A Guerra dos Tronos e os seus teóricos

Este artigo contém spoilers.

A produção multimilionária da HBO está a chegar ao final. Tudo começou com o interesse imediato de David Benioff e D.B. Weiss pela coletânea de livros escritos por George R. R. Martin. Os produtores leram-nos quase tão rápido quanto o público se apaixonou pela teia de intrigas que ia de Westeros a Essos.

Neste mês de abril, abdiquei das minhas horas de sono nas madrugadas de domingo para segunda-feira, mesmo sabendo que teria um dia inteiro de trabalho pela frente quando acordasse. É este o empenho de muitos ávidos espetadores de Game of Thrones, correspondendo à dedicação de uma equipa vasta, que desenvolve os complexos cenários e efeitos especiais que tornam esta série uma obra de arte.

Se acompanhaste cada episódio conforme este era lançado ou comprimiste uma jornada de dez anos em alguns dias de binge watching, sabes o quão envolvido se fica. Entre as nobres casas, os sombrios casamentos e o partir das correntes, é difícil não se ficar apegado a personagens tão bem construídas, especialmente quando elas têm planos que parecem ser concretizáveis.

Apesar de os dragões darem a ideia de que tudo é possível, no mundo de Game of Thrones muitos dos planos inicialmente apresentados acabam com os homens e mulheres neles envolvidos a retalhar-se entre si. E, com eles, desaparecem também as suas legítimas campanhas pelos Sete Reinos – ou por apenas um deles. Se não aprendes essa lição logo no início, torna-se difícil ter estômago para assistir, por exemplo, ao que acontece com a filha de Stannis Baratheon, Shireen.

Fácil é trocar os nomes (quem escolheu Beric Dondarrion claramente queria evitar que os críticos falassem sobre esta personagem), os símbolos, as árvores genealógicas e as alianças. É uma questão de atenção. Petyr Baelish, por exemplo, parece ter passado o seu percurso na série em constante mudança de posição estratégica. Mas não foi muito difícil perceber que, para ele, Littlefinger, o que importava era o seu único verdadeiro interesse: ele próprio.

Fonte: IMDb

A noção de que tudo está interligado, seja por grandes ou pequenos nós, é inegável ao longo das primeiras sete temporadas. Em cada episódio visitamos um lugar diferente, onde vemos o que um ou outro elemento da história está a fazer para chegar a algum lugar. Arya Stark, por exemplo, sobreviveu às condições mais inóspitas e às pessoas mais intragáveis. Não para revelar a sua real natureza, pois esta é dita desde o pilot, mas para a afirmar. Foi tão gratificante ouvi-la dizer “a girl has a name”!

Fantásticas paisagens e horripilantes assassinatos são algo tão presente na série que, por vezes, ficamos incrédulos. Talvez até possamos ter sido um pouco ingénuos, mesmo com os discursos, que mais literais não poderiam ser. De facto, Game of Thrones, como outras obras, é a evolução das suas personagens, mas não é sobre heróis puros e vilões que são malvados apenas porque o roteiro disse. Não é, também, sobre pessoas que vão de um lado do espetro ao seu extremo oposto por ser a coisa correta a fazer.

Quando Daenerys Targaryen disse que iria conquistar, com fogo e sangue, tudo o que sua família havia perdido – e repetiu-o em dezenas de episódios -, não foi um lapso. Era um aviso: um que boa parte dos espetadores decidiu ignorar por apreciar tanto a glória da khaleesi, que libertou os escravos e foi escolhida pelos dothraki. Porém, não se resumia a isso.

Fonte: IMDb

David Benioff e D.B. Weiss têm recebido intensas críticas devido ao que sempre foi o seu maior desafio: dar um final digno a Game of Thrones. Até as coisas que são boas devem acabar um dia, e os produtores tiveram de fazer a série acabar bem para milhões de espetadores. Benioff e Weiss afirmaram em entrevistas e vídeos sobre os bastidores que tomaram decisões importantes quanto ao desfecho há muito tempo. Carregam, nos seis últimos episódios, expetativas acumuladas de uma década. Acabarem todos felizes é ainda mais fantasioso do que três dragões ou white walkers.

Muitos já estranhavam esta oitava temporada pelo simples facto de o seu formato não ser o mesmo das anteriores. Como é – ou deveria ser – óbvio, juntar personagens que antes estiveram espalhadas por dois continentes gera novas dinâmicas. A esse desconforto, soma-se a noção de que os episódios estão repletos de cenas finais – algumas personagens ganham o seu momento a solo, outras vão em grupo. Dizer adeus nunca é fácil, e o público – que ingenuamente quis distribuir redenção, sanidade e imortalidade para todos – parece estar decidido a contestar cada um destes momentos.

Assistir à série Game of Thrones é, para várias pessoas, parte de um compromisso: uma rotina consigo mesmo ou um ritual que partilham com os seus amigos. Levar a sério e levar a peito cada detalhe é o que está por detrás do amargor das críticas que esta última temporada tem recebido. Criar expetativas sobre a nossa personagem favorita faz parte. Achar que todas elas se concretizariam mesmo depois do Red Wedding é muito inocente (mesmo querido, devo dizer). O meu conselho é que assistam a toda a série de novo: se não servir para explicar os desfechos, ao menos servirá para matar a saudade.

Fonte “thumbnail”: IMDb

Artigo revisto por Mariana Coelho

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