A arte para além de uma moldura

A exposição “Genius or Vandal – an unauthorized show” chegou a Portugal no dia 14 de junho à Cordoaria Nacional, em Lisboa, onde estará aberta ao público até 27 de Outubro.

A exposição tem como “peça de entrada” uma montagem de fotografias que retratam o trabalho do artista, um pouco por todo o mundo. Mostra maioritariamente conteúdos a que facilmente se tem acesso online, o que deixa um pouco a desejar nesta primeira fase. Porém, está longe de terminar por aí. É por entre corredores e salas forradas com pano escuro que se vão revelando murais, cenários teatrais, fotografias emolduradas e até a passagem de um filme em grande plano onde várias obras do artista são apresentadas num novo cenário. 

Tal como é anunciado no cartaz  esta exposição não foi autorizada pelo autor. Aliás, foi através de doações de terceiros – que de alguma forma tinham na sua posse obras do artista – que foi possível reunir esta coletânea.  Apesar de as suas peças poderem ser encontradas um pouco por qualquer parte do mundo, e conterem fortes mensagens políticas e sociais, o artista, que assina como “Bansky”, escolheu manter a sua identidade secreta. Contudo, apesar das limitações na busca por peças exclusivas, a verdade é que bastaria que uma só obra do artista fosse exposta para captar o interesse do público, uma vez que este um exemplar de excelência da street art moderna. 

A street art não está presente em Portugal apenas através de exposições. Todos os dias estamos rodeados de obras artísticas que envolvem todo o espaço exterior à nossa volta, desde fachadas de prédios e murais a armazéns abandonados. 

              São vários os street artists portugueses que merecem um lugar de destaque neste artigo: Bordalo II, Vhils, Pantonio, Daniel Eime, Cardoz, Ozearv, entre muitos outros cujo trabalho preenche as ruas com um pouco mais de cor. 

João Maurício, também conhecido comoViolant, é um street artist português de renome. É nele que este artigo se centra. O artista tem 30 anos e tem vindo a deixar a sua marca, dentro e fora,  sensivelmente desde os 21 anos. Tudo começou “quase sem pensar nisso”, confessa o artista. Foi a partir de um stencil, pintando em forma de protesto no bar da escola, que fez o seu primeiro autorretrato. 

Seguiu-se a exploração do stencil até ao dia em que, ao pintar uma vespa, quis fazer um ninho à mão para complementar a pintura.“Desde aí nunca mais usei stencil”, conta. A mão livre abriu-lhe muitas portas de curiosidade artistística. Foi em lugares abandonados, como fábricas ou velhas fachadas, que começou a aperfeiçoar os seus trabalhos. 

Tirou o curso profissional de Marketing Relações Públicas e Publicidade. Só mais tarde se formou em Artes em Santarém, onde começou realmente a descobrir o gosto pela pintura. 

              Porquê Violant?

                            – Violant vem de Violante, que é um nome próprio. Procurava de alguma forma algo com um significado pungente, que não fosse suave. O mundo da street art em Portugal é ainda muito fundado no propósito de alegrar à vista e não aprofunda alguns dos temas que são mais importantes, mais sérios. 

“Queria que o próprio nome mostrasse isso. É preciso uma certa violência, um certo murro no estômago para acordar.”

              Que mensagem existe para lá das pinturas? 

Tenho várias. Gosto de dizer várias coisas, como aquilo em que penso. Gosto bastante de pegar em temas mais antigos, mitológicos, transformá-los e dar-lhes um toque de contemporaneidade.

 Gosto muito que nos observemos a nós próprios e às nossas ações, que vejamos certas belezas. Dou destaque ao reino animal nas obras, aos problemas com o ambiente, aos sentimentos.

“É muito autobiográfico: pego em muitas metáforas para falar de mim próprio, muitos dos muros refletem, de maneira escondida, aquilo que penso e sinto.” 

              Foram bastantes os nomes, maioritariamente internacionais, que João indicou como sendo o alicerce das suas inspirações. Contudo, reforça que, ao contrário de vários artistas, tenta combater sempre a eminente estagnação nas suas obras: “Existem os que me inspiravam há 5 anos ou quando comecei, mas a repetição mudou isso.” 

ROA, artista belga, e Aryz e Borondo, espanhóis, são alguns dos seus maiores exemplos. Foi, contudo, Robert Proch, de nacionalidade polaca, aquele a quem João pediu que fosse dado o lugar de destaque, uma vez que o artista faleceu no passado mês de julho, aos 33 anos. “A depressão no mundo das artes é complicada”,  afirma. 

Artigo revisto por Adriana Alves

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