação é feita.

Fonte: African American Hairstyles

No caso dos penteados africanos, cornrows, box braids, bantu knots ou twists, (traduzido por ordem: trancinhas, tranças em caixa, coques pequenos ou tranças em texturização) são habitualmente símbolos culturais pseudo-patenteados por outras comunidades. Mais recentemente, mulheres negras têm expressado indignação sobre esta utilização nas redes sociais, com os devidos motivos históricos que carrega. Entre 1948 e 1994, o teste do lápis era frequentemente utilizado de modo a avaliar se uma pessoa era caucasiana ou negra. O método consistia, portanto, em enfiar um lápis no cabelo do avaliado – se o mesmo permanecesse no cabelo, indicava que a pessoa era negra. Esta era uma das formas de segregar pessoas negras e de as impedir de atender funções em escolas ou eventos. Para além de os penteados da comunidade específica serem um fator de discriminação racial, são também usados pelos povos como expressão cultural e de liberdade. As tranças, por exemplo, eram feitas mediante a rota da fuga idealizada e também como meio de comunicação entre os escravos. Também por entre as tranças as mães criaram o hábito de prender sementes, de forma a que os filhos pudessem ter algo que comer caso fossem separados do mesmo leilão de escravos.

O cabelo africano, ao ser apropriado por outras culturas, não deve ser menosprezado. Só pelo estilo de penteado conseguia-se, antes da colonização do século XV, perceber a classe social, a religião, a cultura, a tribo, o estado civil e a idade de um membro da cultura em questão. A apropriação recente dos penteados interfere no bem-estar da cultura negra – não só devido ao seu histórico e importância cultural, como também, e creio ser este o ponto fulcral, devido ao facto de ainda ser fonte de discriminação. Que as mulheres sejam obrigadas a usar peruca nos seus postos de trabalho por receio de voltarem a ser rejeitadas ou terem de rapar os cabelos de forma a manter uma “ordem social” imposta é opressivo e desumano. 

Fonte: Emaze

Se existe maldade, ela não está concretamente na utilização de penteados, costumes ou práticas de outras comunidades que não a nossa. Se fosse caso seguirmos essa ideologia, não poderia haver qualquer partilha de tradição que fizesse parte do nosso ser e estaríamos restringidos a um grupo culturalmente inflexível. Jean Rouch, antropólogo e cineasta representado na foto de capa, não poderia de forma alguma fazer documentários ou etno-ficções cujo sujeito representado fosse negro  – pois Jean Rouch não é negro e nunca saberá o que é ser negro. E quem não sabe está calado e restringe-se ao seu núcleo interno. Eu não poderia, igualmente, estar a escrever este artigo, visto que me insiro numa cultura que não as que anteriormente referi. Nem teríamos o prazer de nos dirigirmos a um espaço que promovesse a gastronomia asiática, por exemplo. É preciso e inevitável que as culturas se cruzem, que se conheçam e que se adquiram alguns costumes de outras em prol de uma maior realização individual. Arrisco-me a dizer que o contexto faz a base da definição de apropriação cultural. Ou pelo menos delineia os contornos entre apropriação e apreciação. Esta última vela pela atenuação de discriminações e cria uma neutralidade que não visa menosprezar a cultura, mas o seu direito à existência a par de outras tantas. 

Num discurso prático, a apropriação cultural ruma à falta de conhecimento sobre o próximo. Em alguns casos, a execução não é acompanhada por uma compreensão do que está a ser acolhido e não só é grave para o afastamento entre culturas e seu acolhimento, como também demonstra uma falta de caráter e desinteresse pelos signos que transmitimos para o exterior. O contexto entra no panorama de forma a criar entendimento sobre uma possível apreciação ou sobre se realmente o desprezo leva a uma apropriação de uma cultura que não é, em primeiro lugar, acolhida realmente pela pessoa que a põe em prática. 

Voltando ao caso inicial de Portugal: trata-se, claramente, de uma apropriação, no sentido em que não houve uma preocupação em dar créditos ou em reconhecer a existência da cultura retratada. Relembro que isso também não aconteceu no nosso, nem em nenhum caso, por termos complexo de inferioridade ou por nos sentirmos facilmente ofendidos. Pela parte do ofensor, não houve ideia de colaboração; a cultura foi descarrilada para um propósito diferente do inicial e o lucro foi exagerado. No entanto, provocou um reconhecimento ao se expôr a possessão. E, por muito que a apropriação cultural seja uma prática a evitar, é inevitável ver uma consequência que pode ser favorável ao sujeito inicialmente prejudicado. A questão está em perceber quantos favorecidos saem das situações e se valerá a pena prejudicar a identidade de uma comunidade, sendo que no final só um número, menor, poderá ver o incidente como salto para um maior conhecimento, mesmo que através de uma falta de noção terceira. Talvez seja preferível confiar no trabalho de artistas e de educadores que se disponibilizem a abrir portas a um conhecimento mais proveitoso e que também não tenham intenções lucrativas ou negativas em relação às comunidades de todo o mundo.

Artigo revisto por Andreia Custódio

Fonte da imagem de destaque: Icarus Films

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *